29.4.08

MAR DE NUVENS

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Todas as manhãs a rotina era a primeira a levantar-se e a tomar o pequeno-almoço. Já confortada decidia-se a iniciar o dia. Às vezes ainda pensava iniciá-lo de maneira diferente, mas depois decidia proceder da maneira igual ao dia anterior, ou não fosse ela a rotina.

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Assim, começou por acordar a mãe bem cedo, ainda antes dos outros. Depois foi acordar o pai com o barulho da água a correr para o duche, e por fim lembrou a mãe de chamar o filho, primeiro suavemente, depois mais energicamente, e por último destapando-o com a lengalenga do costume, O teu pai já está vestido e se queres boleia para o liceu, levanta-te já. Enquanto a rotina tomava o segundo pequeno-almoço na companhia do pai, este preparava-se para sair, ao mesmo tempo que voltava a cabeça para o corredor e dizia em voz alta, Vou sair daqui a cinco minutos, se queres boleia, despacha-te.

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Tinha acabado de se vestir, quando ouviu a porta da entrada bater com força. Alguém tinha que arranjar aquela fechadura, pensou, enquanto ouvia o som familiar do motor da carrinha Opel, a começar a trabalhar. Ia a sair quando reparou que estava descalço. Voltou atrás, ao mesmo tempo que o som familiar da carrinha, se afastava em direcção à calçada. Resignado, deu um beijo à mãe, apanhou o velho bornal de lona da tropa com os livros e cadernos, juntamente com o chapéu de abas largas que tinha a mania de usar, e saiu a correr em direcção ao Largo da Boa – Hora para apanhar um eléctrico. A linha de eléctrico e o caminho para o liceu eram os mesmos, por isso não perdia tempo em ir por ali.

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Teve sorte e ainda foi a tempo de saltar para a traseira dum, agarrando-se à grade do lado exterior. O eléctrico ia cheio e assim era uma maneira de o apanhar. Os tempos de andar na pendura já lá iam, mas por vezes justificava-se, como naquele dia. Nem tinha que se esconder, o eléctrico ia tão cheio que o revisor nem se conseguia mexer lá dentro, quanto mais aproximar-se da porta. Olhou para o relógio e chegou à conclusão que talvez chegasse dentro da tolerância dos cinco minutos, senão estava feito, era mais uma falta a juntar a algumas que já tinha.

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Ia a chegar ao Largo do Rio Seco, quando viu de relance um carro com riscas azuis. A bófia, deixou escapar no sobressalto, enquanto saltava instintivamente do eléctrico em andamento. Não reparou no VW carocha, que entretanto decidira ultrapassar o eléctrico, e sem saber bem o que lhe estava a acontecer, começou por ouvir um som abafado mesmo por baixo dele, a janela do eléctrico passou-lhe de repente no canto da visão, enquanto o azul do céu tendia para a casa em ruínas que lhe estava à esquerda, e a sua própria sombra aproximava-se rapidamente de si. Caiu com a rapidez com que se levantou. Todos olhavam para ele, estáticos, como se estivessem congelados e ele fosse o único animado de vida. A bófia, lembrou-se, e desatou a correr em direcção ao túnel do Rio Seco, no instante em que o condutor do carocha saía do carro, ainda sem perceber bem o que se tinha passado.

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Saiu do túnel quando viu o carro com riscas azuis a subir a calçada, e sentiu uma dor alaranjada na anca esquerda. Doía-lhe o corpo mas não tinha nada partido, aparentemente. E agora?, o melhor é entrar no Liceu pela porta do lado sul, é mais longe mas evito ir pela calçada, pensou enquanto se punha a caminho, coxeando ligeiramente. Começou a conferir se não tinha perdido nada, mas estava lá tudo. Quando tinha ido pelo ar agarrou bem o bornal e o chapéu. Também não tinha mais nada para me agarrar, pensou a sorrir enquanto apertava o passo pela Travessa do Giestal acima.

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Entrou sozinho pelo portão Sul, um enorme portão de ferro, desproporcionado em relação à quantidade de pessoas que por ele entravam diariamente. Igualmente fora de escala, era a escadaria que dava directamente para a entrada nobre do liceu. Era como, se a mesma, tivesse sido projectada para acolher um visitante ilustre vindo do rio, Talvez o D. Sebastião, ironizou.

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Não entrou pela secretaria, já tinha passado o tempo dos cinco minutos de tolerância e não queria encontrar nenhum dos porteiros Pides que por ali já deviam andar. Contornou pela direita o edifício, e dirigiu-se ao recreio fechado. Lembrou-se de quando era um miúdo e lá tinha entrado pela primeira vez, naquela altura não tinha portas de madeira e vidro. Era um espaço aberto e frio, só confortável no verão. Já tinham passado alguns anos, suspirou na memória recente. Entrou e pareceu-lhe totalmente vazio. Passeou o olhar distraidamente, e reparou no halo de luz ténue que emanava do vulto sentado ao canto do pátio.

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Curioso, dirigiu-se para lá. Parou quando ela levantou a cabeça e olhou para ele com um sorriso, continuando de seguida a escrevinhar no caderno aberto na mesa enorme. Quando ela sorrira, a luz tinha aumentado. Piscou os olhos como se estivesse encandeado e quisesse ver melhor. Provavelmente uma nuvem que descobriu o sol, pensou. No entanto continuava parado no mesmo sítio, sentindo-se um pouco ridículo. Só lá estavam os dois, ela escrevia e ele fazia figura de parvo. A anca começou a doer-lhe de novo, era uma dor latejante, agora a tender para o roxo. O roxo lembrou-lhe o manto do Senhor dos Passos, uma das figuras que saíam para a rua nas procissões da Igreja. O tempo tinha-se fundido com o espaço, e tudo se passava a um ritmo bem lento. Ela continuava a escrever sem lhe dar muita atenção e ele já estava no ponto em que ouvia distintamente todos os ruídos que o envolviam. Antes de começar a ter pena de si próprio avançou em direcção àquela luz que o intrigava e ouviu-se a dizer, Olá, que estás a fazer? respondendo mentalmente para si próprio, A escrever que está um estúpido a perguntar-me o que estou a fazer.

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Ela voltou a sorrir e disse-lhe que, Estou a acabar um poema sobre o mar cheio de nuvens, queres ouvir? Quando acabou, e lhe perguntou se tinha gostado, ele demorou um pouco a responder que sim. Demorou o tempo necessário para descer das nuvens e mergulhar no mar da razão, para fazer sinal com a cabeça, e dizer uns sons meio desconexos. Reparou também que a dor na anca tinha desaparecido. Sentindo-se bastante confortável arriscou um, Sabes, eu às vezes também faço uns poemas, só que nunca os mostrei a ninguém. Nem aos teus amigos? perguntou-lhe ela no sorriso cada vez mais luminoso. Os meus amigos não gostam de poesia, acham que é uma coisa feminina. São uns toscos, desabafou. E tens aí alguma para se ver? Não tenho, mas posso trazer-te amanhã. Tá bem! Passamos a encontrarmo-nos aqui neste lugar e trocamos poemas. Que achas? Ficou com o sim entalado na garganta, enquanto ela se despedia com um até amanhã.

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Nem tinha reparado que já tinha tocado para a segunda aula da manhã. Subiu as escadas a correr, e ainda entrou a tempo da aula de Organização Política com o Jaiminho.

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. (para ti, meu querido B, uma estória do tempo da outra senhora.)

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17.4.08

CAMINHOS CAMINHADOS

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Tinha o hábito de passear por ali. Começou por um acaso e por qualquer razão desconhecida passava sempre por ali. Começava longe, sem rumo definido e sem pensar. Ia vagueando por caminhos e veredas, por estradas e atalhos, e sem se aperceber, acabava sempre a passar por ali.
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As estações mudavam, a palete de cores da paisagem mudava, a temperatura mudava e com ela as vestes que levava para os passeios. Lembrava-se daquela vez que apanhara uma chuvada imensa, daquelas que já não nos importamos que esteja a chover ou a fazer frio, daquelas em que nos deixamos de sentir. Lembrava-se, porque tinha começado a chover quando ali chegara. Porque é que aquele lugar era tão especial? Seria do mar? Ao longo dos passeios passava por sítios que eram muito mais potentes e cativantes. O resto do percurso teria alguma coisa de especial? Até era um pouco desinteressante, banal e saloio. Por aí também não ia lá, pensou. Chegou a fazer pesquisa na Net e em alguns livros sobre aquele sítio. Aparte uma ou outra curiosidade histórica, uma ou outra adega famosa em tempos de vinhos que já se beberam, não havia mais nada de interessante. No entanto continuava incessantemente a ser atraído para ali. Desistiu de lutar e abandonou-se ao sei lá.
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Uma manhã, daquelas de partir pedras com o frio que fazia, saiu como de costume bem cedo e decidiu ir na direcção oposta ao percurso usual. Sentiu uma espécie de libertação e começou a ficar ligeiramente eufórico. Subiu a serra e enveredou por caminhos nunca antes trilhados. Entrou no nevoeiro e perdeu-se, saboreando aquele limbo silencioso e húmido. Vagueou em silêncio, perscrutando sons e sombras do inconsciente sonhador. Pelo carreiro a ficar cada vez mais pedregoso, percebeu que se estava a aproximar dum local habitado. O carreiro fez-se rua, a rua levou-o à estrada e a estrada desembocou no atalho. Reconheceu a casa, olhou bem para se certificar que não era engano, causado pela pouca visibilidade, e chegou à conclusão, um pouco incrédula, que estava de novo ali.
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Foi então que a viu sair de casa, difusa e etérea como um anjo. Flutuava na névoa que tudo envolvia e brilhava como uma gota de orvalho. Percebeu o que o atraía àquele lugar, o que o levara vezes sem conta até ali. O seu olhar cruzou-se fugazmente com o dela e sentiu uma queimadura na parte de trás do crânio. Não teve tempo para fazer mais nada, só o instante para se desviar do carro, que saiu apressado pelo portão da casa em direcção à estrada. Ainda sentiu, ou pensou sentir, um leve perfume a esbater-se no ar enevoado. E ficou ali, parado no tempo e no espaço, ali onde sempre quisera estar.
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Continuou a dar os seus passeios e continuou a passar sempre por ali. A diferença residia no facto de agora deixar sempre na caixa do correio da casa uma flor, ou um pequeno ramo de flores que apanhava no caminho. Nunca mais a tinha visto mas deixava sempre uma flor. Por vezes imaginava que era surpreendido a colocar a flor ou o ramo de flores na caixa do correio e corava. Se tal acontecesse, não saberia como reagir.
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Um dia, um amigo que por vezes passeava com ele, perguntou-lhe porque é que punha sempre uma flor ou um ramo de flores naquela caixa do correio, e ele respondeu-lhe simplesmente, É porque sim! O amigo nunca mais lhe perguntou sobre aquilo. Sempre que passavam por ali, e era quase sempre, o amigo já nem olhava. Era como se fosse um ritual.
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Até que um dia, passados alguns anos, passeavam como sempre pela serra e não passaram por ali. Continuaram no trilho sem desvios e com passo decidido, e ele não se desviou do caminho nem cumpriu o ritual do costume, pôr uma flor na caixa do correio. Seguiu decidido a caminho do cabo sem olhar uma única vez para trás. O amigo começou a ficar intrigado, olhava para ele a tentar descortinar o que se passava, mas ele não dava hipóteses, seguia em frente com passo decidido e vigoroso. O amigo não aguentou mais, agarrou-lhe o braço para o forçar a encará-lo de frente, e perguntou, Porque é que não passas mais ali, nem pões a flor ou o ramo de flores que costumas pôr na caixa do correio? Ele olhou para o amigo, depois olhou longe em direcção ao cabo e respondeu, É porque sim!
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11.4.08

