17.6.09

I´M A BLACK MAGIC WOMAN

I’m a Black Magic Woman, cantava a Lila Downs no já indispensável Ipod. Não importava que o convés do barco fosse o local mais improvável para o colocar, mas a ondulação tímida e preguiçosa que nos saudava a isso convidava. Escrevi a frase de rajada, no também já indispensável portátil, sem reparar nos ava que rimavam numa ondulação em simpatia. A costa estrelada, confundia-se com as luzes de fundeio dos veleiros dormitando em segurança na baía de coral. O vento caíra finalmente, e pairávamos na bem-aventurança do sossego merecido, após a tormenta já esquecida. Ainda restava um pouco da adrenalina adquirida, mas seria de pouca duração. Anestesiados pelo também já indispensável Mount Gay, olhávamo-nos como duas crianças triunfantes na aventura proibida. O que estás a escrever, perguntaste. Nada de especial, apenas pairando como se estivesse dentro de uma sopa de letras, recolhendo aqui e ali palavras formadas pelas espirais caóticas do acaso, respondi a custo. Naquele momento até as palavras me custavam a sair. Então e o romance que estavas a escrever?, Já o acabaste? Olhei para B. com olhos de falta de paciência. Eu era a rainha, a amante, a meretriz, a sacerdotisa, a mãe e a mulher que sabia de tudo e de todos. Ele era o rei, o amante querido e desejado, que sabia de tudo que lhe dissesse respeito, passando distraído no resto. É genético, nem sei porque é que ainda me espanto, pensei para comigo. Olhei-te de novo, e repeti a mesma frase das últimas noites. Estou nos finalmentes, falta muito pouco. Encolhi os ombros no gesto reflexo quando me respondeste com um longo AAAAAAA, mais preocupado com o teu copo já vazio, do que com o que faltava no romance. Pensei para comigo, Dava-me jeito encher o espaço que faltava para acabar o texto, como se enche um copo de rum, sempre até à borda, sempre até ao fim. A Lila acabou a canção, tú acabaste o copo de Mont Gay, e eu acabei este texto. De seguida, desnudo-me e mergulho nas águas mornas e escuras do Caribe em direcção ao final do meu romance.

31.10.08

EXCITAÇÕES NA BIBLIOTECA DE BABEL

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Ao princípio não me apercebi que lugar era aquele. Tinha acabado de deslizar para aquele estado de bem-aventurança pós orgasmo, quando a porta do quarto mudou de cor e o espaço que me envolvia transformou-se por completo.A cama com os lençóis de linho branco, todos emaranhados, desapareceu. O roupeiro embutido na parede desapareceu. Olhei para o meu lado e, já sabia que assim seria, B desapareceu também. Só o grande espelho que forrava a parede fronteira à cama tinha ficado, embora o seu brilho agora fosse cinzento metálico. Devia ser para combinar com o tom metálico da porta.
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Olhei-me a ver se continuava eu mesma, e suspirei de alívio. Os seios eram os mesmos, um bocadinho mais erectos do que o costume, a barriga era a que eu conhecia, os pelos púbicos aparados como sempre e os pés, eram os meus pés! Sem dúvida que eu não mudara.
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A medo abri a porta e entrei numa galeria hexagonal com um poço de ventilação no meio, cercado por parapeitos baixíssimos. As paredes estavam forradas por estantes com livros. Olhei para cima e os pisos de galerias idênticas estendiam-se até ao infinito. Olhei para baixo e era o mesmo cenário. Onde estaria? Numa biblioteca, sem dúvida, mas que biblioteca? Não tinha conhecimento de nenhuma assim.Resolvi passar para a galeria seguinte e vi a minha imagem reflectida no espelho do saguão de ligação das galerias. Estava nua, apenas com umas meias pretas e ligueiros, mas sem cinto de ligas. Observei melhor e reparei que os ligueiros estavam presos aos grandes lábios com umas molas pretas. Senti a excitação expandir-se pelo meu corpo nu à medida que caminhava para a próxima galeria hexagonal. Cada passo que dava fazia com que estremecesse de prazer e me arrepiasse toda.No que me pareceu uma eternidade, acabei por chegar à próxima galeria. Era igual à outra, cheia de estantes e livros. Ao acaso puxei uma lombada de cor preta. Voltei-o para ver a capa e quase o deixei cair de incrédula. A capa era igualmente preta, com uma fotografia de uma mulher nua ajeitando as meias pretas com ligueiros. Mas não foi isso que me fez tremer as mãos e quase deixar cair o livro.
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Foi o título do livro, EXCITAÇÕES, em letras brancas e grandes, e em letra mais pequena, Fotografias de B...
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. Devia estar a sonhar! Sem largar o livro decidi passar para outra galeria e só então reparei no bibliotecário que se encontrava à secretária, escondido na penumbra do próximo saguão de ligação. Resolvi perguntar-lhe como se poderia sair dali. Respondeu-me com um sorriso, - Minha querida, não se sai da Biblioteca de Babel, a menos que se tenha encontrado o livro escrito por nós. Como a Biblioteca é interminável, é como encontrar uma agulha num palheiro...!
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. - Mas eu encontrei! Ainda não o escrevi, mas encontrei!, disse quase a chorar de alegria.- A Biblioteca tem todos os livros escritos e por escrever. Se o encontraste, então o teu lugar não é aqui...! A Biblioteca é um lugar de busca...Deixei de o ouvir, no momento em que senti o braço de B a envolver-me a cintura. Na atrapalhação da saída, deixei cair o livro no poço vazio, mas ainda consegui ler a placa branca que se encontrava bem no topo da secretária: - J.L.Borges – Bibliotecário
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29.9.08

