18.1.08

O SENHOR ANÓNIMUS SÁIDE

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René Magritte - O Espelho
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Levantou-se da cadeira e foi com um certo ar de enfado que abriu a porta ao rapaz da Pizza Na Hora. Nem o sorriso meio comercial com que foi presenteado enquanto recebia a enorme caixa tamanho XL o afectou. E foi com agrado que fechou a porta e se dirigiu para o escritório, bastante desarrumado até para o seu gosto. Nos últimos tempos já não saía muito de casa e o escritório era o local onde passava a maior parte do tempo.
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Partiu a Pizza em fatias estreitas e pequenas, empilhou-as numa travessa e dirigiu-se para a mesa do computador. Era uma mesa espartana que contrastava com o resto do espaço. No centro, apenas pontuava um computador portátil e respectivo rato. Na ponta, um candeeiro de halogéneo iluminava o resto da mesa com uma luz branca que se misturava com a luz ténue do ecrã aceso.
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Matraqueou o teclado na certeza de um qualquer endereço electrónico e recostou-se saboreando uma fatia de pizza enquanto a página se resolvia na janela do portátil. Era um blog que não conhecia, virgem de si e dos seus comentários. Sorriu na antecipação do prazer e comeu outra fatia, retardando o momento sempre fascinante em que começava a percorrer os postes até encontrar um que lhe merecesse um comentário. Quando isso aconteceu, fechou os olhos como que a permitir que a inspiração o iluminasse e de seguida começou a escrever febrilmente.
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Quando carregou na tecla Enter foi o momento para comer mais uma fatia e observar o texto que tinha escrito. Começava sempre por, Anónimus Sáide, e depois vinha a prosa, venenosa e irritante, como era a sua imagem de marca. Não havia contemplações nem palavras gentis. Desde que tinha descoberto o anonimato, a sua verdadeira pessoa, o seu interior sempre amordaçado, tinha finalmente começado a falar sem ter que dar a cara ou enfrentar opiniões contrárias às suas. Era uma espécie de voyeurismo activo que lhe dava imenso prazer.
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Na travessa, jazia uma fatia fria e descolorida, quando fechou a tampa do portátil e se espreguiçou. O sol teimava em entrar por uma fresta da janela quase fechada. Já é manhã, pensou, Estou capaz de ir tomar um bom pequeno-almoço. A noite tinha sido gloriosa em comentários e tinha a certeza que o veneno que deixara iria fazer estragos.
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Estranhou quando entrou no café e as pessoas se afastaram à sua passagem, enquanto se dirigia para o balcão. Sente-se bem?, perguntou-lhe o empregado, afastando-se dele com um certo ar de repulsa. Quis esboçar um sorriso amigável e não conseguiu. A face não reagiu. Ouviu o empregado dizer-lhe ainda que, O melhor é sair para não assustar as pessoas. Quis dizer qualquer coisa, mas a voz não lhe saiu. Confuso, dirigiu-se para a saída através do corredor aberto pelas pessoas que se afastavam à sua passagem.
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Na rua, quando o polícia o interpelou, ainda teve o discernimento de tirar o bilhete de identidade da carteira para mostrar quem era. Com efeito, já não se lembrava quem era ou como se chamava, e não foi com espanto que leu no bilhete de identidade o nome de Sr. Anónimus Sáide. Espanto teve, quando voltou o bilhete de identidade para ver a fotografia da sua face, como era na realidade, e viu que já não tinha face. Tinha-a perdido na febre do comentário anónimo.
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19 comentários:

ContorNUS disse...

Obrigada pela partilha deste excelente post ;)

Shelyak disse...

Uma imaginação, mestria e bom humor marcáveis...
Mas por vezes, apetece, não é?, recorrermos ao anonimato; supostamente, os blogs que mantemos sê-lo-iam, mas com o tempo, vamos deles ficando prisioneiros... nem sempre mas...
Até sempre :)

RedLightSpecial disse...

Cá está! neste post! A fotografia do anonimato, raio x de psudónimos e máscaras afins.
Gostei!

Abssinto disse...

Um conto muito bem contado. As "collages"....

bj

Cantinho dos devaneios disse...

Adorei o teu texto! Muito bem escrito!... vou continuar a aparecer por aqui...
Ainda não tive a sorte de ser visitado por essa personagem, mas eu também sou novo por aqui...

D. Sebastião disse...

Que dizer? Representação genial do espécime.

beijo

Jaime disse...

Estimulante como sempre!
É curioso como algo aparentemente semelhante - não exibir o nome de baptismo - pode tanto libertar a criatividade (e quantos escritores usaram pseudónimos!) como levar à exibição dos instintos mais feios (e quantas denúncias anónimas...) O teu texto levou-me a alguma divagação sobre estas coisas. Muito haveria a dizer (e muito já terá sido dito). Beijinhos.

un dress disse...

sobre a desconectação ?

? ai

onde

onde nos ficámos

partidos como pizza

em

bo ca dos

PDuarte disse...

Olha Maria, não sou propriamente do género anonimus said, mas também não sou gajo para quebrar um certo anonimato mistico destas lides.
Não gosto de ser grosseiro e vulgar, mas também não sou de beijinhos e ti...ti...ti...dó...dó...du...du...
Gosto da boa piadola descomplexada e sem restrições.
Portanto não sei se fiz bem em comentar, mas gostei da tua pinta.
Aparece por lá!
Um...só um beijo.

AcidoCloridrix disse...

Maravilha,,, primeira vez que vim aqui no teu Blog,,, e vou repetir a dose para ver com mais atenção,,,, parabéns,,,, HCL

rosasiventos disse...

abro as mãos de vento e rosas


aos satélites sem rota



de par em par



/também aos...anónimos!? :)

htsousa disse...

Fantástica ilustração! Um retrato poderoso, sem dúvida.

RC disse...

(In)visibilidades.

Xi.

carpe vitam! disse...

Felizmente, nem todos os comentários anónimos são maus. Mas afinal, será que um blog ou nick revela obrigatoriamente a nossa identidade?

If you brosh it disse...

Gostei muito, voltarei.

Viajante pelos Sentidos disse...

Poderoso texto, uma bela chapada naqueles cobardes que se escondem atrás do anonimato.

Quem perde a face, perde a alma... não é assim?

Um beijo viajante...

VdeB disse...

Pois aqui será como na real, ele há de tudo, mesmo essa tipologia.
Mas ainda bem que assim é, pela parte que me toca, pese embora a minha profunda antipatia e falta de pachorra pelo triste género Anónimus Sáide, não serei eu a censurar ou tentar banir quem quer que seja. Para “higienização”, intolerância e estandardizações basta a ASAE. Por mim viva a diversidade mesmo que tal implique eventuais custos e contratempos e maçadas.
Mais um belo conto Maria, este triste Anónimus Sáide precisava era mesmo de ter um encontro imediato com a tal radiante morena de que nos fala Femme Fatale, hehehe, acho que bastaria só um cheirinho para ficar menos triste hehehe (ai que não resisti ).

Som Do Silêncio © disse...

São tantas as pessoas que se sentem poderosas em criticar e fazer comentários horríveis só porque o anonimato os encobre.
Será que alquem já se perdeu de si mesmo?
Talvez...
Adorei o texto, aliás eu adoro ler-te minha querida.
Beijos grandes

Vertigo disse...

Que classe!

És um mercedes,Maria ;)

Beijo

 
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