A CHUVA MELANCÓLICA

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Garrett imaginou apanhá-la, reproduzindo versos do tal Pessoa, mas a rapariga foi abraçada, lambida e beijada mil vezes pela gente teimosa como gotas de água em direcção aos cafés, concerteza cheios de batatas a fritar em óleo.
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Não era mau, andar ausente no meio da rua com seu livro. Estava preocupada por ser chapéu de chuva, e só lhe restou continuar devido à chuva ser fria.
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Deixou-se encharcar, sem nenhum som, ou, talvez com todos, como os que rebentavam ao mesmo tempo o chão empedrado e ampliado da Baixa.
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Desconstrução caótica do Texto “Rapariga Melancólica em direcção à Baixa”, editado por Abssinto em 09-04-08 (As mesmas palavras numa composição diferente)
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8.4.08

ALL THAT JAZZ

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A sala contorcia-se nos tons de vermelho e preto, como que procurando o foco de luz branca que lhe daria a razão de ser. Ainda faltavam alguns minutos para o show must go on, e talvez por isso se sentisse um certo nervosismo no ar, ou seria a mistura dos cheiros perfumados de sábado à noite a fumarem o cigarro proibido? Fosse como fosse, escolhemos uma mesa bem em cima do palco, salpicado pelas eternas bolinhas de luz branca, na sua incansável orbita circular.
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Um empregado de mesa saído de tempos já idos, serviu as bebidas de circunstância e recostámo-nos na espera. O antigo cabaret, rejuvenescido nas memórias de glórias antigas, ainda ostenta aquele ar decadente chic, tão acarinhado nos tempos que correm. Já não aparecem por lá reis de Espanha, ombreando com Baptistas Bastos ébrios de boémia parquemaérista, nem os novos-ricos nos seus fatos deslumbrados no champanhe do alterne. São outros tempos, modernos e Catitas, abrilhantados pelos artistas do ano dois mil. Até apetece dizer Ena Pá.
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Olhei-te nos olhos, e estavas ausente. Flutuavas na expectativa do espectáculo surpresa, talvez pensando que estarias melhor umas portas mais acima. Acariciaste-me as coxas no gesto furtivo e espalhaste o teu sorriso na minha nudez interior. Os encarnados e pretos desapareceram no frémito clandestino.
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A decadência de uma miss com cabelos no peito rapado, fez-me relembrar o glamour das dragqueens wharolianas. Volta Candy Darling, eu perdoo-te tudo, mas por favor, espalha o teu glamour desaparecido. Era pena o glamour não se vender em frasquinhos, como o perfume. Estava a ser mazinha, pensei cá para comigo. No fundo, era um artista português. Support your local artist, pensei, ou seria dealler?
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A tua mão é que continuava dançando o tango proibido, e no entanto querido. Do tango passou ao foxtrot, e tive que fugir de ti quando o artista de musicall me olhou nos olhos, seria que me via?, e começou a cantar o êxito passado, reconhecido por mim e ignorado totalmente por ti. Todos na sala cantavam o refrão, menos tu e um ou dois envergonhados. Não cantavas porque não sabias. Era a primeira vez que o ouvias e sorrias para mim. Estavas-te nas tintas para o artista de musicall, para a canção do mistergay, e para o Maxime. Senti-me bem especial naquele momento.
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Quando voltámos a casa, enquanto me despia na penumbra, tu remexias febrilmente no armário dos Cds. Emergiste triunfante com um Cd na mão. Quando o puseste a tocar, compreendi de imediato o que me querias dizer.
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Temo-nos a nós no desejo imenso. O resto, o que sobra do nosso olhar sôfrego e terno, não é mais do que, All That Jazz.
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28.3.08

OS TIGRES DE BORGES

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Havia já alguns dias que não se sentia lá muito bem. Vistas bem as coisas, não eram dias, talvez semanas ou meses, ou mesmo anos, não sabia bem. Era uma daquelas coisas que vinha de mansinho, sem aviso nem reparo, e que aos poucos e poucos ia mudando o seu dia à dia, sem que disso se apercebesse. Mas que não se sentia lá muito bem era um facto! O porquê já era outra coisa, pensava, sem saber por onde começar.
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Estaria diferente? Com certeza que estava, mas isso não era motivo para se sentir mal, antes pelo contrário! Sempre se sentira bem com as mudanças, achava que elas traziam sempre uma lufada de ar fresco ao seu quotidiano. Sempre fora assim. Mesmo quando as mudanças eram radicais, ao fim de pouco tempo começava a ler a nova direcção da corrente do rio, deixava-se levar e começava a navegar nas novas águas com entusiasmo redobrado. Estava diferente, mas isso era um facto normal nela, sempre em mudança como as águas dum rio, gostava de pensar. Só que desta vez estava diferente, mas não se sentia lá muito bem. Desta vez o ditado Pós Moderno que gostava de citar assentava-lhe que nem uma luva, Jesus Cristo morreu, Karl Marx morreu, e eu própria não me sinto lá muito bem!
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Começou por fazer uma busca meticulosa por todos os aspectos da sua vida, numa tentativa de perceber o que é que estava a provocar aquele mal-estar generalizado. Tremeu um pouco ao pensar que estava a agir como se fosse um daqueles gurus new age que desprezava, a aplicar um chavão, um lugar comum, para resolver a náusea em que estava o seu caminhar desperto. Pensou também que não tinha alternativa, se não eram os gurus new age, eram os gurus old age, andavam todos aos papéis, a limpar a sala e a despejar os cinzeiros. Ás vezes acertavam, outras vezes não, e o mexilhão que se lixasse, relembrou no velho ditado que dizia, Quando a água bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão!
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Decidiu meter ombros à tarefa e descobrir o que a fazia sentir-se não lá muito bem no seu dia a dia, no seu semana a semana, ou até quem sabe, no seu ano a ano. Decidida estava, e decidida começou a vasculhar a espiral de acontecimentos que a envolvia numa teia quase infinita de causa acção efeito causa. Como seria óbvio, recusou qualquer abordagem esotérica, tipo karma, o príncipe da causa efeito. Se fosse por aí, tudo poderia fazer sentido, era só uma questão de querer para que sim! Qualquer argumento de filme faz sentido, basta nós o querermos, pensava. Por aí não iria, definitivamente. Alem disso, tinha vários amigos que tinham enlouquecido ao irem por aí. E ela não queria que lhe acontecesse o mesmo.
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Tu és a actriz principal do filme que é a tua vida, veio-lhe à memória. Mais um chavão era do aquário, mas que lhe fazia algum sentido. Pois é, der por onde der sou sempre eu a boa ou a má da fita, Tudo gira à minha volta porque a minha atenção está cá dentro. Eu sou? Bom, se penso que sou, serei qualquer coisa, pelo menos sou eu, embora me continue a não sentir lá muito bem. E os tigres do Borges? Onde é que eles entram na minha história? Apareceram porquê? Eu não os chamei, pensou. Se calhar é melhor perguntar ao Cesariny esta cena dos tigres, ele é capaz de saber. O único problema é que eu não conheço o Cesariny, quanto mais fazer-lhe uma pergunta sobre os tigres do Borges. Isto complica-se e desvia-se do objectivo principal, que é descobrir a causa do efeito da acção que leva a que não me sinta lá muito bem, pensou no suspiro longo.
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Afastou o Borges e o Cesariny, personagens contraditórios entre si, e centrou a sua atenção no autor mais importante naquela altura, ela própria. Onde é que não me sinto lá muito bem? Quando é que não me sinto lá muito bem? Perguntas incómodas e cuja resposta ela já sabia, Em qualquer lugar, sempre. Reflectiu na conclusão e chegou a outra, conclusão. Se estou mal em qualquer lugar, sempre! Então é porque me falta algo para me sentir bem, sempre. Porra, já sabia que não resolvia isto à primeira, pensou para consigo. Agora falta-me qualquer coisa para aturar todo este circo que me rodeia. Estão todos passados da cabeça e eu é que me sinto mal. Se calhar é mesmo uma boa ideia falar ao Cesariny, pensou. Começo por lhe falar dos tigres do Borges e depois quando ele não estiver à espera, faço a pergunta chave. Ainda não sei qual é, mas logo se verá.
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O Cesariny quando a ouviu falar dos tigres do Borges, elevou um pouco a voz e respondeu, Já dei para esse peditório! E desligou. Pareceu-lhe ainda ouvir atrás do click um murmúrio a dizer, Que falta de pachorra. Ficou com o telefone na mão tempos sem fim antes de desligar. Tinha-se apercebido naquele momento da solução para o seu problema, da solução para o facto de não se sentir lá muito bem. Sabia que tinha perdido qualquer coisa. Tinha perdido alguma coisa que a fazia normalmente sentir bem. Soube naquele instante o que era. Soube naquele instante que tinha perdido a paciência.
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21.3.08