MOUNT GAY

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O Dolphin Dance inclinava-se na bolina elegante dos seus cinquenta pés. A costa escarpada da ilha de Bequia aproximava-se velozmente por entre a névoa formada pelas miríades de partículas de água que brincavam ao apanha na rebentação desordenada das ondas. Para trás tinham ficado os Tobago Cays e a Petite Saint Vincent. Para trás tinham ficado igualmente pedaços de todos nós, colados com mar e vento às areias das ilhas desertas, esperando os piratas charmosos da nossa imaginação.
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Atenção ao bordo, gritou o Louis LeClerc da roda de leme de estibordo. Podíamos ver o branco dos olhos das rochas quando avisou com voz decidida, Leme de Ló. As escotas dançaram umas com as outras, a genoa oscilou a princípio, como se ainda não tivesse decidido mudar de bordo, enquanto a vela grande, orgulhosa e vaidosa, com um sacão passou para a amura de bombordo. Com esta manobra, passamos a ver a entrada da baía de Port Elisabeth. Mais um bordo e estávamos de novo em Bequia, para nós a mais querida de todas as ilhas daquela zona das Caraíbas.
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. A noite chegou enquanto preparávamos o jantar a bordo. Era noite de festa e nós estávamos lá para dançar até de madrugada. Era a nossa última noite antes de entregar o barco na baía de Blue Lagoon, em St. Vincent, nosso remoto local de partida, parecia que há muitos séculos atrás.
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. Atracámos o dinghy na amarração do clube de mergulho, e fomos à procura do local da festa. Tinham-nos dito que vinha um músico fabuloso que dava pelo nome de Shadow. A coisa prometia, só faltava saber onde. O Jimmy, natural da ilha, sabia bastante bem onde era a celebração, como viríamos a constatar depois. Mas antes, a caminho do local do ritual dançante, fomos visitando todos os bares, como de fossem estações de uma peregrinação. Em vez da reza do costume, provávamos a Caribe local. E assim fomos subindo a encosta, seguindo o nosso guia casual, até chegarmos ao recinto de jogos de Criquete e Basquetebol. A multidão que ondulava junto ao portão, dizia-nos que era ali. Depois de me porem uma pulseira cheia de hologramas a brilhar, entrei para o recinto já quase cheio. Parecia que estava numa festa de liceu ao ar livre, com a diferença que os alunos eram todos de cor, e só nós e mais um casal de holandeses, a ver pelo escaldão que levavam, é que éramos a dar para o deslavado. Além disso, estavam todos a petiscar frango frito com arroz e feijão, em vez de gelados e pipocas. Onde é que se bebe?, perguntou o LeClerc ao Jimmy.
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Não servem bebidas alcoólicas aqui, só Cocacola, respondeu num sorriso branco pepsodente, para acrescentar, Mas o que o pessoal aqui faz, é ir lá fora comprar uma garrafa de Rum, daquelas de bolso, e depois baptiza a cocacola aqui dentro, discretamente, salientou com um arquear de sobrancelhas multirracial. Olhei para o LeClerc, mas já só lá estava a sombra quádrupla dos projectores.
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Não contive um sorriso quando o vi regressar como se nada fosse. Olhava distraidamente para os polícias que vigiavam o recinto. Do inchaço enorme no bolso dos calções, sobressaía o gargalo de uma garrafa. Comentou que, Já não havia das pequenas, então comprei a do costume, e puxou ligeiramente a garrafa onde se lia em letras douradas, Mount Gay Reserva. Sorriste também, como se fosse a coisa mais natural do mundo e disseste na ocasião, Então vamos lá beber umas cocacolas.
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Já a garrafa ia a meio, quando o Shadow entrou triunfante na sua barba grisalha a pontuar de branco a vestimenta negra. A banda acentuava os riffs de guitarra com a secção de metais, e toda aquela massa de corpos ondulantes vibrava em uníssono. Perdi-te de vista. Navegavas em rumos concêntricos, e ciclicamente vinhas ao meu porto, para te abasteceres de mim e também de Mount Gay.
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. A celebração estava no auge, deixou de haver negros ou brancos no recinto. Havia apenas a música e o mar de corpos que a dançavam. De repente um vento fresco começou a soprar devagarinho, para de seguida se abater sobre nós uma chuvada torrencial, daquelas que encharcam até a alma mais empedernida. Que me lembre, ninguém arredou pé, nem parou de dançar.
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Shadow para finalizar, repetiu em versão extra longa o tema ícone daquela noite, para delírio de todos. A garrafa de Mount Gay foi deitada fora na vergonha de ter ficado vazia, e nós dirigimo-nos cambaleantes para a amarração, onde o dinghy nos esperava pacientemente, para nos levar a uma das estrelas da constelação de Mooring que brilhava por cima de Admiralty Bay. No caminho, descobriste no bolso da camisa ensopada de chuva e suor, o resto de um charro da erva mais mortífera que alguma vez fumáramos, e para acabar o ritual, acendeste-o. Fumaste-o com o LeClerc. Eu já tinha emoções que chegassem e bastava o cheiro para me pôr zonza, e o outro tripulante que nos acompanhava, já estava clinicamente ausente. Caminhava automaticamente, com a ajuda da descida da rampa que nos conduzia à praia, cantarolando baixinho o refrão da última música.
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LeClerc insistia em ser ele a levar o dinghy. Sou quem tem mais tempo de mar, por isso levo eu, dizia com o indicador levantado para acentuar. E eu sou o mais velho, dizias tu não muito convencido. Para piorar a situação apareceram dois tripulantes de um catamaran de charter a pedir-nos boleia para a embarcação. Comecei por dizer que talvez não fosse muito boa ideia, mas os braços abertos do LeClerc desfizeram qualquer dúvida. Ainda hoje penso que o sorriso dele brilhava no escuro. Com os tripulantes do Catamaran a indicar o rumo, foi fácil dar com a embarcação deles. Depois foi por puro acaso que encontrámos a nossa no meio da quantidade de barcos fundeados na baía. Fazias coro com o Louis, ao dizer que, Com um fuminho damos sempre com o barco. E riam-se até se engasgarem, como dois putos contentes e felizes.
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Acostámos na perfeição ao Dolphin Dance, aí o acaso já não teve nada a ver com isso, e acordámos os que tinham ficado a bordo, com as risadas alucinadas de quem não quer fazer barulho. Deu-nos a fome, porque seria?, e fomos comer os restos do jantar. Já não havia cerveja, e quando o drama profundo já se começava a desenhar, eis que surge LeClerc, triunfante com uma garrafa de Mount Gay na mão. Tinha-a guardado para uma emergência, disse no sorriso mais feliz que alguma vez vi.
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No dia seguinte, iniciámos os procedimentos para voltarmos a Portugal. No entanto, acho que ficámos todos em Bequia e continuamos a viver por lá. Regressaram as nossas sombras. Nós ficámos na Terra do Nunca.... .
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(João Pedro, será que respondi à tua pergunta?)

16.9.08

PRAZER EM CONHECER

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A noite era de calor tórrido e abafado. As ventoinhas exibiam as pás difusas, na lentidão do remexer o ar parado. O lobby do hotel, mesmo assim, era um oásis ténue no deserto da noite citadina. O que estava a fazer ali? No meio do Yucatan, numa cidadezinha chamada Valladolid, a lembrar terras de Espanha. Cruzei a perna na impaciência da tua chegada, e fechei os olhos na procura da recordação do teu rosto. Deixares-me sozinha no Parque em frente ao Hotel, com a promessa de voltares ao principio da noite. Tenho que fotografar os Índios que apoiam o Comandante Marcos do Ejército Zapatista de Liberación. Souberam que estávamos aqui, e convidaram-me. É uma oportunidade única.

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E vi-te entrar na camioneta da escola que partiu numa nuvem de poeira, como nos romances. E eu, a personagem feminina, deveria chorar a ver-te partir. Em vez disso fui tomar um banho de imersão bem frio. Não durou muito tempo porque as cucarachas também estavam cheias de calor, e apareceram para se refrescarem. De olhos fechados, imaginando a brisa que me lambia o corpo a intervalos, ouvia o som ritmado das infindáveis canções de mariachis. Abri os olhos, espantada e surpreendida, no momento em que as congas deram lugar a uma voz escondida nas profundezas da mente. cantava, Please allow me to introduce myself / I´m a man of wealth and taste...

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A minha surpresa ainda foi maior, porque à minha frente estava um homem alto, ligeiramente curvado na minha direcção, como se estivesse a fazer uma pequena vénia. Reparei na altura que vestia um fato preto a contrastar com o forro dum vermelho vivo, camisa branca e gravata azul escuro com riscas laranjas, brancas e azul claro. Fiquei presa naquelas riscas hipnóticas e fui despertada pelo fumo acre da cigarrilha cubana.

. Let me please introduce myself / I’m a man of wealth and taste, continuava a canção cada vez mais familiar. Ele sentou-se a meu lado, e num gesto no limite do charmoso, pegou-me delicadamente na mão e simulou o beijo, que embora não tendo existido, (será que não existiu?) teve o condão de me provocar um arrepio que percorreu o braço direito, entrou pelo pescoço e espraiou-se pelo tronco até sair pelo sexo na vibração quase, quase órgásmica. Olhei atónita e confusa para a silhueta em contra luz, que ainda mantinha a minha mão na dele. Senti-lhe os olhos de fogo e tentei descortinar o que haveria dentro deles.

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So if you meet me / Have some courtesy / Have some sympathy, and some taste…, continuava a canção já conhecida, mas não identificada. As congas acentuavam o ritmo e a voz era cada vez mais possessiva, como o olhar que me envolvia e apertava como uma cobra a imobilizar a sua presa. Queria perguntar-lhe o nome, mas não consegui. Em vez disso, vi-te a sorrir. Pensavas em mim e soube isso naquela altura, naquele instante em que senti, ou pensei ouvir uma gargalhada rouca a ecoar bem no fundo de mim mesma. Olhei de novo para o homem que tinha a meu lado, traçara a perna e pusera o braço a contornar-me os ombros nus. Senti um frémito de gozo antecipado e num impulso bem consciente, não posso mentir, desapertei o corpete, botão a botão, e mostrei-lhe os seios sequiosos de luz. Ainda hoje não sei porque o fiz, mas a vontade de abrir o corpete e mostrá-los foi avassaladora.

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Tell me baby, whats my name / Tell me honey, can ya guess my name / Tell me baby, whats my name / I tell you one time, youre to blame / Ooo, Who…., finalizava Mick Jagger. O homem sorriu (será que sorriu?), na minha direcção, levantou-se e pronunciou as únicas palavras de que me lembro, Señorita..., e cruzou a porta do hotel no instante em que entraste. As tuas palavras, quando me viste, assim exposta e meio atordoada, ficaram para sempre gravadas na minha memória, Vinha com uma saudade louca de te beijar os seios... como é que adivinhaste?

Nunca tive a coragem de te dizer. Até hoje!

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(texto publicado no Excitações Primeiro Set)