ONDAS DE PROBABILIDADE

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Custou-me a abrir os olhos e sair do sono profundo em que me encontrava. Como sempre, acordei sem saber quem era ou onde me encontrava. A minha consciência ainda dormia e o meu corpo amarrotado arrastava-se para o duche redentor. Abri a porta do roupeiro e embrenhei-me nos vestidos pendurados. Não era aquela porta, logo só podia ser a outra, a que estava na parede oposta. Não achei estranha a troca. Aliás, naquela altura bem me podia aparecer o Humpty Dumpty, que eu não estranharia.
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Estranhei foi a banheira de grés cinzento-escuro. Não me lembrava da banheira ser daquela cor. Banheira era branca, ponto final. Mas lá que aquela era cinzento-escuro, não o podia negar. E os azulejos também me fizeram franzir a testa. Azulejos de vidro vermelho? Decidi acordar no duche a tender para o frio. Não me serviu de muito. Bastou chegar ao quarto para ficar a pensar onde é que estaria? Aquele não era de certeza o meu quarto. Ou seria o meu quarto, e eu é que seria outra? Confesso que estremeci com o pensamento. Até porque não me apetecia ser outra.
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Não me apetecia, mas tive que ser, à força. A roupa que tinha no roupeiro, era composta por vestidos e tailleurs de marca, daqueles que nunca tive a coragem de comprar. No entanto, vesti um conjunto de saia casaco preto e blusa magenta, com uma naturalidade que me surpreendeu. Não há dúvida que nos habituamos logo ao que é bom, pensei cá para comigo. Mas o desconforto continuava, assim como não saber onde me encontrava. E o desconforto aumentou, quando desci as escadas e entrei na sala vazia. Olhei em pormenor, procurando algo revelador, uma pista, qualquer coisa. E numa das prateleiras da estante de livros, brilhava uma moldura. Quase a medo peguei nela e para meu espanto, lá estava eu, sorridente e abraçada a alguém não totalmente desconhecido. A dedicatória dizia apenas, Para o meu amor, e assinava Jaime. Jaime? Quem era o raio do Jaime, pensei cada vez mais baralhada. Tinha conhecido um Jaime quando andara nas Bela Artes em Pintura, mas ele tinha seguido para Arquitectura e nunca mais o vira. Olhei melhor para a foto, e não achei graça nenhuma ao pensamento de que aquele tipo até podia ser ele. E a estranheza total continuou, até conseguir sair de casa com o pequeno-almoço tomado.
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Na mesinha ao pé da porta, estava a minha mala e as chaves do carro. Escusado será dizer que não era a minha mala e não eram as chaves do meu carro. Mas naquela altura, já dava como dado adquirido que, de facto, aquela era a minha mala, e aquelas eram as minhas chaves do carro. E fiquei paralisada junto à porta. Para aonde é que eu ia? E onde estava o meu carro? Seria que o local onde trabalhava ainda estava lá? Na dúvida, passou-me uma ideia pela cabeça, e procurei febrilmente o telemóvel na mala. De certeza que tinha um telemóvel. E lá estava ele. Um Nokia vermelho e cinzento, como a casa de banho. Era uma mulher muito moderna sem dúvida. Liguei o telemóvel e procurei o nome de Jaime. Lá estava, mais o número e e-mail. Fiz a ligação e foi com o máximo das naturalidades que respondi ao, Olá meu Amor, estou à tua espera para a reunião de coordenação, com um, Desculpa lá, mas o meu carro não arranca. Não me podes vir buscar?
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Abriu-me a porta do carro com um sorriso e um beijo apaixonado. Estás com um olhar diferente, comentou enquanto arrancava. Eu bem te disse ontem que aquela erva era bem potente. Parece que ainda estás pedrada. Não respondi e encolhi-me no assento como se fosse um passarinho sem ninho. O beijo soube-me bem, mas não era o beijo que conhecia. Fiquei curiosa e perguntei-lhe, Lembras-te há quanto tempo é que estamos juntos? Olhou para mim surpreso e respondeu um pouco atabalhoadamente, Que raio de pergunta, lá estás tu com a mania das datas. Que eu me lembre, desde que acabámos o curso de Arquitectura. A ideia de formar o atelier foi tua. Portanto deve ser à volta duns dez ou onze anos. Acertei? perguntou no sorriso a pedir confirmação. Fiquei para morrer, mas lá consegui fazer um sorriso de aprovação para o sossegar. Dez anos? O que me estava a acontecer? Tinha um estúdio de pintura, onde dava aulas particulares, e um emprego numa agência de publicidade, como ilustradora. Vivia com um dos fotógrafos da agência há alguns anos e tinha uma filha dele. Mas onde estava tudo isso? Apetecia-me chorar.
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O resto da manhã no atelier, foi do mais surreal que poderia ter imaginado. Participei em três reuniões sobre obras em curso, onde me pediam opiniões sobre materiais a substituir, cores a alterar e soluções para erros na construção. Para meu espanto, como que entrei em piloto automático e solucionei tudo com uma certeza que não deixava dúvidas. O Jaime olhava para mim com um misto de espanto e aprovação, do tipo, vai-te a eles com força. Quando as reuniões acabaram e ficámos sós, abraçou-me com força, e sussurrou-me ao ouvido, Dá-me tesão quando os desancas assim, sem piedade. Senti-o a caminhar para o ponto sem retorno e deixei-me conduzir no prazer exausto. E uma ideia surgiu no limbo das emoções líquidas.
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Quando esperava pelo início da primeira reunião, tinha visto no jornal o anúncio de uma conferência do Professor Michio Kaku, sobre Mundos Paralelos, Mecânica Quântica e Teoria M. Na altura tinha feito apenas uma leitura bem superficial, mas o bastante para me ficar na memória. Se alguma coisa estranha se passava comigo, e eu maluca não estava, ele seria a pessoa indicada para me dar um palpite. A conferência, dizia o jornal, era da parte da tarde. Saí a correr, com uma desculpa esfarrapada ao Jaime, e apanhei um táxi para a Faculdade de Ciências. A cidade, tal como eu a conhecia, estava na mesma. Parecia que só eu é que estava diferente. Onde é que eu já tinha ouvido isto?
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No rescaldo da conferência, estávamos todos, e digo todos, num estado quase Zen de ausência de pensamento. As ideias expostas desafiavam de tal maneira o senso comum, que ficava uma espécie de êxtase, onde se compreendia tudo, mas depois não se conseguia explicar nada por palavras. Mesmo assim consegui chegar à fala com o Professor, e na breve troca de impressões, ficou-me na memória o postulado de Bohr e Heisenberg, que diz que “Para resolver a discrepância entre Ondas de Probabilidade e a nossa noção do senso comum de existência, depois de ser feita uma medição por um observador exterior, a função de onda “colapsa” magicamente e o electrão cai num estado definido.” Por outras palavras, explicou-me gentilmente o professor, Antes de se fazer uma observação, um objecto existe simultaneamente em todos os estados possíveis. Para determinar em que estado está o objecto, temos que fazer uma observação, o que faz “colapsar” a função de onda e o objecto transita para um estado definido. O acto de observação destrói a função de onda e o objecto assume agora uma realidade definida. Escusado será dizer que me sentia como se fosse o electrão a surfar nas ondas de probabilidade. Algo tinha acontecido, e eu existia num estado indefinido e precisava de alguém para me fixar num estado definido e estável. Saí dali e entrei no café em frente para beber um chá e pensar calmamente como iria pôr a minha ideia, a minha teoria, em prática.
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Enquanto o chá não vinha, procurei no telemóvel o nome do meu companheiro de sempre, como eu o lembrava. Não se chamava Jaime, mas sim Júlio. Não era arquitecto, mas sim fotógrafo. Como já esperava, não constava nenhum Júlio. Pedi a lista Telefónica e fiz uma busca pelas agências de publicidade e pelos estúdios de moda. Como sempre acontece, no último telefonema que fiz, pareceu-me reconhecer a voz dele, um pouco rouca e com uma ligeira gaguez lá atrás. Disse que era uma ilustradora que precisava de umas fotos de nus para servir de base para umas ilustrações, e gostava de marcar uma sessão. Como já calculava, disse que sim. Não conheço nenhum fotógrafo que diga que não a uma sessão de nu. Perguntou-me quando poderia ser. Respondi que tinha pressa, e se ainda podia ser naquela tarde. Quase que rezei para que ele dissesse que sim. A perspectiva de voltar para a casa desconhecida punha-me bastante angustiada. Ok, disse por fim, Apareça daqui por uma hora. Apontei a morada e chamei um táxi. Reparei na saída que o chá continuava por beber. Pensei, Este chá não pertence à minha realidade, e entrei para o táxi.
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Cheguei ao estúdio antes da hora marcada, e resolvi entrar no prédio e esperar no átrio de entrada. O estúdio era numa das lojas do rés-do-chão, e a entrada era pelo átrio. Um sofá vermelho, bem coçado, estava ao lado da porta. Reconheci o “nosso” sofá velhinho. Tantas vezes que o quis deitar fora, mas ele não deixou. Dizia que dava charme e estilo. Como é que teria ido ali parar? Sentei-me e esperei.
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Quando já começava a ler páginas de um livro imaginário, a porta abriu-se. Primeiro saíram duas raparigas magríssimas, modelos sem dúvida. Depois um caixote com rodas, cheio de roupa pendurada, empurrado pelo produtor. Olhei na direcção da porta e vi a tua cabeça assomar em câmara lenta. Olhaste para mim, piscaste os olhos, uma ou duas vezes como se quisesses certificar-te que eu estava mesmo ali, sorriste e disseste-me, O que é que estás ai a fazer? Vi-me aflito com a produção da colecção da Ana Abrunhosa. Bem me podias ter dado uma ajuda! Agora vais pagá-las, e com juros!
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Quando me beijaste, e senti o teu calor, a lembrança da outra realidade diluiu-se no espraiar da onda de probabilidade. Voltava a ser a tua mulher.
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-fotomontagem sobre desenho de Ana Abrunhosa

13.3.08

VAZIO

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Sempre fora diferente dos colegas da faculdade. Enquanto eles se preocupavam com a forma e estilo dos edifícios a criar, ela preocupava-se em criar o vazio interior. Enquanto eles esboçavam o espaço construído, ela esboçava o vazio confinado pelos inúmeros planos que visualizava a pairar no espaço imaginado. Era uma abordagem espacial vista de dentro, orgânica, criando o espaço visível a partir do vazio inicial.
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Os professores olhavam-na como se fosse uma excentricidade do processo de criação artística aceite e venerado. Ela pouco se importava, e foi com um assistente curioso que teve o seu primeiro orgasmo pleno, daqueles que costumam dizer que tem fogo de artifício e multidões a agitar bandeirinhas às cores. No entanto ela não sentiu nada disso. Sentiu-se maravilhosamente suspensa num vazio intemporal, quase sem tempo.
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Acabado o curso, viajou na procura da transcendência escondida no vazio dos templos e acabou por ficar uns anos no Nepal. Tinha ficado muito pequenina no centro da cúpula do templo de Boudhanath Stupa, e resolveu ficar para perceber as linhas escondidas por detrás daquelas pedras aparentemente inertes. Acabou por praticar Yoga e embrenhar-se na meditação profunda e na prática de Pranayama. Aprendeu a ficar vazia de tudo, para que a criação acontecesse. Aprendeu a confiar na visualização da ideia criativa. Os seus cinco segundos de criatividade, como lhe costumava chamar, na brincadeira séria.
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Voltou com uma força quase destrutiva e acabou por chocar os colegas de profissão com as suas propostas. Enquanto eles alardeavam que estavam cheios de ideias para projectar, ela tinha que se sentir vazia de qualquer ideia perante o desafio do projecto. Sentia-se como se fosse a antimatéria. Não desistiu, mas cansou-se de lutar contra o starsystem. E na busca da tranquilidade e do vazio, mudou-se para Évora. Pelo menos lá o horizonte estava bem longe, limpo e vazio de casas. E tinha o Aeródromo, com os paraquedistas do Hangar número um.
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Naquele dia, tudo estava perfeito para o que queria. O tecto de nuvens estava relativamente baixo, aí pelos dez mil pés. A hora já tardia ajudava. O sol estava a caminhar para o ocaso e começava a projectar a luz poente polarizada. A grande sala vazia que era a zona de saltos, a drop zone como lhe chamava carinhosamente, estava iluminada para ela. Era o seu último salto do dia, o mais esperado. Apertou o arnês quase até doer, pediu a verificação do pára-quedas de reserva ao professor e amigo Amaral, e subiu para o Cessna que esperava por ela já com os motores a trabalhar.
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Quando chegou aos dez mil pés, mesmo a tocar o tecto de nuvens, abriu a porta do avião deixando entrar a turbulência e ruído do motor, e espreitou para baixo na vertical. O hangar era um rectângulo pequeno e longínquo, ligeiramente à sua esquerda. Fez sinal com o polegar ao piloto para corrigir a rota e ficou na borda a observar a sua posição em relação ao hangar. Quando achou que o desconto do vento estava bem, gritou um, Corta, para o piloto e saiu para a asa. Olhou-o na certeza, e assim que sentiu o leve pairar do avião saltou para o vazio.
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A sensação era quase a mesma que tivera no seu primeiro orgasmo pleno. Apenas o vento na cara a fazia estar desperta. Viu uma pequena nuvem mais baixa e mudou a posição do corpo de maneira a passar bem no meio. A mancha branca que era o hangar ia ficando ligeiramente maior, o único sinal que estava a cair e a aproximar-se dele. E foi nesse instante que algo lhe chamou a atenção no limiar da visão do lado direito.
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Percebeu o que parecia ser um disco branco a pairar um pouco mais abaixo. Esticou um pouco as pernas e rodou ligeiramente o tronco. O seu corpo acelerou na rotação e aproximou-se com velocidade da mancha branca. Não a evitou. E desapareceu num estalido de alguns milhões de electrões volt. No hangar ninguém ouviu nada. No rádio ouviram-se umas interferências. No campo, um cão ladrou. E o silêncio quase que voltou, não fosse o som do Cessna a aterrar na pista asfaltada.
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Procuraram-na a noite toda, com lanternas de mão, Jeeps com os faróis acesos nos máximos a percorrerem os terrenos envolventes ao hangar. Ao fim de uma semana desistiram. Tinham batido o terreno até Montemor e não encontraram nada. Ficou o carro, estacionado frente ao bar. Ainda lá está, à espera, e vazio.
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8.3.08