10.7.08

ROUND MIDNIGHT – POR VOLTA DA MEIA NOITE

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O chapéu de coco fora pousado delicadamente no tapete felpudo. Era preto, na ausência do vermelho em terras de Espanha, contrastando com o creme, a tender para o laranja fim de tarde, do tapete. O chapéu dava-lhe aquele ar de vaudeville travesso que tanto gostava e praticava. Depois, pegou nas meias pretas, enrolou-as cuidadosamente, para de seguida as desdobrar até ao princípio das coxas. Estavam bem justas e contrastavam com a pele rosada do seu corpo nu. Olhou-se de novo ao espelho e franziu ligeiramente a testa na interrogação. Falta qualquer coisa, pensou. Olhou à sua volta e a pequena ruga transformou-se em sorriso. Pegou no colar de pérolas e vestiu-se com ele. Olhou decididamente para a imagem reflectida no espelho, e soube-se bela.
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A objectiva captava um brilho, um glow, que ela não sabia que tinha. Pelo chão, ao lado da carpete felpuda, brilhava uma garrafa de Quinta do Infantado, grandes copos vermelhos, objectivas, lentes, filtros e um ar de doce luxúria. Miles Davis passeava pela sala em sons lânguidos e intimistas, depois vinha Coltrane, o impressionista do jazz, colorindo o ambiente num serpentear de notas, respirações, intenções... E ele, à volta dela, fotografando-a... Ela namorava a objectiva, sentia no corpo nu o calor e o som dos olhares dele. Do fundo da sala, vinha o som de uma voz de mulher. Estava deitada no chão, os longos cabelos negros espalhados nas amplas almofadas vermelhas. Trocava palavras, olhares e pequenas carícias com o homem sentado a seu lado, fumando uma cigarrilha no ar ausente de quem está preste a dizer algo de seminal.
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Olhou para a companheira de longa data e sorriu. Depois, elevou o olhar e abarcou com ele o resto da sala e todos os que lá se encontravam. À sua frente, afundado no cadeirão de pele desbotada, Lawrence Ferlinguetti cofiava a longa barba hirsuta e ia compondo versos para a mulher que atravessa a Piazza “Bocca della Verita”. No canto oposto ao autismo fotográfico de nudez luxuriante, Bill Evans, acompanhado por um Tony Wiliams não muito confortável nas congas, improvisava no piano, estruturas modais, que flirtavam com os acordes de Red Garland que serviam de base aos solos de Miles e Coltrane que enchiam a sala. O som da aparelhagem que revivia o mítico quinteto tinha uma intensidade intimista, o suficiente para deixar sobressair o piano e as congas, sem no entanto abafar a calorosa discussão que ocupava o canto restante. À volta de uma mesa rectangular, o clássico arranjo de dois sofás pequenos e um grande. Num dos sofás pequenos, de costas para os músicos, Timothy Leary depois de ter lambido um selo colorido, impregnado de ácido lisérgico, repetia incessantemente, como se fosse um mantra, “Turn on, Tune in, Drop out”, viajando para outros debates e discussões. No sofá grandalhão, os quase inseparáveis William Burroughs e Allen Ginsberg opinavam sobre o título a dar ao último romance do primeiro. Interzone, acentuava o homem do inseparável chapéu no olhar por detrás da morfina, Naked Lunch, contrapunha o sempre jovem de óculos, do cimo da fama do seu poema épico “Howl”. No sofá restante, um jovem Tom Waitts, com olhar maravilhado, congeminava uma ópera bufa. Veio-lhe à cabeça o nome de Black Rider.
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Jack Kerouac, aclarou a garganta, mas de nada serviu, ninguém o ouvia. Então, decidido a chamar a atenção para o que queria fazer, levantou-se no salto ágil. Pegou no sax alto abandonado nas almofadas coloridas e soprou com força o acorde inicial do Round Midnight, completamente fora de tom. Parecia um momento congelado no tempo. Todos os personagens ficaram parados no eco a desfazer-se, com excepção do par cativo no buraco negro dos olhares. Também foi para eles que Jack recitou o seu último Aiku, acabado de compor. Birds singing / in the dark / -Rainy Dawn.
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Voltou a sentar-se, satisfeito com a receptividade do grupo ao poema e voltando-se para a companheira que lhe estendia um copo de Jack Daniels, perguntou-lhe, Gostas, Eddie? Achas que tem Beat? E sem esperar pela resposta centrou o olhar no corpo nu difuso, para lá da cortina branca de luz e poeira suspensa que entrava pela porta da pequena varanda. O brilho das pérolas brancas misturava-se com o brilho dos pequenos grão de poeira que flutuavam no ar. Os olhares feito imagens, misturavam-se com os sons lânguidos do trompete...
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. Texto escrito em conjunto por Excitações & Laura’sex life
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. ( Reprise do Texto publicado no Excitações - Primeiro Set )
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18.6.08

AGFAPAN QUATROCENTOS

Pelo brilho do olhar e pelo sorriso a roçar o infantil, ela soube-o feliz quando chegou a casa, trazido pelos últimos raios de luz que teimavam em prolongar o dia, naquela hora suspensa entre dois mundos. Sorriu na expectativa do beijo distraído com que ele a presenteou, servindo de introdução ao discurso excitado e quase ininteligível do que lhe tinha acontecido. Como costumava fazer nessas situações, olhou-o bem nos olhos, beijando-o longamente, até o distrair dele próprio e serem, uma vez mais, aquele todo que os mantinha ainda na linha de partida, após tantos anos de vida em comum.
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Levou um dedo aos lábios em sinal de silêncio, sentou-o confortavelmente no velho sofá vermelho e recolheu-se na cozinha em busca da garrafa de tinto e dos copos de cristal. Para ocasiões especiais, vinho e copos igualmente especiais, pensou no sorriso que lhe aflorou aos olhos, a ponto de quase os cerrar de alegria. Ao fim de todos aqueles anos, ainda sentia as descobertas e triunfos dele como se fossem também dela. Seria que com ele acontecia o mesmo? Gostava de pensar que sim, mas sabia que ele era bem diferente. E ainda bem, pensou para consigo enquanto voltava à sala.
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Então diz lá o que te aconteceu, para chegares a casa como um puto, que conseguiu o último cromo da colecção dos jogadores da bola? E recostou-se para o ouvir, deliciada, enquanto aflorava o cálice de vinho, como se fosse uma preciosidade. Conta lá, repetiu, Mas conta devagarinho, bem devagarinho para eu saborear com prazer.
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Ele sorriu, arqueou as sobrancelhas duas vezes, naquele gesto tão característico dele, e começou por dizer. Lembras-te do meu avô artista gráfico? Aquele que também era fotógrafo e tinha uma litografia? Lembras-te de eu te dizer que quando ele morreu, a litografia estava nas ruas da amargura e os credores levaram tudo, ficando apenas os poucos desenhos originais e álbuns de fotos que ele tinha em casa. Tudo o que estava no local de trabalho, e era quase tudo o que ele tinha feito ao longo da vida, acabou por desaparecer na voragem dos credores. Venderam o que puderam e destruíram tudo o que não tinha valor comercial. Bom, quase tudo, como acabei por descobrir hoje, num golpe de acaso e sorte.
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Descobriste coisas do teu avô? Aonde? Perguntou-lhe cheia de curiosidade. Não vais acreditar, mas foi num leilão, ali para os lados da rua do Loreto, ao pé do Largo do Camões. Ainda existe uma casa muito antiga, que vende jóias e relógios, mas que dantes também era uma Casa de Penhores, como lhe chamavam. As pessoas quando estavam aflitas de dinheiro, empenhavam jóias, relógios, máquinas fotográficas e todo o tipo de coisas que dessem dinheiro. Quando se recompunham financeiramente, iam lá buscar o que tinham vendido e pagavam um juro correspondente. Foste a um leilão numa casa de penhores? Perguntou cada vez mais cheia de curiosidade. Fui, fui, estava interessado numa antigas Hasselblade que iam para venda, juntamente com uma série de tralha bem antiga que ainda estava nos armazéns da loja. Estavam a leiloar tudo. Os donos já estão bem velhos, os filhos estão-se a borrifar para o negócio e segundo consta, têm uma oferta de um banco para fazerem ali mais uma agência. Vi o anúncio e decidi lá ir dar uma vista de olhos.
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Conta mais, conta mais, pediu ela sofregamente, com a curiosidade quase a matar o gato. Ele sorveu deliciado mais um gole de tinto, encheu o peito na pantomima e contou que, Embora eu só estivesse ali para ver se conseguia adquirir uma Hasselblade quinhentos cê, o que acabei por conseguir, uma seis seis com carregador duplo e objectiva Carl Zeiss de oitenta milímetros com dois ponto oito de abertura, despertou-me igualmente a curiosidade, quando anunciaram a venda de um baú fechado a cadeado. Ninguém sabia o que continha, anunciaram divertidos, e só acrescentaram que tinha pertencido a um litógrafo da velha guarda. Quando desvendaram o nome do artista, não acreditei, até perguntei para repetirem, tão incrédulo estava. E depois, desembucha!, quase que gritou. Agora estava excitadíssima para saber o desfecho. E depois?, repetiu. E depois? Olha, disse-lhe com um sorriso tranquilizador, Depois, felizmente que ninguém que ali estava conhecia o nome do meu avô, e acabei por licitar o baú por um preço decente. Está aí! Ainda não o abri, estou mortinho por isso, mas quero partilhar esse momento contigo. Ela levantou-se e beijou-o no meio do desfoque molhado que lhe inundou o espírito.
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Olhou para o velho baú de madeira forrada a cartão pintado, conservando ainda os cantos em latão quase preto e os dois fechos com cadeados. Tens a chave?, perguntou por perguntar, embora já soubesse a resposta. A chave?, Claro que tenho a chave, e mostrou-lhe uma chave inglesa pronta a partir os fechos do baú. Foi com um ruído seco que décadas de esquecimento se evaporaram, prontas a revelar um passado já a começar a ficar bem distante.
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O interior do baú, para além do cheiro característico das coisas velhas e antigas, estava cheio de antigos envelopes de papel fotográfico contendo as mais variadas coisas, desde fotos de família a fotos de estúdio, desde desenhos a lápis de cores, uma das especialidades do avô dele, a aguarelas de paisagens e ilustrações variadas. Bem lá no fundo, ainda tinha alguns utensílios de fotografia já muito em desuso, como dois tanques de revelação em baquelite, filtros e condensadores para um qualquer ampliador, lentes antigas em latão, parafusos roscados vários, latas cinzentas intactas de revelador em pó Promicrol e uma lata redonda de película Agfa a preto e branco, formato trinta e cinco milímetros e quatrocentos Asa, ainda por abrir.
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Sorriu quando o ouviu dizer, que valia a pena experimentar aquele rolo e aqueles reveladores. Ela sabia que ele queria experimentá-los nela, e perguntou se não ia ficar tudo manchado devido à idade que tinham. Respondeu-lhe que era isso mesmo que pretendia, fotografá-la hoje com o material do passado. E na excitação da antecipação, correu para a câmara escura com a caixa de metal. Ainda o ouviu dizer, Lembras-te daquela caixa cheia de cassetes de rolos Agfa vazios, que andei a guardar todos estes anos? Até parece que estava a adivinhar, São os melhores para recarregar com filme virgem.
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Quando ele voltou, com a velha Nikon Éfedois e o mais que antigo flash SunPak montado no tripé com sombrinha, já ela estava desnuda no sofá vermelho de tantas recordações. Como é que sabias? Começou por perguntar, mas desistiu assim que a sentiu no limbo da sua excitação crescente. Como sempre fazia quando a fotografava, pôs o Cd do Coltrane a tocar baladas, e dançaram até à exaustão, coreografias exóticas na cumplicidade dos olhares.
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Por fim, não resistindo ao chamamento da novidade, correu de novo para a câmara escura, a fim de preparar o Promicrol para revelar os rolos. Ela, cansada e feliz, enroscou-se no velho sofá vermelho e adormeceu, na certeza do despertar no sorriso dele. Sabia que ele não ia dormir, já o conhecia o suficiente para saber que só iria ter com ela, quando tivesse revelado os negativos e terminado as provas de contacto.
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Acordou naquele estado em que não se tem consciência do tempo, do espaço e até de nós próprios. Sentia-se mais uma impressão de ser, uma promessa de futuro, do que estar no instante presente. E assim acordou, com o sorriso dele, perplexo e interrogativo ao mesmo tempo, como que a querer dizer-lhe, Queres ver isto? È no mínimo assustador. As fotos não estão muito manchadas, mas a tua imagem está um pouco diferente. Parece que a camada sensível não captou tudo, ouviu-o dizer numa voz mais rouca do que o costume.
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Tirou a cabeça debaixo do cobertor e viu-lhe o olhar surpreso no rosto jovem de cabelos compridos. Com um gesto rápido, ele levantou o cobertor que a cobria e fê-lo voar, até ela ficar novamente nua perante ele. Estás igual às fotos, mas as fotos não estão iguais a ti, gaguejou confuso. Os teus seios estão mais pequenos, quase não tens cabelos púbicos e estás com um corpo de adolescente. O que é que te aconteceu? Isso pergunto eu, respondeu-lhe ela de rajada. Já olhaste para ti? Com os cabelos compridos à anos sessenta e barba quase imberbe? Olha para ti, disse não muito convicta, enquanto acariciava o corpo e o sentia mais jovem, rijo e cheio de promessas. Passou a mão pelo rosto e sentiu-o igualmente mais liso. Levantou-se de rompante e procurou o espelho da sala. Não estava lá, e a sala estava ligeiramente diferente. Só o velho sofá vermelho estava igual, bem, igual não estava, estava mais novo. Era isso, concluiu bem depressa, Tudo estava mais novo. Olhou para ele e suspirou, ou melhor, quase que implorou. O que é que nos aconteceu? Ele, acariciando a novidade dos cabelos compridos, começou por dizer, Não sei, não sei. Fui para a câmara escura fazer o revelador e de seguida pus-me a revelar os rolos. Quando acabei de os lavar e fui ver o que tinha saído, foi com espanto que constatei, mesmo no negativo, que o corpo que tinha fotografado era de uma adolescente. Até pareciam aqueles trabalhos do David Hamilton com fotos eróticas de adolescentes nuas. Confesso que fiquei baralhado e igualmente bastante excitado. Corri para te dizer isto mesmo, até que te vi. Estás linda, desejável, mas és uma criança. Que é que nos aconteceu?
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Vai buscar a caixa metálica do rolo, parece-me que vi qualquer coisa escrita nele, disse-lhe com nervosismo. Deve ter qualquer coisa a ver com tudo isto, acrescentou um pouco insegura. Era mais um palpite do que qualquer réstia de certeza. Enquanto ele foi buscar a caixa, olhou em redor e pareceu-lhe que estava em casa da mãe. Até a micro aparelhagem de Cd tinha desaparecido e em seu lugar brilhava agora uma daquelas telefonias enormes, com um mostrador cheio de números, botões nos lados e várias teclas ao meio. Quando se aproximou para a pôr a trabalhar, ele chegou com a caixa metálica. Na parte de cima dizia simplesmente, AgfaPan Quatrocentos, dez metros. Na parte de baixo, uma tira creme impressa a letras vermelhas dizia, Prazo de Validade - Abril de Mil Novecentos e Setenta e Quatro. Olharam um para o outro, na negativa incrédula.
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Lá fora, um eléctrico chiou na curva apertada do Quartel do Carmo. Pela janela da varanda ela viu de relance o chafariz iluminado, projectando sombras variadas no empedrado. O silêncio voltou ao Largo novamente deserto. Olhou de novo para ele e completou o gesto suspenso, ligando a telefonia. Eram quase onze da noite, Paulo de Carvalho cantava, E Depois do Adeus.
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12.6.08

PAIRAR...

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31.5.08

OLHOS TRISTES

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Chegou a casa decidido a senti-la mais intimamente do que era costume. Ligou a aparelhagem, procurou o cd de Tony Scott, “Music for Yoga Meditation” e pô-lo a tocar ao mesmo tempo que punha os auscultadores. Sentou-se em posição confortável, descansou os braços nas pernas e fechou os olhos. Os sons da cítara, aliados aos do clarinete, transportaram-no para aquela zona conhecida, a que chamava o plano da consciência criadora.
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Aproveitou o primeiro tema, “Prahna”, para a procurar fora das ilusões coloridas da mente vigilante. Deixou as vagas de cores esfumarem-se como nuvens no céu, até desaparecerem no vazio que o começava a preencher. Não ousou perguntar, Onde estás?, e deixou-se transportar nas vibrações harmónicas.
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Encontrou-a no começo do segundo tema,”Shiva”. A princípio, eram apenas uns grandes olhos tristes que pairavam no vazio, sem cabeça ou corpo aparente. Lentamente, observou como a cabeça se formava a partir dum ponto azul, a brilhar na base do pescoço. O corpo tomou forma instantaneamente, não uma forma física comum, mas sim uma forma de luz esbranquiçada. Conseguia distinguir os braços ou o que lhe parecia serem os braços, e decidiu agir. Abriu os seus próprios braços e com um impulso, elevou-se até ela e colou-se ao seu corpo de luz. Ela copiou a sua posição e juntos rodopiaram no vazio consciente.
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Resistiu à tentação de percorrer os vórtices dela, um a um, e apenas observou o vórtice azul que vibrava na base do pescoço. Estava tingido de púrpura e emanava filamentos em direcção aos braços. Sem lhe tocar e usando de imagens pensamento, devolveu a cor azul cyan ao vórtice e eliminou os filamentos. De seguida estendeu os ténues raios azuis pelos ombros, braços e mãos, até os alinhar convergentemente. A imagem que se formou, era composta por várias crianças e alguns adultos. Intuiu a manifestação do querer presente e sem tomar qualquer atitude, afinal estava ali apenas para a sentir, impulsionou-a para cima com força.
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Ela atravessou as últimas notas do terceiro tema, “Samadhi”, como se de nuvens se tratasse. Parou na luz dourada, ao mesmo tempo que a vibração rouca da palavra OM do quarto tema, “Hare Krishna”, a inundava e tingia de energia consciente. Afastou-se para a observar de longe. Os olhos tristes estavam serenos e fechados no sorriso de paz finalmente que a envolvia.
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Lentamente, tomou consciência de outros sons na periferia da atenção, e fez um esforço para retomar o movimento físico ao abrir os olhos. Como sempre lhe acontecia, sentia-se a voltar de muito longe, talvez do local onde os sonhos se transmutam na realidade intuída e nem sempre vivida.
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Levantou-se e desligou a música. O fim de tarde, entrava pela janela aberta, com as primeiras luzes acesas. O cão ladrou na expectativa de um passeio até ao parque. Olhou o silêncio à sua volta, opaco e espesso como o vinho tinto novo. Fez uma festa na cabeça do cão, e com passo decidido, foi abrir uma garrafa de Valado Tinto, pois então!
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21.5.08