BOLINA

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O roupão branco tapa timidamente o meu corpo nu e morno. O portátil ilumina tenuemente o meu peito. Os mamilos erectos espreitam as palavras que se vão juntando na busca do texto coerente. Frases vão-se construindo nas linhas deixadas pelas ondas que rebentam na praia. As ondas são de pensamento. A praia, a folha de papel feita ecrã plano. A apetência da escrita é o desejo do meu sexo húmido no pensamento de ti. Resisto à carícia desejada e sinto a excitação alaranjada a aquecer-me as costas. Mil imagens atravessam o meu sonho lúcido do aqui e agora. Yo-Yo Ma toca a Suite número 1 para violoncelo de Bach e as borboletas adormecidas no meu ventre, acordam e espraiam-se pelo meu peito até saírem pelos mamilos curiosos. Parecem faróis a iluminar o mar com os seus fachos de luz branca intermitente. Os olhos do corpo escrito sonham-te a navegar na minha direcção. Caças as velas na bolina cerrada da Nortada que te separa de mim. Quase que sinto o teu frio. Imagino o Moitessier no calor da Longue Route e aqueço-te na lembrança da nossa paixão. Sabes que te espero, na baía abrigada do meu corpo morno.

2.3.08

CONVITE PARA JANTAR

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Saiu do banho, ainda a escorrer água e sabonete, e correu nua para a janela do quarto de vestir. Afastou levemente as cortinas, no preciso momento em que o descapotável saía da garagem fronteira. Ele olhou para cima, por detrás dos óculos escuros, e a cortina fechou-se rapidamente, meio envergonhada. Só meio envergonhada, a outra metade estava dominada pela excitação que a invadia sempre que pensava nele, o vizinho misterioso e lindo de morrer, como gostava de o adjectivar. Tá bem, É piroso, Eu sei, mas gosto de o dizer. E depois? O arroz doce com desenhos de canela, também é piroso, e no entanto o D. Carlos adorava. Não há dúvida que vocês pertencem mesmo à piolheira, desabafava com um ligeiro abanar de cabeça, e mudava de tema. Não obstante a sua atenção interior, continuar focalizada no vizinho misterioso e lindo de morrer.
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Um dia, enquanto conferia o correio, verificou com surpresa que uma das cartas estava ali por engano. Ao ler a morada e o nome, sentiu as pernas a tremer. Era uma carta endereçada ao vizinho. Leu devagar, a saborear a descoberta, Professor Alberto Ganit. A carta vinha endereçada do Massachusetts Institute of Technology , mais precisamente do Departamento de Matemática. Olhou triunfante para o subscrito e tentou vê-lo à transparência, como se tentasse ver o vizinho lá dentro. Sorriu maliciosamente, agora tinha uma desculpa para conhecer o senhor professor de matemática, menos misterioso mas cada vez mais lindo de morrer.
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Nesse dia à noite, assim que o ouviu chegar, ajeitou o vestido escolhido para a ocasião, elegante e casual como convinha, compôs o penteado e decidida, atravessou a rua e tocou à campainha. A porta abriu-se, e ela imaginou-o a percorrer os passos necessários até ao portão em que se encontrava, numa lentidão própria dos filmes românticos americanos, com o cabelo a ondular na brisa e um sorriso pepsodente, ao qual só faltava a estrelinha a brilhar ao canto dos lábios. Quando o encantamento passou, como que acordou do torpor em que se encontrava, insultando-se mentalmente no microssegundo antes de lhe estender a carta, muda e esquecida de tudo o que tinha ensaiado durante a tarde. Ele, pegou no envelope com ar curioso e depois de ler o remetente, disse-lhe numa voz igualmente linda de morrer, É da minha Universidade, Ainda bem que a encontrou, Já estava a ficar preocupado! Ela sorriu, e já normal explicou-lhe que sim, do engano costumeiro do carteiro, que podia confiar nela para este tipo de coisas e que tinha gostado muito de o conhecer. Ele agradeceu, sorriu e beijou-lhe a mão na distinção elegante. Ela corou.
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No dia seguinte, já tinha saído do banho, quando ouviu o ralenti do carro dele prestes a sair da garagem. Espreitou pela cortina da janela, como de costume, e para espanto dela, viu-o a introduzir qualquer coisa na sua caixa de correio. Voltou para o carro e saiu para a rua, olhando como de costume para cima, para a sua janela. Desta vez ela não fechou envergonhada a cortina, e deixou ver por breves momentos a sua nudez na transparência do vidro. Vestiu-se a correr, desceu as escadas a dois e três, e abriu a caixa do correio no gesto sôfrego. Tinha um cartão timbrado do MIT, com umas linhas escritas à mão, diziam apenas, Convido-a para jantar, ligue-me para TT 015131.
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A cafeteira do café deu sinal de si por um bom meio minuto. Por fim, ela saiu do torpor em que se encontrava e apagou o lume do fogão. Enquanto se servia generosamente de café, bem precisava, continuou nas cogitações à volta do convite enigmático que recebera. Estava claro que era uma charada tipo Código da Vinci ou Código da Vintes mas a sério. Não imaginava o senhor professor de matemática, ainda por cima do émaiti, a alinhar em tretas dessas. Por isso só podia ser uma charada científica. Mas porquê? Pensou. Porque é que não lhe tinha dado simplesmente o número de telefone? Seria para a pôr à prova? Com certeza que sim, queria sair com ela, mas tinha colocado uma fasquia. Por isso não devia ser muito difícil, concluiu.
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Começou por escrever o valor de Pi, três vírgula catorze, e juntou-lhe o resto dos números. Obteve um número com nove algarismos, 314015131. Os números de telefone tinham nove números, mas a começar por 31 duvidava que existisse algum. Pegou no telemóvel e ligou o número, para de seguida ouvir a voz mecânica, no timbre conhecido, a dizer-lhe que o número marcado não estava atribuído. Olhou de novo para o convite e suspirou desanimada. Considerou a hipótese de mandar às urtigas o convite, mas o desafio era aliciante, já para não falar do seu amor-próprio a querer sair triunfante.
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Tentou lembrar-se de alguém conhecido que estivesse ligado às matemáticas, mas não vislumbrou ninguém. Nesse preciso momento veio-lhe à ideia o termo Quadratura do Círculo e por associação de ideias lembrou-se da sua amiga arquitecta. Lembrava-se que a amiga fizera em tempos uma casa para um cientista ligado à física das partículas. Tinha sido um projecto algo suigeneris, desenhado à mão e não em computador. Ficou suspensa na palavra computador e deu uma palmada na testa, uma daquelas palmadas que querem dizer o mesmo do que, porque é que não me lembrei disto mais cedo. E foi buscar o portátil.
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Introduziu no motor de busca o número 015131 e ficou a saber o código do papel de parede Marguaritaville. Não custa nada tentar, pensou com um sorriso, e continuou a introduzir outros factores de busca, sem sucesso algum. Já com a cabeça em água e o portátil a precisar de recarga, decidiu ir almoçar. Precisava de sair de casa, arejar a cabeça e desligar daquela paranóia dos números. Que se lixe o jantar, que se lixe o professor, por acaso lindo de morrer, pensou ainda com um sorriso assim assim.
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Quando voltava para casa, comprou um gelado de coco e natas, e como era seu hábito foi saboreá-lo, enquanto via os livros em segunda mão nas bancadas do lado de fora da livraria. Já estava a mordiscar o cone de bolacha húmida, quando o olhar foi atraído para uma capa preta. Era o romance de Carl Sagan, Contacto. Enquanto acabava o gelado e lambia os dedos pegajosos, tentou lembrar-se de uma coisa importante que tinha lido naquele mesmo livro. Era uma daquelas lembranças prestes a emergir, sentia-a a querer sair do esquecimento. Voltou atrás e foi comprar outro gelado, desta vez laranja com limão. Quando, com prazer, lambeu a bola de gelado alaranjada, lembrou-se.
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Lembrou-se da passagem em que um cientista fizera correr um programa para verificar se na sequência infinita de dígitos do número Pi, surgia algum padrão numérico repetitivo, ou alguma sequência de números primos, que pudesse ser enviada ou recebida, como uma mensagem de uma civilização extraterrestre. Soube naquele instante que a resolução estava no próprio número, algures lá dentro. Lembrou-se dos puzzles tipo Sopa de Letras que fazia em pequena. Nunca um gelado de laranja e limão lhe soube tão bem como aquele. Quando o terminou, correu para casa, abriu de novo o portátil e introduziu apenas duas letras, P e I.
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Sabia agora que o número 015131 era apenas um referencial, o local onde estava escondido o número que queria. Procurou as sequências e descobriu a Série de Beckman, com cem mil dígitos para lá da virgula. Levou o cursor até à linha dos dígitos 015101 a 015200 e foi contando os números até chegar aos 015130. A seguir lá estava o número que queria, 967504....
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Triunfante, pegou no telemóvel e ligou o número na expectativa. Uma voz linda de morrer, respondeu-lhe.
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24.2.08