PAR4

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Ao cruzar o portão de ferro da Quinta, automaticamente olhou para o lado esquerdo, na direcção do driving range, para medir a visibilidade e notou que se começava a formar uma neblina que esbranquiçava a parte mais afastada do campo. Acelerou na rampa e parou em frente à casa do clube. Estava tudo fechado e não se via vivalma.
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Ao tirar do carro o saco com os ferros foi com satisfação que colocou a pequena gabardina a protegê-los. Ligou o motor eléctrico do carrinho e dirigiu-se para o primeiro buraco.
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A neblina começava a ficar mais espessa mas por enquanto a visibilidade ainda era boa. Do ponto de saída, via nitidamente o lago em frente e o green do primeiro buraco já um pouco branqueado, mas ainda visível. Escolheu uma bola Spalding Pró II de cor laranja, para uma melhor visualização da trajectória, colocou-a no tee com um cuidado já ritual e colocou-se em posição. Olhou fixamente o ponto para onde queria que a bola fosse e de seguida imaginou a trajectória desde a pancada até ao green, passando por cima do lago. O lago já há muito que tinha deixado de ser um problema para ele, embora tenha pago um tributo bem elevado em bolas que lá foram parar, mas agora era um mero obstáculo a ultrapassar. Olhou uma última vez para a bandeira do primeiro buraco e fixou o olhar na bola, ensaiando o swing com um movimento bem lento. Pelo som grave do batimento percebeu logo que era uma boa pancada, enquanto o final do swing conduzia o olhar na direcção da bola que cruzava o lago em direcção à margem oposta. Em cheio no green, com um bocado de sorte ainda faço um birdie, pensou para consigo enquanto atravessava a ponte de madeira. O silêncio que o envolvia, fazia-o sentir-se especial e privilegiado, por estar naquele sítio e àquela hora, fazendo uma das coisas que lhe dava mais prazer. Sentia-se o rei do mundo naquele momento.
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Assim que viu a bola no meio do círculo relvado, voltou à realidade, e começou a estudar a melhor maneira de colocar a bola no buraco só com uma tacada. Agachou-se como de costume para avaliar a rugosidade e o nível do relvado. Um ligeiro efeito para contrariar o declive deve bastar, pensou. Dirigiu-se à bandeira e retirou-a do buraco, depositando-a de seguida na orla do green, reparando que a neblina estava a aumentar. Já não distinguia o tee de saída do primeiro buraco, a visibilidade estendia-se agora até à margem mais afastada do lago. Apressando o passo, sacou o putter, e ensaiou lentamente o movimento, ao mesmo tempo que começava a entoar um refrão duma canção como se fosse um mantra. Não sabia como tinha começado a fazer tal coisa, mas agora era tão natural em si como respirar. Entoou uma vez mais o refrão e bateu com decisão uma pancada quase perfeita. A bola, depois de percorrer um arco, passou a escassos centímetros do buraco, parando a cerca de um palmo de distância. Porra, é preciso ter azar, disse para consigo, enquanto metia a bola displicentemente no buraco com uma pancada leve e seca. Voltou a colocar a bandeira no seu lugar, e dirigiu-se ao buraco dois olhando para trás na direcção do lago. A visibilidade estava a diminuir, já só conseguia distinguir metade do lago.
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O buraco dois era um Par 4, e gostava cada vez mais dele, embora a princípio não fosse assim. Parecia fácil, era uma linha recta, e no entanto as bolas tinham tendência para fazerem uma deriva para a direita em direcção ao outro lago e quando tentava corrigir a deriva, era para a esquerda que ia, para o meio das árvores donde era muito difícil tirá-la. Como em tudo era uma questão de prática e agora, normalmente colocava a bola no eixo, apenas com um deslocamento mínimo.
. Olhou na direcção do farway, e lá em baixo só viu névoa, embora conseguisse distinguir o vulto do green que estava mais acima, enquadrado pela barreira de árvores bastante altas. Uma vez mais, imaginou a trajectória da bola enquanto preparava a pancada, fixou o ponto onde queria que ela caísse e iniciou o swing. Pelo som da pancada ficou a saber que não tinha batido bem, e ao olhar para a bola que se afastava em direcção à parede branca de névoa, percebeu que a trajectória torcia para a direita numa longa curva em direcção ao lago. Quando deixou de ver o ponto laranja que se afastava rapidamente, calculou mentalmente o ponto de impacto e concluiu que não tinha chegado ao lago. Guardou o taco no carrinho e começou a descer a rampa que levava ao farway, embrenhando-se lentamente na neblina que começava a envolver todo o campo.
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Bonito, não vejo um palmo à frente do nariz, ainda me arrisco a ir parar dentro do lago. E onde é que está o raio da bola? Pousou o carrinho e começou a contar os passos que dava numa direcção, depois parava e afastava-se na perpendicular três passos e voltava atrás o mesmo número de passos inicial. Assim ia fazendo um varrimento do terreno em zigue-zague, tendo o carrinho como ponto de partida. Quando ia iniciar a quarta viragem, o olhar foi atraído para uma mancha alaranjada à sua direita. Deu dois passos e exclamou com júbilo, Gotcha, Cockroach! O que no jargão pessoal que usava significava simplesmente, apanhei-te! No entanto preferia usar a frase emblemática do gato do Fat Freddy da banda desenhada dos Freack Brothers. Olhou na direcção do carrinho e ainda conseguiu ver o seu vulto, de seguida despiu o blusão e marcou o sítio. Quando voltou com o ferro número sete na mão, tremia ligeiramente e apanhou rapidamente o blusão para se aquecer. No entusiasmo da situação esquecera-se que estava bastante frio, Tá um briol que faz favor..., pensou para consigo, E eu aqui perdido neste nevoeiro a tentar acertar num buraco que nem se vê a bandeira. Olhou para a mancha escura mais acima do ponto onde se encontrava e concluiu que seriam as árvores que rodeavam o green. Era para ali que tinha que bater a bola, bastava-lhe fechar os olhos e imaginar o local, já que o conhecia tão bem. Vá lá, tive sorte, a bola caiu em cima de umas raízes e está um pouco elevada em relação à relva, mesmo a pedir uma pancada.
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Preparou o swing, fez uma curta pausa e quando ia iniciar o movimento descendente, pareceu-lhe ouvir um clamor, como se umas dezenas de vozes gritassem ou cantassem em uníssono. Parou e olhou em volta, mas o silêncio que o envolvia fê-lo franzir a testa. Que raio? pensou, enquanto se posicionava outra vez para bater a bola. Antes de iniciar de novo o swing, fechou os olhos e concentrou-se nos sons à sua volta, mas só distinguia o vento que soprava leve. No preciso momento em que a ponta do ferro lhe tocou as costas antes de começar o swing, explodiu-lhe de novo na cabeça o clamor de muitas vozes. Ficou parado e quieto com o movimento suspenso na interrogação e o coração a bater mais rápido. Lembrou-se dos tempos em que cantavam a Internacional em altos gritos, levados pelo entusiasmo da revolução, mas o som que ouvira não lhe parecia de júbilo mas sim de aflição, e também não era a Internacional, disso tinha a certeza. Mas agora a situação era diferente, parecia-lhe que o som que ouvira não era exterior a si, mas interior. Surgira-lhe algures na zona por trás dos ouvidos e fora acompanhado por um desconforto na zona do estômago, muito parecido com os engulhos que experimentava por vezes aquando de recordações induzidas por uma música específica. Agora ouço vozes, costumava ser música ou um ou outro pensamento obsessivo. Bom, com vozes ou não, vamos lá bater a bola porque já estou completamente encharcado com toda esta humidade, disse para consigo. Mas desta vez não chegou a preparar o movimento, porque no preciso momento em que acabou o pensamento, outro se formou bem no centro da cabeça e dizia, Olha para nós. O pensamento ficou uns instantes a pairar e desapareceu. Começou a não achar graça nenhuma a tudo o que lhe estava a acontecer. Olha para nós? nós quem? O ambiente em que se encontrava, sozinho e em silêncio no meio daquele limbo esbranquiçado, era propício a histórias de espíritos, mas ele não acreditava em nada disso, era um céptico empedernido e cultivava essa faceta com muito carinho. No entanto, naquele instante e naquele lugar branco, quase que suspenso no vazio, não conseguiu evitar um calafrio, e não era de frio mas sim de desconforto perante algo do qual não fazia a mais pequena ideia. Semicerrou os olhos e olhou à sua volta lentamente, perscrutando as sombras e procurando vultos ou padrões para lá da neblina. Está aí alguém? Gritou, mais para ganhar confiança do que para obter qualquer resposta. Sabia que não ia ter resposta alguma e pensou que se alguém lhe respondesse, apanhava um valente susto. Olha para nós? Devo estar a enlouquecer, finalmente.
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Sentiu uma ligeira brisa a roçar-lhe a face no preciso momento em que outro pensamento se começou a formar. Desta vez a sensação era agradável e dizia apenas, Para baixo. O que queria aquilo dizer? Para baixo? interrogou-se de novo, para baixo o quê? Olha para nós? Para baixo? Seria isso? E instintivamente olhou para baixo na direcção dos pés e da bola laranja em cima das raízes.
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Não achou nada de estranho nos pés, aparte estarem um pouco sujos de lama, a bola continuava em cima das raízes, a relva envolvente era como sempre fora, verde e macia. Olhou mais de perto para a bola e a visão desfocou ligeiramente, embora lhe parecesse ver um brilho fugaz junto às raízes. Os óculos, precisava deles para ver mais ao pé, onde estariam? Na porra do carro, pensou. Automaticamente juntou o indicador e o polegar dobrado de forma a deixar apenas uma pequena abertura por onde espreitar, assim conseguia ver a imagem focada e nítida através do diafragma improvisado. Era um truque que usava quando não tinha óculos por perto e também pessoas, normalmente ficavam a olhar para ele com aquele ar desconfiado e estúpido, típico de quem não entende o que se está a passar.
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Assim que espreitou pelo buraco dos dedos, a respiração parou momentaneamente, como que para não perturbar o que estava observando. As raízes não eram raízes, mas sim pequenas hastes metálicas que sustentavam a bola alaranjada cerca de um centímetro acima da relva, e reluziam com um brilho metálico e molhado. Na ponta abriam e formavam um círculo que estava em contacto com a relva. Olhou melhor e contou sete varões que saíam da superfície da bola. A superfície alaranjada era na realidade bem lisa, sem qualquer concavidade típica das bolas de golfe actuais, e também aparentava ser de origem metálica, embora não conseguisse distinguir qualquer detalhe ou relevo, apenas uma luminosidade baça que emanava da sua superfície. Olhou ao redor e não viu nada escrito, nem Spalding, nem 1 PRO II. Definitivamente não era a sua bola de golfe, nem tão-pouco era uma bola de golfe. Recusou-se a pensar o óbvio e não resistiu a tocar-lhe muito ao de leve. Sabia que era uma imprudência enorme tocar naquele objecto, mas não resistiu.
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No momento em que o dedo tocou na superfície da bola alaranjada, todo o seu ser foi sacudido por uma onda de prazer bastante agradável, e quando começou a esboçar um sorriso, o interior da cabeça encheu-se de novo do coro de vozes em uníssono, agora expressando júbilo e contentamento, em contraste com a angústia que sentira momentos antes. Existem seres dentro desta bola que de uma maneira qualquer comunicam comigo, mas devem ser minúsculos. O coro de vozes parece ser de umas boas dezenas de seres, pensou para consigo. Franziu mais o olho na esperança de visualizar algum detalhe na superfície da bola, uma porta ou janela, mas nada, a superfície era bem lisa. Aproximou de novo o dedo e ao tocar a bola sentiu a sensação agradável ao mesmo tempo que uma ideia nova se formava bem no centro geométrico da sua cabeça, Obrigado. Desta vez o pensamento tinha cor, e a cor era de um dourado ofuscante, pelo menos era a sensação que tinha. Sentiu a superfície da bola a começar a vibrar e instintivamente tirou a mão. A cor laranja começou a tender para o lilás e a bola começou a elevar-se do solo até ficar ao nível dos olhos. Os pés de apoio ou hastes, as famosas raízes, começaram a recolher até não ficar vestígio algum delas. A bola metálica afastou-se com um movimento lento, parando depois abruptamente. Ele aproximou-se e a bola afastou-se de novo, parando mais à frente. Queres que eu te siga, não é? E começou a segui-la assim que se moveu.
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A névoa continuava bem espessa e deu uns poucos de passos hesitantes e cautelosos até que a bola parou e começou a descer em direcção ao chão. Seguiu-a com o olhar e para seu espanto viu outra bola alaranjada na relva molhada, bem junto aos seus pés. Será a minha bola ou será outra coisa igual a esta? Endireitou-se e no momento em que olhou de frente para a bola, agora de cor azulada, uma luz branca encheu-lhe o campo de visão enquanto a palavra Adeus piscou por uma fracção de segundo no limiar do consciente e desvaneceu-se no preciso instante em que a bola se desmaterializou.
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Olhou para a bola alaranjada e sem saber porquê, ajoelhou-se para ver se era a sua bola, Spalding 1 Pro II, naquele que passaria a ser um gesto intuitivo e compulsivo que passaria a fazer, fosse num simples treino ou num torneio, sempre que encontrava a bola que julgava ser a sua, e sempre se interrogaria do porquê de tal acto. Após verificar que era a sua bola, vislumbrou o green através da neblina que começava a ficar menos espessa, concentrou aquele momento no movimento circular que bateu a bola em direcção ao monte verde que ficava a seguir à mancha de areia. Em cheio no green, com um bocado de sorte ainda faço um birdie...
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15.5.08

FILHO DA MÃE DO ARTURO PEREZ-REVERTE

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Era bom sentir-se bem-vindo, pensou, e não apenas tolerado. Leu na página trezentos e quarenta e um, oitava linha a contar de cima, do romance que estava a ler, O Cemitério Dos Barcos Sem Nome. Finalmente encontrava uma frase que traduzia o seu estado de espírito sempre que pensava nela. Por isso evitava falar-lhe. Por isso evitava escrever-lhe. Por isso evitava pensar nela.
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Era bom sentir-se bem-vindo, pensou, e não apenas tolerado. Por vezes havia uma linha que valia pelo livro todo. Esta era uma delas, pensou. Filho da mãe do Arturo Pérez-Reverte. Com esta linha passava, na sua consideração, à frente do Jorge Luís Borges. E gostava do Borges como se fosse a sua sombra. Por vezes andamos uma vida inteira a bater com a cabeça nas paredes, e a chave para a porta de saída da sala em que nos encontramos, está numa simples linha escrita por outrem. O romance até que não era nada de outro mundo, aparte o facto de estar escrito por alguém que gosta do mar, que gosta de sentir o vento na enxárcia e se sente desconfortável quando tem a costa a sotavento.
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Era bom sentir-se bem-vindo, pensou, e não apenas tolerado. Efectivamente, era esse sentimento que sempre o pusera desconfortável. Tornava-se claro para ele que tudo tinha sido um equívoco bem desagradável. Amava-a estupidamente, pensou. Porquê? Vá lá saber-se? Alguma vez foi bem-vindo? Alguma vez seria bem-vindo?
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Que é que este agora quer? Ouvira uma vez na fracção de segundo que antecedeu o telefonema por atender. A mensagem era clara como a água na baía de Karavostasi. Só não entende quem não quer! Fizera loucuras por ela, sofrera e chorara como um cão louco na ausência do dono. O amor tornara-se doença. Doença, porque não era retribuído. O amor nunca pode ser unilateral, pensou, senão apodrece e transforma-se em algo doente.
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Não quero mais amar-te, porque sei que não sou bem-vindo, ouviu no seu interior. Se o fosse, a vida sorriria mais, a nostalgia que vem com a solidão não faria sentido e a própria solidão deixaria de ser. Sentia amargura por ter sido tão estúpido e ingénuo. Provavelmente para ela, ele tinha sido mais um, mais uma experiência que não tinha resultado, ou mais uma desilusão que o ser perfeito que ela pensava que era, tivera no decurso da sua vida iniciática em direcção ao ser sublime. Era isso, tinha falhado na encarnação do ser perfeito, concluiu com alguma ironia.
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Era bom sentir-se bem-vindo, pensou, e não apenas tolerado. Mais uma vez leu a linha que luzia na página trezentos e cinquenta e um, oitava linha a contar de cima e fechou o livro. Sentia-se como se tivesse lido todos os livros escritos e por escrever. Lembrou-se novamente de Borges e da Biblioteca de Babel. Sempre Borges e o duplo. Sempre a comunhão com o absurdo da existência. Recordou uma vez mais aquele amor que se tornava cada vez mais distante e num último beijo dizia-lhe, Quando sentires que sou bem-vindo, e não apenas tolerado, chama-me no comprimento de onda do amor que tudo purifica. Chama-me e nesse preciso instante verás que estou a teu lado. Serás sempre bem vinda!
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Filho da mãe do Arturo Pérez-Reverte, tinha que lhe escrever a agradecer a linha que tinha escrito para ele. Não se conheciam, mas ele sabia que aquela linha era para ele, só podia.
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8.5.08

O DEMÓNIO DE DAGUERRE - (Reprise)

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O fim de tarde era nosso, e a luz que entrava pela janela do estúdio também nos pertencia. Lá fora a tempestade, cá dentro a música cálida de quente do quarteto de jazz de Sophie Milman. A preguiça do desejo, é algo que me excita devagarinho. Quero-te, mas não é já. Quero-te daqui a pouco, quando a preguiça se transforma em lascívia e o olhar transpira carícias antecipadas.
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Preparas a máquina e os rolos com uma precisão quase demente. O teu fotómetro mede a luz ambiente, perscrutando as penumbras e as zonas de luz como se fosse uma sonda espacial à procura de vida num planeta estranho. A tempestade aproxima-se e a Sophie canta, I feel pretty / Oh so pretty / I feel pretty and witty and gay...Olhas para mim no olhar hesitante do desejo adiado. Vence o demónio de Daguerre. Sorris para mim e dizes para me descontrair.