CONVERSA NO CHIADO

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O poste de iluminação pública acentuava a solidão na esquina da noite. Na rua deserta e escura, o poste de iluminação pública fazia lembrar um louva-a-deus em êxtase, emanando uma auréola de luz difusa que iluminava meio passeio e meia rua. Um som de piano rastejava pelo passeio húmido e embateu docemente no poste de iluminação pública. Este vibrou com os acordes que lhe subiam pelos tubos e começou a sonhar no preciso momento em que a lâmpada de vapor de mercúrio tremeluziu com um pequeno relâmpago púrpura.
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No sonho que será intuído por todos os postes de iluminação pública, Beethoven aflora as teclas em Fur Elise, de seguida Debussy apresenta La Mer e os oboés dançam com os violinos por entre a espuma das ondas do mar, até que por fim, Keith Jarrett em sapatos de ténis e toalha ao pescoço se esquece de si próprio, e toca em improviso total nos temas de Radiance.
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O poste de iluminação pública sonha que quer escrever um texto sobre postes de iluminação pública e está num daqueles dias de escrita não. Ao som do piano que ainda vibra em si, decide abrir uma garrafa de tinto. Também tenho direito, pensa com alguma mágoa, Cada vez há menos pessoas a falar comigo, a contarem-me as desgraças e os amores perdidos nas ruelas bairristas. Suspira um, Modernices, e serve-se generosamente.
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O cálice de tinto perfuma e entontece o ar em redor das ideias frescas de modo a serem presas fáceis da escrita. Como os peixes apanhados no anzol, as ideias também se debatem e são difíceis de agarrar, mas com jeito, o corpo de sonho do poste de iluminação pública apanha uma, e num gesto largo e preciso lança-a para a realidade virtual e a ideia materializa-se em palavras no ecrã do portátil.
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Diz que o piano do Tom Waitts esteve a beber enquanto o seu laço ao pescoço adormeceu. A carpete da sala precisa de ir ao barbeiro e o telefone resmunga por se lhe terem acabado os cigarros. Enquanto isto se passa, o piano continua a beber vinho tinto do Douro e os pratos de comida estão a tremer de frio enquanto esperam para se aquecerem no micro ondas.
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O dono da casa que é chefe de um partido político, tem a inteligência de um poste de telefone e não repara que o piano continua a beber da garrafa de Valado Tinto Reserva, já meia cheia, ou meia vazia (dependendo do observador). A criada não se encontra nem com um detector de metais e como ela odeia quem a contrata, ninguém é servido e os pratos de comida aproveitam para fugir. A torradeira parece um lutador de Sumo a atirar as torradas pelo ar, e os morangos na taça lançam divertidos bolas de chantilly uns aos outros.
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Alguém ousa dizer que a culpa disto tudo é do piano que continua a beber, enquanto o cinzeiro foge da sala com um ataque de nervos à vista do primeiro cigarro que o poste de iluminação pública acende. Os jornais começam a cortejar as revistas de fim-de-semana com editoriais sobre a crise e o rádio desliga a televisão com um grito de raiva.
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Tudo isto por causa do piano ter estado a beber, e do poste de iluminação pública estar a sonhar. A tradição já não é o que era! Os pianos e os postes de iluminação pública também não!
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17.2.08

O PROJECTO

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Sentia-me como se fosse a personagem dum conto fantástico, daquelas que figuram nas antologias dos livros de paperback. Era bom de mais para ser verdade, mas a realidade superava a fantasia imaginada ou escrita. O sentimento de estranheza inicial, há muito que se desvanecera, e agora era o tempo da normalidade extraordinária. Foi sem esforço, que me lembrei do momento em que a minha vida, começou a trilhar esta linha de tempo tão diferente.
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Olá, chamo-me Carlos Mandelbrot, sou professor de Física Teórica em Nova Iorque e gostava de construir no Algarve uma casa desenhada por si. Tinha sido assim, sem mais nem menos. Ainda perguntei se era da família, respondeu-me que, Não, o nome é uma homenagem do meu pai. Alem disso, dedico-me à Física de Partículas e não aos fractais, embora tudo esteja ligado. E como é que chegou até mim, perguntei curiosa, intuindo na altura qual ia ser a resposta. Puro acaso, fui à lista amarela, escolhi um nome ao acaso e voilá! Aceita ou não? Abandonei-me no Caos e respondi que sim.
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Começámos por jantar todas as semanas. Os primeiros foram muito formais, comigo sempre a tirar notas e a fazer perguntas. Um físico teórico, de partículas, quase sempre a falar de cordas e super cordas, buracos de verme e energia de Planck, não é propriamente a pessoa ideal para se falar de salas com lareiras, escadas e casas de banho com retretes e duches. Até me sentia bastante pequena, quase diria uma partícula, ao perguntar-lhe sobre essas coisas tão mundanamente pueris e banais.
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Continuámos com os jantares semanais, cada vez mais íntimos, até que os transferimos para o meu atelier. Tinha reservado uma pequena sala só para este projecto. Era uma sala onde cabia apenas um estirador clássico, daqueles em madeira, da defunta Olaio, mais o clássico banco alto. Tinha desenterrado a minha velha máquina de desenhar, os esquadros e escantilhões de curvas, os compassos e um conjunto seco e empedernido de canetas Rotring. Essas e as borrachas, tive que as comprar de novo assim como um rolo de película de desenho. Não foi tarefa fácil encontrá-las nestes tempos de desenho feito em computador. Mas eu queria assim. Aquele projecto precisava do meu toque, orgânico e pessoal, a evoluir dia a dia como se de um fractal se tratasse.
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A ideia surgiu-me enquanto deambulava à noite no passeio marítimo, e olhava para o céu estrelado. Imaginei cada estrela como se fosse uma partícula gerada por uma colisão, e imaginei as linhas formadas a partir dessa colisão. Era uma imagem dejávu, e fui a correr para casa e não descansei enquanto não encontrei uma fotografia feita no CERN. Era uma foto de um bóson de Higgs, criado a partir de colisões de protões. E decidi projectar a casa a partir do desenho base da trajectória das partículas resultantes da colisão. Quando transmiti ao Carlos a ideia, abrimos umas garrafas para comemorar. Acordei no dia seguinte, com uma dor de cabeça do tamanho de um acelerador de partículas.
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Na primeira visita à obra, detectei a olho nu uma série de erros na localização dos pilares estruturais. Pedi ao topógrafo para me fazer um levantamento dos mesmos enquanto tinha uma discussão quase que inglória com o empreiteiro, o Sr. Ramos. Quase a chorar, expliquei-lhe que se a casa começava assim, ia ficar tudo torto e mal feito, porque os círculos das paredes tinham os seus centros deduzidos a partir dos pilares iniciais, e se estes estavam desalinhados nada encaixava depois. Olhou para mim com olhos de não sei do que está a falar minha senhora. Voltei para Lisboa com o levantamento dos pilares. Só me vinha à cabeça a cena do filme The Fountainhead, com o Gary Cooper a explodir o arranha-céus que estava a ser mal construído.
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Nessa noite, levei o Carlos até à salinha privada onde guardava os desenhos da casa, e expliquei-lhe com a emoção ao rubro o que se estava a passar. Foi a noite em que me secou as lágrimas de raiva com beijos ternos e lânguidos. Foi a noite em que me fez sentir rainha, apesar da minha nudez. Foi a noite em que nos amámos pela primeira vez. A nossa cama foi o estirador, os nossos lençóis, as folhas com os desenhos do projecto.
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No dia seguinte, como de costume, antes de começar o dia no atelier, dedicaria uma hora ao projecto do Carlos. Entrei na salinha privada com os desenhos espalhados pelo chão, com excepção do esquisso original com a planta da casa. Ainda continuava preso ao estirador. Encontrei a folha final e coloquei-a por cima para desenhar as alterações e ver o que podia fazer. Para meu espanto, a folha estava diferente na zona que já estava em construção. Comparei com o levantamento e era igual. Fiquei perplexa, e só então notei que por cima da zona alterada do desenho, uma mancha de esperma brilhava. Como a folha era de película de poliéster, fui buscar algodão e cotonetes e limpei tudo. Ao limpar a folha do esperma, acabei por limpar os traços do desenho. Olhei de novo para a planta e decidi passar por cima o bocado do desenho original que tinha apagado. Tinha que voltar à obra e obrigar o Sr. Ramos a partir o que tinha feito mal e fazê-lo de novo, bem. Para não perder tempo, telefonei-lhe e cheguei à obra ao fim da manhã.
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Sr. Ramos, desculpe lá, mas vai ter que partir aqueles pilares e fazer de novo, ia dizendo enquanto nos dirigíamos para o local. Mas Senhora Arquitecta, os pilares estão implantados como estão no projecto, a Senhora ainda ontem me elogiou pelo facto. Olhei feita sei lá o quê para ele, pareceu-me na altura diferente, e balbuciei, Elogiei? Chegámos ao local e os pilares estavam implantados na perfeição. Tirei medidas nos eixos, triangulações e alinhamentos, e tudo estava milimétricamente exacto. Demasiado exacto, pensei na altura. Despediu-se de mim com um caloroso aperto de mão, e um Bom dia para si cara Arquitecta. Fiquei sem saber o que dizer no sorriso flácido.
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Duas semanas depois, na véspera de nova visita à obra, fui relembrar os alinhamentos e qual não foi o meu espanto ao verificar que novos pilares estavam fora do sítio. Dois estavam ligeiramente e outros dois estavam bastante. Como podia ser, na planta que tinha visto há duas semanas estava tudo certo com o esquisso original. Seria que na obra tinham executado mal, e isso por qualquer razão, tinha-se reflectido na planta final. Recusei-me a aceitar essa hipótese. Passei o dia todo a pensar no sucedido. Carlos telefonou-me a antecipar o jantar para essa noite. Tinha que estar em Nova Iorque no dia seguinte, para proferir uma conferência sobre a simultaneidade quântica de certas interacções a nível subatómico. E uma ideia bastante irracional nasceu na minha baralhada consciência.
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Jantámos no atelier, como sempre. Desta vez, presenteou-me com uma lagosta já preparada, acompanhada com Rice and Beans à moda do Belize. Para beber, insisti no politicamente incorrecto tinto Cryseia de 2003. Tinha uma caixa no atelier, oferta dum cliente, e já só restavam duas. Nessa noite acabou-se a minha reserva, e concretizei a minha ideia. Depois de fazermos amor, não me lavei, e quando cheguei a casa, recolhi todo o esperma que tinha dentro de mim e guardei-o num frasco hermético. Digamos que, para uma céptica empedernida como eu, não estava nada mal este ataque de irracionalidade.
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No dia seguinte, repeti o procedimento da última vez. Apaguei do desenho os pilares mal posicionados, com o algodão e as cotonetes embebidas de esperma, e desenhei-os de novo na posição correcta. De seguida dirigi-me à obra. O Sr. Ramos recebeu-me triunfal no seu fato azul-escuro, estilo desportivo. Bem vida, minha cara. A obra está a desenvolver-se a um ritmo bastante bom e até já arrancámos com as alvenarias. Está a dar-me muito gozo ir descobrindo o seu projecto à medida que construímos. Até parece que estou a revelar uma fotografia a três dimensões. Desculpe, como disse? Articulei com esforço. Aquele não era de certeza o Sr. Ramos do início da obra, pensei. O que eu quero dizer, é que vamos construindo naturalmente, como se a obra fosse um organismo vivo a crescer, quase que diria um...Fractal, quase que gritei no meu espanto. Isso, um fractal, completou num sorriso luminoso. Fiquei para morrer.
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Na última visita que fiz à obra, dias antes da festa da inauguração, o Engenheiro Ramos, recebeu-me com um só beijo na face, radiante no seu fato Hugo Boss cinza claro e camisa frisada rosa velho. Então, minha querida? Contente com a nossa obra? Satisfeitíssima, respondi, e não estava a ser meramente simpática. Efectivamente, nunca uma obra minha, tinha sido construída tão fielmente ao projecto como aquela. Acho que nos entendemos bastante bem, continuou. Até que podíamos fazer uma sociedade, que achas? Embora achasse o que achas, um pouco deslocado no discurso, pensei cá para comigo, Porque não?
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Deixei de aceitar encomendas de projectos, e passei, passámos, a construir os nossos projectos. Sempre muito bem construídos, e sempre com muito amor nos desenhos!
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12.2.08