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Alargo a preguiça e começo a desnudar-me. Sabe-me bem sentir os seios na nudez repentina. Começo a ficar molhada de antecipação. Sabes que fotografar-me é como fazer amor comigo. Cada click uma penetração, suave por vezes, bem funda por outras. I feel charming/Oh so charming/It's alarming how charming I feel/And so pretty/That I hardly can believe I'm real., continua a voz que dança na luz difusa que ainda ilumina o estúdio. Um relâmpago, antecipando o trovão ainda longe, acende o tecto como se estivesses a usar o flash. Não evito um arrepio. Não é do frio, deve ser da electricidade suspensa no ar cada vez mais húmido do dia que finda. Parece que o dia chora por se ir embora.
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Mudas o rolo para um mais sensível. Sei que queres apanhar a luz e sombra da tempestade que substitui o teu flash. Cantas em uníssono, Such a pretty face / Such a pretty dress / Such a pretty smile / Such a pretty me! E disparas o obturador no preciso momento em que o relâmpago me inunda de luz, no ribombar do trovão em simultâneo.
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Sinto os mamilos a ficarem rijos, a nuca na tontura inversa e o meu sexo quase orgásmico a diluir-se no escuro que me começa a envolver. Deixo de te ver e por fim deixo de me sentir. Apenas te ouço, bem longe, muito longe. E sei que me procuras...

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Começo por rejeitar a ideia de estar dentro da Nikon F2S, impressa no rolo de 35mm como mais uma imagem capturada ao meu ser real. O negro é total, mas sinto o movimento e os sons no exterior. E acabo por aceitar a irrealidade da situação. Sou uma mera impressão na prata que reveste a película perfurada. Lembro-me de em tempos te ter pedido para me revelares o desejo, e tento chorar, mas não consigo. As imagens não choram.

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Sinto-me enrolar em mim, como um feto, para de seguida me mergulhares num líquido morno e viscoso. Na minha realidade complanar, começo a sentir a transformação química que me aproxima do teu mundo. Sinto a luz no momento em que mergulho no turbilhão da água corrente. É quase um nascimento, não consigo gritar mas entendo a tua excitação bem próxima de mim.

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A luz branca queima-me o corpo em negativo, e percebo que me projectas para o papel sensível colado na parede. Ajustas o foco e o meu corpo de luz oscila no foco. Lembro-me daquele filme do Woody Allen em que um dos personagens aparece sempre “out of focus” e peço-te, imploro-te até, para que me não desfoques. Eu sei que não serve de nada, mas peço-te na mesma.

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Finalmente a minha imagem é projectada através dos filtros de cor e impressiono o papel na parede. Volto a ser uma imagem virtual, uma promessa de ser, e novamente espero que me reveles. Aproximas-te com uma esponja e começas a revelar-me por fim. Primeiro a cabeça, depois, demoras-te um pouco nostalgicamente nos seios e por fim o resto do meu corpo arrancado ao fim do dia quase perfeito. A imagem acabou de se formar mas ainda continua presa ao papel. Grito-te no desespero para me tornares real. A tua mão começa por me acariciar os seios planos, continua desenhando o contorno do meu corpo, pára por instantes no sexo e volta aos seios. Colas-te a mim na saudade, e por fim beijas-me os lábios salgados da revelação. E tornas-me real no relâmpago inverso da paixão de nós. Agora posso chorar de novo!
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(texto editado no Excitações - Primeiro Set)
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29.4.08

MAR DE NUVENS

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Todas as manhãs a rotina era a primeira a levantar-se e a tomar o pequeno-almoço. Já confortada decidia-se a iniciar o dia. Às vezes ainda pensava iniciá-lo de maneira diferente, mas depois decidia proceder da maneira igual ao dia anterior, ou não fosse ela a rotina.

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Assim, começou por acordar a mãe bem cedo, ainda antes dos outros. Depois foi acordar o pai com o barulho da água a correr para o duche, e por fim lembrou a mãe de chamar o filho, primeiro suavemente, depois mais energicamente, e por último destapando-o com a lengalenga do costume, O teu pai já está vestido e se queres boleia para o liceu, levanta-te já. Enquanto a rotina tomava o segundo pequeno-almoço na companhia do pai, este preparava-se para sair, ao mesmo tempo que voltava a cabeça para o corredor e dizia em voz alta, Vou sair daqui a cinco minutos, se queres boleia, despacha-te.

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Tinha acabado de se vestir, quando ouviu a porta da entrada bater com força. Alguém tinha que arranjar aquela fechadura, pensou, enquanto ouvia o som familiar do motor da carrinha Opel, a começar a trabalhar. Ia a sair quando reparou que estava descalço. Voltou atrás, ao mesmo tempo que o som familiar da carrinha, se afastava em direcção à calçada. Resignado, deu um beijo à mãe, apanhou o velho bornal de lona da tropa com os livros e cadernos, juntamente com o chapéu de abas largas que tinha a mania de usar, e saiu a correr em direcção ao Largo da Boa – Hora para apanhar um eléctrico. A linha de eléctrico e o caminho para o liceu eram os mesmos, por isso não perdia tempo em ir por ali.

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Teve sorte e ainda foi a tempo de saltar para a traseira dum, agarrando-se à grade do lado exterior. O eléctrico ia cheio e assim era uma maneira de o apanhar. Os tempos de andar na pendura já lá iam, mas por vezes justificava-se, como naquele dia. Nem tinha que se esconder, o eléctrico ia tão cheio que o revisor nem se conseguia mexer lá dentro, quanto mais aproximar-se da porta. Olhou para o relógio e chegou à conclusão que talvez chegasse dentro da tolerância dos cinco minutos, senão estava feito, era mais uma falta a juntar a algumas que já tinha.

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Ia a chegar ao Largo do Rio Seco, quando viu de relance um carro com riscas azuis. A bófia, deixou escapar no sobressalto, enquanto saltava instintivamente do eléctrico em andamento. Não reparou no VW carocha, que entretanto decidira ultrapassar o eléctrico, e sem saber bem o que lhe estava a acontecer, começou por ouvir um som abafado mesmo por baixo dele, a janela do eléctrico passou-lhe de repente no canto da visão, enquanto o azul do céu tendia para a casa em ruínas que lhe estava à esquerda, e a sua própria sombra aproximava-se rapidamente de si. Caiu com a rapidez com que se levantou. Todos olhavam para ele, estáticos, como se estivessem congelados e ele fosse o único animado de vida. A bófia, lembrou-se, e desatou a correr em direcção ao túnel do Rio Seco, no instante em que o condutor do carocha saía do carro, ainda sem perceber bem o que se tinha passado.

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Saiu do túnel quando viu o carro com riscas azuis a subir a calçada, e sentiu uma dor alaranjada na anca esquerda. Doía-lhe o corpo mas não tinha nada partido, aparentemente. E agora?, o melhor é entrar no Liceu pela porta do lado sul, é mais longe mas evito ir pela calçada, pensou enquanto se punha a caminho, coxeando ligeiramente. Começou a conferir se não tinha perdido nada, mas estava lá tudo. Quando tinha ido pelo ar agarrou bem o bornal e o chapéu. Também não tinha mais nada para me agarrar, pensou a sorrir enquanto apertava o passo pela Travessa do Giestal acima.

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Entrou sozinho pelo portão Sul, um enorme portão de ferro, desproporcionado em relação à quantidade de pessoas que por ele entravam diariamente. Igualmente fora de escala, era a escadaria que dava directamente para a entrada nobre do liceu. Era como, se a mesma, tivesse sido projectada para acolher um visitante ilustre vindo do rio, Talvez o D. Sebastião, ironizou.

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Não entrou pela secretaria, já tinha passado o tempo dos cinco minutos de tolerância e não queria encontrar nenhum dos porteiros Pides que por ali já deviam andar. Contornou pela direita o edifício, e dirigiu-se ao recreio fechado. Lembrou-se de quando era um miúdo e lá tinha entrado pela primeira vez, naquela altura não tinha portas de madeira e vidro. Era um espaço aberto e frio, só confortável no verão. Já tinham passado alguns anos, suspirou na memória recente. Entrou e pareceu-lhe totalmente vazio. Passeou o olhar distraidamente, e reparou no halo de luz ténue que emanava do vulto sentado ao canto do pátio.