O CANTO DAS GAIVOTAS

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Sempre que queria estar verdadeiramente sozinho para se perder na imensidão de si, ou então quando se sentia tão só e tudo deixava de fazer sentido, ia para a praia deserta olhar o mar a fundir-se na linha inalcançável do horizonte.
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Gostava de sentir o frio húmido a entranhar-se no corpo e a fazê-lo tremer, confundindo a dor que o inundava de mansinho, como se fosse a maré a subir na enchente.
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Gostava do silêncio que antecipava o rebentar das ondas na areia. Era um silêncio a prazo, para ser vivido intensamente, tal como a vida.
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Gostava também do barulho atordoador que fazia a onda rainha de cada set, a espraiar-se até à muralha que separava a praia do passeio marítimo.
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Depois, e só depois, conseguia ouvir o canto das gaivotas. Não os gritos lancinantes que costumamos ouvir, mas o som encantatório das sereias a chamar os amantes perdidos.
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E por momentos fundia-se naquele som a tentar vislumbrar a sereia que o chamava de tão longe. Quase que a conseguia ver. Quase que a conseguia sentir.
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E ficava à espera de nova onda rainha, confundindo-se com a dor silenciosa que o envolvia. Ficava à espera de poder ouvir de novo o canto das gaivotas e ser transportado para aquele nevoeiro de sons que o chamavam.
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Os anos passaram e deixou de ir para a praia deserta olhar o mar a fundir-se na linha inalcançável do horizonte. Não queria ouvir de novo o Canto das Gaivotas. Não queria sentir de novo a dor que o inundava de mansinho, como se fosse a maré na enchente. A última vez que o viram, velejava com todo o pano içado, rasgando as ondas na direcção da mancha escura que tornava indistinta a linha que separa o mar do céu.
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6.2.08

A OUTRA

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The face in the mirror won’t stop, the girl in the window won’t drop. A feast of friends alive she cried, waiting for me outside. Before I sink into the big sleep I want to hear, I want to hear the scream of the butterfly. .
(Jim Morrison in “When The Music’s Over”)

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A face que me olha do outro lado do espelho, não a reconheço. Pensando bem, nunca a reconheci, apenas habituei-me com o passar do tempo a identificá-la como sendo eu. Por vezes esqueço-me dela no acordar ensonado e fico parada em frente ao espelho à espera que o mundo, neste caso o meu mundo se componha, como um puzzle cujas peças são bocados de realidades distintas e nem sempre vividas.
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Sempre me habituei a conviver com a outra, a partilhar o mesmo espaço e o mesmo sono. O sonho nunca foi partilhado, era vivido separadamente, mas o mais curioso era que cada uma sonhava a outra. Alternadamente, até ao dia em que a outra, a da face que me olha do outro lado do espelho, não acordou do sonho em que me sonhava.
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Foi o dia em que deixei de ter sonhos, em que deixei de a sonhar. Devia ter deixado de existir, a outra, mas não, sei que está por aí. Além de a ver do outro lado do espelho, pressinto-a na sombra do meio-dia, ou no vulto silencioso que me fecha os olhos de sono à noite.
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Às vezes gostava que ela, a outra, acordasse do sonho de sonhar-me, e vivesse por uns tempos o meu sonho a sonhá-la. Sonhar que era a outra, a que me olha do outro lado do espelho. Será que me reconheceria então, a ver-me do lado de lá?, ou também acharia estranha a minha própria face. Provavelmente assim seria. Ao ser a outra, a sonhar ser a outra, tornar-me-ia a outra de mim mesmo e não me reconheceria também.
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Às vezes procuro-a nos silêncios, procuro ouvi-la a respirar e quase que consigo. Ou então tocar-lhe no escuro, roçar ao de leve o seu corpo e ficar arrepiada com o quase contacto. Sei que um dia a vou encontrar, frente a frente. Se não enlouquecer, será o dia em que escutarei pela primeira e última vez, o grito da borboleta.
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29.1.08

A PORTA

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Normalmente não sonhava, embora soubesse que todas as pessoas sonhavam, e por acréscimo, ela também. No entanto, era como se não sonhasse nunca ou quase nunca. Adormecia e era como se desligasse o interruptor da luz. Acordava no momento suspenso no instante de acordar.
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O sonho não fazia parte do seu universo consciente. O que existia nesse mundo fascinante era algo que raramente experimentava, e quando tal acontecia, quer fosse um bom sonho ou um mau sonho, ficava extasiada com a vivência naquele mundo e lembrar-se-ia para sempre do sonho que tivera.
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Ouvia fascinada as histórias das amigas, contando os sonhos diários que tinham, as experiências loucas e sem sentido que experimentavam, os medos e os êxtases que sentiam, os pesadelos que viviam durante a noite. Quem me dera ter um pesadelo, e lembrar-me dele. Quem me dera ter um sonho e ter consciência de estar a sonhar, costumava pensar.
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Começou por tentar estar consciente o mais possível antes de adormecer, a retardar ao máximo o momento de passagem para a outra realidade ou consciência. Invariavelmente perdia-se no vazio, agarrada a um qualquer pensamento que se repetia sem parar, até que deixava de ter consciência do mesmo no preciso momento em que adormecia profundamente.
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Uma noite, enquanto tentava estar alerta para o momento da passagem impossível, viu-o, ou melhor, teve a percepção que alguma coisa ou alguém estava a tomar forma no vácuo que ocupava toda a consciência que ainda tinha de si. Teve a percepção no instante antes de adormecer, e foi de tal maneira forte que no outro dia, ao acordar abruptamente do sono pesado que normalmente tinha, ainda se lembrava que alguma coisa se tinha passado no momento de adormecer. Passou o dia todo obcecada com tal facto e não fosse o trabalho que tinha para fazer, teria tentado adormecer antes da hora normal e rotineira.
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Nesse dia foi para a cama mais cedo e repetiu o procedimento da noite anterior. No preciso momento em que ia adormecer, ainda teve tempo para numa fracção de segundo vislumbrar duas portas suspensas no vazio.
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O dia seguinte, as semanas e os meses que se lhes seguiram, foram iguais ao que sempre tinha experimentado. Nada de sonhos, nada. Tinha a recordação das duas portas, e essa recordação pertencia-lhe, não tinha contado a ninguém a visão das duas portas a flutuar no vazio da existência, da sua existência.
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E como sempre acontece, quando já tinha desistido de ter qualquer percepção, por ínfima que fosse, do mundo dos sonhos, aconteceu. Viu as duas portas, e viu uma luz dourada na fresta da ombreira da porta do lado esquerdo. Pensou que isso queria dizer algo, poderia ser um sinal, e resolveu entrar. Estendeu o braço em direcção à porta e viu a sua mão agarrar e rodar o puxador. A minha mão, pensou maravilhada, consigo ver a mão do meu corpo no sonho. Decidida, empurrou a porta e ficou momentaneamente cega com a luz dourada e quente que a envolveu.
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Estava tão maravilhada com a torrente de luz que a envolvia e aquecia que nem reparou na voz por trás dos vultos difusos que a rodeavam. A voz, numa vibração grave e de cor laranja dizia, Finalmente meu amor, finalmente!
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Sentiu uma pressão no abdómen, mas não entendeu o que era. Olhou com mais atenção para os vultos difusos e pareceram-lhe familiares. Eram impressões vagas de pessoas que conhecia. Uma ideia tomou forma no seu lado direito e começou a aquecer-lhe o braço. Quando focou a atenção naquela massa viscosa e quente, percebeu que os vultos eram as recordações das pessoas que tinha encontrado ao longo do dia. De todas? Interrogou-se, enquanto olhava mais atentamente para aquelas formas indistintas e leitosas. Na primeira fila julgou perceber caras conhecidas, na segunda ainda achou mais algumas, mas à medida que alongava o olhar a estranheza era total.
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Percebeu finalmente um brilho alaranjado ao longe e tentou decifrar a vibração que emanava dele, mas o sussurro cada vez mais forte de todos aqueles vultos não a deixava ouvir. Sentiu um arrepio a percorrer-lhe o corpo e começou a dirigir-se para a vibração laranja que pulsava cada vez com mais intensidade. À medida que se deslocava, os vultos afastavam-se como peixes num cardume. A sua atenção estava focada na vibração laranja, sabia que ali estava algo de importante, e uma ideia começou a formar-se junto ao seu lado direito e envolveu-lhe o braço numa luz esverdeada e sensual que lhe dizia, Finalmente meu amor, finalmente.
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Quando integrou a luz, todo o seu ser estremeceu de prazer e numa fracção de tempo, os vultos das recordações do dia desapareceram e viu-se frente a frente com a vibração laranja que pulsava cada vez mais depressa. O pulsar rapidamente transformou-se num vórtice e julgou vislumbrar uma forma no seu interior, como se fosse uma crisálida.
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O vórtice parou por fim e revelou um corpo nu enrolado sobre si próprio numa posição fetal. Estendeu o braço para tocar aquele corpo e no mesmo instante sentiu-se envolvida por um abraço forte e macio ao mesmo tempo. O seu corpo vibrou de novo com um espasmo de prazer e o seu peito brilhou em uníssono numa luz verde levemente esbranquiçada. Sentiu um afago nos cabelos e retribuiu o gesto deixando a mão deslizar até ao pescoço. Sentiu a respiração quente azulada no seu pescoço e uma voz rouca que lhe sussurrava ao ouvido, Finalmente meu amor, finalmente conseguiste chegar até mim.
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Os joelhos tremeram-lhe, um arrepio subiu até aos ombros e diluiu-se na luz azulada que emanava dum ponto no centro da sua garganta. Sentiu o calor do corpo nu que a abraçava, sentiu o calor do seu próprio corpo, também nu, constatou com surpresa. Procurou instintivamente o beijo e sentiu os lábios a queimar na paixão desconhecida e no entanto já desesperadamente querida. O beijo entrou bem no centro das costas, perto das omoplatas, e subiu até explodir entre os olhos numa torrente de luz púrpura que a envolveu e elevou no espaço virtual que ainda percepcionava.
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Vem, sente-me e ama-me, Quis dizer no momento em que todo o seu ser começou a vibrar em uníssono, no momento em que soube que o tempo se anulava e o amor primeiro cumpria a promessa de ser. Ainda visualizou as vozes, Meu amor, a mesclarem-se juntamente com as partículas que se uniam e entrelaçavam até formarem um novo ser, uno e indivisível, finalmente.
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Um novo ser de luz que ficou a pairar no vazio infinito que se estendia em todas as direcções. Além dele apenas existia uma porta. A outra tinha deixado de existir no preciso momento em que se unira com a promessa do amor primeiro. A porta que ainda existia tinha uma particularidade, não tinha puxador, só podia ser aberta do lado de fora.
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Muitos anos passaram até ao dia em que, o marido e os filhos, deram ordem para desligarem a máquina que a mantinha em animação suspensa, prolongando-lhe o coma em que se encontrava, desde aquele dia em que adormecera bem cedo e não voltara a acordar.
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Tinham-na mantido assim, na esperança de virem a descobrir a razão do sorriso, que mantinha desde esse dia. Quando se cansaram, desligaram a máquina. Finalmente.
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24.1.08

HOT

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É o Restaurante mais antigo de Lisboa, podem crer, continuava o Louis Le Clézio na sua busca interminável, pela lista infindável, de restaurantes que possuía no telemóvel. Tá bem, vê lá se ainda não está cheio, acrescentei. Tínhamos acabado de entrar na autoestrada quando ele confirmou mesa para três. Lembrei-me na altura de ligar ao Rafa. Talvez ele e a Luciana se pudessem juntar a nós.
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Liga outra vez para A Taverna e marca para cinco, pelo sim pelo não. Já de seguida madame, ouvi o Louis Le Clézio na resposta afirmativa ao meu pedido. Era Sábado, e íamos os três para a noite de Lisboa. Ainda ousaste dizer, O que é que se come por lá, mas na altura ninguém te ligou nenhuma. A conversa já andava no, onde ir depois do jantar.
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O Restaurante é mesmo por debaixo dum dos pilares do Aqueduto das Águas Livres, na Rua das Amoreiras, à esquerda de quem sobe. Como sempre acontece, demos duas voltas ao quarteirão para arranjar um local para estacionar. Arranjámos um mesmo em frente ao Jardim das Amoreiras.
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A Taverna é um local bem simpático e acolhedor. Tão acolhedor que devorámos duas entradas seguidas enquanto esperávamos pelos nossos amigos. O salpicão tinha acabado de fazer a sua despedida, quando o Rafa chegou sozinho. Apresentações feitas, o vinho que evaporava da garrafa sugeriu, implorou nas palavras sempre eloquentes do Louis Le Clézio, a encomenda rápida dos pratos. Um pato escondido no arroz, para namorar com os teus choquinhos à algarvia, fazia frente às fevras à sertã. O Quinta de Cabriz era um compromisso para o princípio de noite em tempos de crise. Mesmo assim, ficámos na dúvida e pedimos segunda garrafa. Só para ter a certeza.
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E ali estava eu, radiante no meu conjunto de fazenda e camisa branca, aparentando um ar completamente colegial, não fossem as meias pretas Admas a repor o equilíbrio. Até ousei terminar a refeição com um doce de Sericá à moda do século XVI. Os cafés foram pedidos na sempre confusão dos estilos, um cheio, um normal, um café sem ser cheio... Alguém, na piada de ocasião, sugeriu um café numa chávena vazia. E para espanto de todos, quando os cafés foram servidos, lá apareceu a chávena vazia. Servir café é coisa séria, pois então!
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Já na rua, a antiga Fábrica de Seda, transvertida de Museu de Pintura, lançava agora fios labirínticos, nos traços de Vieira da Silva, que nos puxavam para lugares sempre presentes nas nossas memórias, mas em tempos diferentes. Estávamos dentro de um quadro dela e decidimos mergulhar na tela colorida. Subimos os degraus de pedra que levavam ao jardim e dirigimo-nos ao Procópio das tuas recordações. Louis Le Clésio garantia que tinha agora o melhor Alexander’s, desde a defunta Casa do Largo. Para mim era novidade, os teus tempos de recordação vestiam-me de bibe e soquetes.
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O labirinto chamava-nos para mais uma volta concêntrica e saímos em direcção ao Hot Club. O Rafa apanhou um desvio e sumiu-se, talvez envergonhado por ter confundido o mês da minha data de aniversário. O Louis nada envergonhado, presenteou-me com uma pérola de retórica Alexandr’ina, Eu sei que todos os anos fazes anos, só não me lembro é da data...
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Optámos por descer a Rua do Salitre e parar o carro no Parque Mayer. Subimos a rua em direcção à Praça da Alegria, passando pelo cada vez mais respeitável Maxime’s e entrámos na cave mais apertada de Lisboa. O Villas Boas com o corpanzil que tinha, bem podia ter arranjado uma cave um pouco maior. Mas assim é que é Hot.
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O quinteto de Pedro Moreira estava no segundo set quando entrámos. O som do sax enchia a sala por completo e senti-te a ficar mais próximo de mim. Nas paredes sobressaíam os posters dos primeiros festivais de Jazz de Cascais. Um Miles olhava fixamente para um Sam Rivers de chapéu enfiado na cabeça. Ali mais à frente um Dexter Gordon fumando o cigarro proibido, e depois todos os outros que me tinhas ensinado a gostar. Por ali passeavam também as sombras passadas do começo dos Sassettis e Barrettos, de Marias Vianas, de Marias Maxs, de Marias Joãos e Mários Laginhas, entre tantos outros. Ainda te ouvi dizer, Olha aquela ali, é a do Zé Eduardo, o que começou com a escola.
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Na penumbra fronteira ao bar, abraçaste-me por trás e senti o teu contentamento por me teres ali, no teu espaço, no teu som, no teu mundo tão natural e por vezes tão estranho para mim. E contigo viajei no solo do contrabaixo do Nelson Cascais. Riste-te, como sempre te ris, quando te disse que me fazia lembrar os Aristogatos da minha infância. Os teus olhos brilhavam com imagens passadas, do Carlos Paredes improvisando na guitarra portuguesa o tema Song for Che, acompanhado pelo Charlie Haden no contrabaixo.
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No intervalo fomos até pátio exterior e depois ao saguão tipo filme do Tim Burton, com a sua buganvília amputada na fúria camarária. Bebendo tranquilamente uma cocacola, o incontornável Rui Neves contava histórias dos tempos que merecem histórias. Por ali passeavam ainda os primeiros passos da aprendizagem do Pedrito de Portugal, garantia ele no sorriso de olhos quase fechados. É que estão a ver, a cave do Hot era a meias com uma tertúlia tauromáquica. O que acontece é que o pessoal da tertúlia foi envelhecendo, e já morreram quase todos. Mas aqui treinavam com aqueles carrinhos com cornos.
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O último set entrou na minha cabeça com uma sonoridade que nunca tinha ouvido. A tua presença colada a mim, a identificação contigo e com o que me rodeava, dava-me volta à cabeça. O trompete do João Moreira serpenteava com o sax no improviso final e fazia-me vibrar na antecipação de estar sozinha contigo. A colegial sentia-se doutorada.
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Foi com tristeza e alegria que descemos a rua em direcção ao carro, deixando o Louis Le Clézio no Maxime’s, quiçá para verificar se o Alexander’s dali era melhor do que o do Procópio. Tristeza por ter acabado o concerto, e alegria por te ter finalmente só para mim. É que naquela altura já estava bastante Hot.
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18.1.08

O SENHOR ANÓNIMUS SÁIDE

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René Magritte - O Espelho
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Levantou-se da cadeira e foi com um certo ar de enfado que abriu a porta ao rapaz da Pizza Na Hora. Nem o sorriso meio comercial com que foi presenteado enquanto recebia a enorme caixa tamanho XL o afectou. E foi com agrado que fechou a porta e se dirigiu para o escritório, bastante desarrumado até para o seu gosto. Nos últimos tempos já não saía muito de casa e o escritório era o local onde passava a maior parte do tempo.
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Partiu a Pizza em fatias estreitas e pequenas, empilhou-as numa travessa e dirigiu-se para a mesa do computador. Era uma mesa espartana que contrastava com o resto do espaço. No centro, apenas pontuava um computador portátil e respectivo rato. Na ponta, um candeeiro de halogéneo iluminava o resto da mesa com uma luz branca que se misturava com a luz ténue do ecrã aceso.
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Matraqueou o teclado na certeza de um qualquer endereço electrónico e recostou-se saboreando uma fatia de pizza enquanto a página se resolvia na janela do portátil. Era um blog que não conhecia, virgem de si e dos seus comentários. Sorriu na antecipação do prazer e comeu outra fatia, retardando o momento sempre fascinante em que começava a percorrer os postes até encontrar um que lhe merecesse um comentário. Quando isso aconteceu, fechou os olhos como que a permitir que a inspiração o iluminasse e de seguida começou a escrever febrilmente.
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Quando carregou na tecla Enter foi o momento para comer mais uma fatia e observar o texto que tinha escrito. Começava sempre por, Anónimus Sáide, e depois vinha a prosa, venenosa e irritante, como era a sua imagem de marca. Não havia contemplações nem palavras gentis. Desde que tinha descoberto o anonimato, a sua verdadeira pessoa, o seu interior sempre amordaçado, tinha finalmente começado a falar sem ter que dar a cara ou enfrentar opiniões contrárias às suas. Era uma espécie de voyeurismo activo que lhe dava imenso prazer.
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Na travessa, jazia uma fatia fria e descolorida, quando fechou a tampa do portátil e se espreguiçou. O sol teimava em entrar por uma fresta da janela quase fechada. Já é manhã, pensou, Estou capaz de ir tomar um bom pequeno-almoço. A noite tinha sido gloriosa em comentários e tinha a certeza que o veneno que deixara iria fazer estragos.
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Estranhou quando entrou no café e as pessoas se afastaram à sua passagem, enquanto se dirigia para o balcão. Sente-se bem?, perguntou-lhe o empregado, afastando-se dele com um certo ar de repulsa. Quis esboçar um sorriso amigável e não conseguiu. A face não reagiu. Ouviu o empregado dizer-lhe ainda que, O melhor é sair para não assustar as pessoas. Quis dizer qualquer coisa, mas a voz não lhe saiu. Confuso, dirigiu-se para a saída através do corredor aberto pelas pessoas que se afastavam à sua passagem.
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Na rua, quando o polícia o interpelou, ainda teve o discernimento de tirar o bilhete de identidade da carteira para mostrar quem era. Com efeito, já não se lembrava quem era ou como se chamava, e não foi com espanto que leu no bilhete de identidade o nome de Sr. Anónimus Sáide. Espanto teve, quando voltou o bilhete de identidade para ver a fotografia da sua face, como era na realidade, e viu que já não tinha face. Tinha-a perdido na febre do comentário anónimo.
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11.1.08

ERNESTO CIENFUEGOS

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A aproximação ao Aeroporto Internacional José Martí fez-se pelo lado do mar, baixando sobre o Malecón e a zona velha de Havana. Dava para distinguir a Avenida Marginal e o começo do casario em direcção ao bairro El Vedado. Via-se perfeitamente do ar a Calle 23, “La Rampa”, como era conhecida devido à sua inclinação, desde o Hotel Nacional até ao planalto onde se encontrava o Hotel Habana Libre, o meu destino.
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Tinha passado um ano, desde que o Galuber Rocha me fizera o convite para participar no filme que estava a realizar. Na altura só me ocorrera perguntar-lhe, Porquê? Respondeu-me que o seu amigo John Cale lhe tinha falado duma radiante morena que tinha passado pela Factory, vestindo um vestido encarnado às bolinhas, muito sevilhano por sinal. Passou a noite a falar nessa mulher. Até ensaiou uns acordes para uma canção sobre ela. Chamar-se-ia Femme Fatale e seria interpretada pela Nico e pelos Velvet. É claro que fiquei muito curioso, e comecei a fazer a minha pesquisa. Inevitavelmente tive que aturar o Andy e as suas superstars, mas lá me deram o contacto do Luciano. Depois foi fácil chegar até ti!
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Confesso que na hora o meu ego cresceu desmesuradamente e a minha auto estima brilhou como se fosse uma supernova. Ia desfalecendo quando me disse com quem ia contracenar. O Jardel Filho, A Glauce Rocha, O Paulo Gracindo, O Paulo Autran e tantos outros que admirava na altura. Era difícil de acreditar, e ainda por cima nem conhecia o John Cale.
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Depois do Festival de Cannes e de Locarno, onde o Terra em Transe foi muito bem recebido e obteve muitos prémios, era agora a vez do Festival de Habana. O convite tinha sido feito pelo Governo Revolucionário, não só pelo facto de ser um filme de um dos mais controversos realizadores brasileiros, mas também pelo filme ser uma crítica velada à Ditadura Militar do Brasil. Quase que me pendurei no Glauber para vir a Cuba, desejosa de conhecer a revolução e também ter a oportunidade de rever a minha amiga Clarisse Lay. Tinha voltado a Cuba para trabalhar no Novo Teatro, e segundo sabia, contracenava com Hilda Oates na Peça Maria Antónia, estreada por Roberto Blanco, com música do fabuloso Leo Brouwer. Não cabia em mim de expectativa e contentamento.
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O autocarro militar que nos foi buscar ao aeroporto, subiu a rampa circular do hotel e parou debaixo da pala junto à entrada. Foi mesmo a tempo de evitar a chuvada torrencial que começou a cair. Estávamos no começo de Outubro, o calor era muito, a humidade ainda mais e a chuva andava à solta nestes tempos de revolução. Com a roupa colada ao corpo suado, ia morrendo de frio ao entrar no lobby gelado do Habana Libre. Vestia na altura um conjunto bastante leve, próprio para o clima de Havana, mas nada indicado para os ares condicionados dos hotéis.
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À nossa espera estava uma pequena comissão de boas vindas, rodeando uma das imensas colunas do átrio. Nos homens, os uniformes abundavam, nas poucas mulheres, duas ou três segundo me lembro, os vestidos compridos e plissados davam a tónica. A revolução ainda não tinha chegado às roupas. Foi-nos dito que como convidados, ficaríamos nos poucos quartos disponíveis do Hotel, já que a quase totalidade ainda estava afecta ao Governo Revolucionário. Seríamos acompanhados por uma guia e um funcionário, e podíamos visitar o que quiséssemos nos tempos livres, que diga-se de passagem não eram muitos. Os seminários sobre o Novo Cinema, as visitas à Universidade e às diversas casas de cultura, a juntar às representações oficiais, ocupavam os dias que íamos ficar em Havana.
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O duche já corria, o meu sorriso de finalmente ir tomar um banho, ficou suspenso no toque ritmado de alguém junto à porta do quarto. Fechei a contragosto a água já tépida e abri a porta. O meu sorriso voltou a florir no abraço de Clarisse. Até ensaiei uma lágrima ao canto do olho. Consegui reprimi-la a tempo de manter o rímel no lugar. E Clarisse sorria um sorriso bem cubano, no seu conjunto discreto de algodão. O tempo das toilletes sofisticadas já tinha passado, e agora só as provava nos adereços do teatro. Na vida real era a Clarisse Lay, trabalhadora do teatro, como era costume dizer na altura.
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Convidei-a para entrar, e entraram os dois para meu espanto. Ele, embora fosse alto e bem musculado, tinha-se mantido camuflado na sombra dela. Devia ser um guerrilheiro, pensei para comigo, arqueando os olhos na pergunta silenciosa que dirigi a Clarisse. Respondeu-me que ela ia ser a minha guia, piscando-me o olho como que a dizer que já não era a primeira vez, e ele era o membro do Governo para nos acompanhar. O funcionário, perguntei. Não, funcionário, não! Eu fiz questão que te acompanhasse um guerrilheiro a sério. Arqueei desta vez as sobrancelhas em sinal de, eu já sabia. E como se chama?, perguntei curiosa.
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Ernesto Cienfuegos, respondeu-me num português quase correcto. Combati na Sierra Madre ao lado do Che e do Herói de Yaguajay, os meus Comandantes, disse com orgulho. Depois do triunfo da revolução, quando o Comandante Cienfuegos morreu naquele misterioso acidente de avião, mudei o nome em homenagem a eles. Então conheces o Che?, perguntei com interesse redobrado. Com certeza, todos o conhecem. Mas tira daí a ideia, atalhou a Clarisse, Não se encontra em Cuba. Mas deixa estar, o Ernesto acaba por ser uma mistura dos dois, acredita, eu sei. Nem ousei ensaiar um olhar de desilusão. Eles olhavam divertidos para mim, e eu não sabia o que fazer. Só queria tomar o meu banho, tépido.
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Os dias seguintes foram como eu esperava, cansativos e suados. As batalhas intelectuais entre Glauber Rocha e Gutiérrez Alea sobre a estética do Cinema Novo acabaram por excitar os plenários e tiveram o seu ponto alto na formulação do que viria a ser a “Estética do Sonho”, em que defendia que se devia deixar de lado a violência em favor da defesa da irracionalidade como saída libertária. Essas ideias causavam algum incómodo nos funcionários, mas Glauber tinha Havana a seus pés. Era apaparicado como um intelectual estrangeiro que apoiava o regime, e perdoavam-lhe a ousadia. E eu estava também cada vez mais irracional. O clima, quente e húmido, punha-me num estado de excitação crescente. Os cheiros tropicais davam-me volta à cabeça. O rum, as limas adocicadas e os charutos sempre presentes alimentavam-me as fantasias cada vez mais recorrentes, a que a presença do meu guerrilheiro pessoal não era alheia. O Festival ainda vinha longe e já considerava Havana a minha casa.
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Nesse Domingo, o Ernesto conseguiu arranjar bilhetes e fomos ao Teatro Studio de Havana ver a Clarisse na peça Maria Antonia. Já noite cerrada, fiz questão de cearmos os três no Café «La Columnata Egipciana», o café preferido do Eça de Queirós em Havana e depois passeámos pela Calle San Rafael, deserta àquela hora, em contraste com a azáfama diurna, e dirigimo-nos para oeste, em direcção ao Parque Central. Sentámo-nos num banco de jardim em frente à Fábrica dos Charutos, um edifício bem folclórico, discorrendo sobre o que iríamos fazer no dia seguinte, o nosso dia sem compromissos de qualquer espécie. O Ernesto mora aqui ao pé, sabes? Disse-me a Clarisse num ar falsamente distraído. Olhei para ele num sorriso já familiar e fiquei à espera que dissesse qualquer coisa. Notei que estava um pouco mais calado do que era habitual nele, mas continuei a olhar para aqueles olhos verdes que me faziam sonhar com ondas do mar. Tenho umas garrafas de Caney por abrir e gelo, se quiserem, acabou por dizer. E tens-nos a nós, se quiseres, comentou a Clarisse na gargalhada cúmplice de mim.
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O apartamento situava-se no segundo andar dum edifício antigo a precisar de obras urgentes. No interior, a ampla sala impressionou-me pela altura do tecto, ainda com vestígios das decorações e frescos antigos. O resto, uma cozinha e um quarto igualmente amplo. Para os padrões revolucionários era quase um luxo, assim como o frigorifico a gás. Abri-o e não estranhei o que vi. Garrafas de cocacola e de rum enchiam-no por completo. O congelador cheio de prateleiras de gelo. Se tivesse dúvidas que o meu guerrilheiro vivia sozinho, deixaria de as ter naquele momento. Homens são sempre homens, mesmo os guerrilheiros.
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Então, onde estão as famosas limas? Perguntei no desequilíbrio de segurar três copos cheios de rum e gelo. Brindámos à revolução e continuámos noite fora, a brindar a todos aqueles rostos a preto e branco, que figuravam nas inúmeras fotos emolduradas que decoravam as paredes azul turquesa da sala. O calor e a humidade sempre presente entravam pela janela da varanda semi aberta. Estávamos meio nus, suados e completamente bêbados. Quando já tínhamos brindado a todos os rostos da sala, decidimos passar para os rostos das fotos nas paredes do quarto. Caímos os três pesadamente na imensa cama e não me lembro de ter feito mais algum brinde. Lembro-me vagamente de me ter enroscado junto ao peito dele e lhe ter sussurrado um Ernestito Querido, antes de deslizar para um sonho povoado de selvas e guerrilheiros barbudos fumando charutos enormes.
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De manhã, com o sol a entrar desmesuradamente pela janela, acordei sobressaltada do sonho que estava a viver. Assistia impotente ao espancamento de um homem no que parecia ser uma pequena escola perdida na selva. Não lhe conseguia ver o rosto porque estava de costas com o cabelo comprido a tapar-lhe as faces. As mãos estavam amarradas atrás das costas e um fio de sangue manchava-lhe a camisa suja. Ernesto acordou também, e abraçou-me com força. Correspondi ao abraço desejado e ofereci-me com querer. Quando ele entrou em mim, foi como se toda uma realidade desconhecida passasse a fazer parte integrante de mim. O cheiro húmido e fétido da selva soalheira, inundou-me na cheia das recordações colectivas. Vi-lhe os olhos fechados com força, como se estivesse a reprimir um pensamento desagradável. Puxei-o mais para mim, senti-o ainda mais dentro de mim e abandonei-me numa nuvem de cor verde. No fundo da nuvem, lá longe, uma imagem começou a formar-se. Estava de novo na sala de aula do sonho, e alguém fardado ajudava o homem sentado com as mãos amarradas atrás das costas a levantar-se. O soldado aponta-lhe uma pistola, mas as suas mãos tremem e hesita. O homem grita-lhe, Dispara, cabrón, dispara!
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O grito que ouço é o de Cienfuegos no momento em que ejacula. O grito mistura-se com os sons dos disparos que ecoam na minha cabeça. Alguém acaba de morrer e sinto o meu guerrilheiro a desfalecer na minha tristeza. Olho para o relógio na mesa-de-cabeceira, são 13 horas e 10 minutos do dia 9 de Outubro de Mil Novecentos e Sessenta e Sete. Ernesto Cienfuegos abraça-me com violência e articula no choro silencioso, Mi Comandante está muerto. Mataram el Che.
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. Clarisse Lay continuou e continua em Havana ligada ao Teatro Nuevo.
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Glauber Rocha acabou por ganhar o Prémio de Melhor Filme e da Crítica do Festival de Havana com o filme Terra em Transe, e ficou durante muitos anos ligado ao Cinema Nuevo de Cuba.
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Ernesto Cienfuegos continua fiel aos ideais dos seus Comandantes desaparecidos, levando uma vida simples longe das luzes da ribalta política.
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O Che? Gosto de pensar que continua vivo nos nossos sonhos libertários, ou como postulava a Estética do Sonho, "quando o sonho irrompe na realidade, ele se transforma numa máquina estranha àquela realidade, uma máquina tremendamente libertadora”.
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