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Curioso, dirigiu-se para lá. Parou quando ela levantou a cabeça e olhou para ele com um sorriso, continuando de seguida a escrevinhar no caderno aberto na mesa enorme. Quando ela sorrira, a luz tinha aumentado. Piscou os olhos como se estivesse encandeado e quisesse ver melhor. Provavelmente uma nuvem que descobriu o sol, pensou. No entanto continuava parado no mesmo sítio, sentindo-se um pouco ridículo. Só lá estavam os dois, ela escrevia e ele fazia figura de parvo. A anca começou a doer-lhe de novo, era uma dor latejante, agora a tender para o roxo. O roxo lembrou-lhe o manto do Senhor dos Passos, uma das figuras que saíam para a rua nas procissões da Igreja. O tempo tinha-se fundido com o espaço, e tudo se passava a um ritmo bem lento. Ela continuava a escrever sem lhe dar muita atenção e ele já estava no ponto em que ouvia distintamente todos os ruídos que o envolviam. Antes de começar a ter pena de si próprio avançou em direcção àquela luz que o intrigava e ouviu-se a dizer, Olá, que estás a fazer? respondendo mentalmente para si próprio, A escrever que está um estúpido a perguntar-me o que estou a fazer.

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Ela voltou a sorrir e disse-lhe que, Estou a acabar um poema sobre o mar cheio de nuvens, queres ouvir? Quando acabou, e lhe perguntou se tinha gostado, ele demorou um pouco a responder que sim. Demorou o tempo necessário para descer das nuvens e mergulhar no mar da razão, para fazer sinal com a cabeça, e dizer uns sons meio desconexos. Reparou também que a dor na anca tinha desaparecido. Sentindo-se bastante confortável arriscou um, Sabes, eu às vezes também faço uns poemas, só que nunca os mostrei a ninguém. Nem aos teus amigos? perguntou-lhe ela no sorriso cada vez mais luminoso. Os meus amigos não gostam de poesia, acham que é uma coisa feminina. São uns toscos, desabafou. E tens aí alguma para se ver? Não tenho, mas posso trazer-te amanhã. Tá bem! Passamos a encontrarmo-nos aqui neste lugar e trocamos poemas. Que achas? Ficou com o sim entalado na garganta, enquanto ela se despedia com um até amanhã.

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Nem tinha reparado que já tinha tocado para a segunda aula da manhã. Subiu as escadas a correr, e ainda entrou a tempo da aula de Organização Política com o Jaiminho.

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. (para ti, meu querido B, uma estória do tempo da outra senhora.)

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17.4.08

CAMINHOS CAMINHADOS

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Tinha o hábito de passear por ali. Começou por um acaso e por qualquer razão desconhecida passava sempre por ali. Começava longe, sem rumo definido e sem pensar. Ia vagueando por caminhos e veredas, por estradas e atalhos, e sem se aperceber, acabava sempre a passar por ali.
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As estações mudavam, a palete de cores da paisagem mudava, a temperatura mudava e com ela as vestes que levava para os passeios. Lembrava-se daquela vez que apanhara uma chuvada imensa, daquelas que já não nos importamos que esteja a chover ou a fazer frio, daquelas em que nos deixamos de sentir. Lembrava-se, porque tinha começado a chover quando ali chegara. Porque é que aquele lugar era tão especial? Seria do mar? Ao longo dos passeios passava por sítios que eram muito mais potentes e cativantes. O resto do percurso teria alguma coisa de especial? Até era um pouco desinteressante, banal e saloio. Por aí também não ia lá, pensou. Chegou a fazer pesquisa na Net e em alguns livros sobre aquele sítio. Aparte uma ou outra curiosidade histórica, uma ou outra adega famosa em tempos de vinhos que já se beberam, não havia mais nada de interessante. No entanto continuava incessantemente a ser atraído para ali. Desistiu de lutar e abandonou-se ao sei lá.
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Uma manhã, daquelas de partir pedras com o frio que fazia, saiu como de costume bem cedo e decidiu ir na direcção oposta ao percurso usual. Sentiu uma espécie de libertação e começou a ficar ligeiramente eufórico. Subiu a serra e enveredou por caminhos nunca antes trilhados. Entrou no nevoeiro e perdeu-se, saboreando aquele limbo silencioso e húmido. Vagueou em silêncio, perscrutando sons e sombras do inconsciente sonhador. Pelo carreiro a ficar cada vez mais pedregoso, percebeu que se estava a aproximar dum local habitado. O carreiro fez-se rua, a rua levou-o à estrada e a estrada desembocou no atalho. Reconheceu a casa, olhou bem para se certificar que não era engano, causado pela pouca visibilidade, e chegou à conclusão, um pouco incrédula, que estava de novo ali.
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Foi então que a viu sair de casa, difusa e etérea como um anjo. Flutuava na névoa que tudo envolvia e brilhava como uma gota de orvalho. Percebeu o que o atraía àquele lugar, o que o levara vezes sem conta até ali. O seu olhar cruzou-se fugazmente com o dela e sentiu uma queimadura na parte de trás do crânio. Não teve tempo para fazer mais nada, só o instante para se desviar do carro, que saiu apressado pelo portão da casa em direcção à estrada. Ainda sentiu, ou pensou sentir, um leve perfume a esbater-se no ar enevoado. E ficou ali, parado no tempo e no espaço, ali onde sempre quisera estar.
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Continuou a dar os seus passeios e continuou a passar sempre por ali. A diferença residia no facto de agora deixar sempre na caixa do correio da casa uma flor, ou um pequeno ramo de flores que apanhava no caminho. Nunca mais a tinha visto mas deixava sempre uma flor. Por vezes imaginava que era surpreendido a colocar a flor ou o ramo de flores na caixa do correio e corava. Se tal acontecesse, não saberia como reagir.
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Um dia, um amigo que por vezes passeava com ele, perguntou-lhe porque é que punha sempre uma flor ou um ramo de flores naquela caixa do correio, e ele respondeu-lhe simplesmente, É porque sim! O amigo nunca mais lhe perguntou sobre aquilo. Sempre que passavam por ali, e era quase sempre, o amigo já nem olhava. Era como se fosse um ritual.
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Até que um dia, passados alguns anos, passeavam como sempre pela serra e não passaram por ali. Continuaram no trilho sem desvios e com passo decidido, e ele não se desviou do caminho nem cumpriu o ritual do costume, pôr uma flor na caixa do correio. Seguiu decidido a caminho do cabo sem olhar uma única vez para trás. O amigo começou a ficar intrigado, olhava para ele a tentar descortinar o que se passava, mas ele não dava hipóteses, seguia em frente com passo decidido e vigoroso. O amigo não aguentou mais, agarrou-lhe o braço para o forçar a encará-lo de frente, e perguntou, Porque é que não passas mais ali, nem pões a flor ou o ramo de flores que costumas pôr na caixa do correio? Ele olhou para o amigo, depois olhou longe em direcção ao cabo e respondeu, É porque sim!
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11.4.08

A CHUVA MELANCÓLICA

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Garrett imaginou apanhá-la, reproduzindo versos do tal Pessoa, mas a rapariga foi abraçada, lambida e beijada mil vezes pela gente teimosa como gotas de água em direcção aos cafés, concerteza cheios de batatas a fritar em óleo.
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Não era mau, andar ausente no meio da rua com seu livro. Estava preocupada por ser chapéu de chuva, e só lhe restou continuar devido à chuva ser fria.
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Deixou-se encharcar, sem nenhum som, ou, talvez com todos, como os que rebentavam ao mesmo tempo o chão empedrado e ampliado da Baixa.
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Desconstrução caótica do Texto “Rapariga Melancólica em direcção à Baixa”, editado por Abssinto em 09-04-08 (As mesmas palavras numa composição diferente)
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8.4.08

ALL THAT JAZZ

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A sala contorcia-se nos tons de vermelho e preto, como que procurando o foco de luz branca que lhe daria a razão de ser. Ainda faltavam alguns minutos para o show must go on, e talvez por isso se sentisse um certo nervosismo no ar, ou seria a mistura dos cheiros perfumados de sábado à noite a fumarem o cigarro proibido? Fosse como fosse, escolhemos uma mesa bem em cima do palco, salpicado pelas eternas bolinhas de luz branca, na sua incansável orbita circular.
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Um empregado de mesa saído de tempos já idos, serviu as bebidas de circunstância e recostámo-nos na espera. O antigo cabaret, rejuvenescido nas memórias de glórias antigas, ainda ostenta aquele ar decadente chic, tão acarinhado nos tempos que correm. Já não aparecem por lá reis de Espanha, ombreando com Baptistas Bastos ébrios de boémia parquemaérista, nem os novos-ricos nos seus fatos deslumbrados no champanhe do alterne. São outros tempos, modernos e Catitas, abrilhantados pelos artistas do ano dois mil. Até apetece dizer Ena Pá.
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Olhei-te nos olhos, e estavas ausente. Flutuavas na expectativa do espectáculo surpresa, talvez pensando que estarias melhor umas portas mais acima. Acariciaste-me as coxas no gesto furtivo e espalhaste o teu sorriso na minha nudez interior. Os encarnados e pretos desapareceram no frémito clandestino.
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A decadência de uma miss com cabelos no peito rapado, fez-me relembrar o glamour das dragqueens wharolianas. Volta Candy Darling, eu perdoo-te tudo, mas por favor, espalha o teu glamour desaparecido. Era pena o glamour não se vender em frasquinhos, como o perfume. Estava a ser mazinha, pensei cá para comigo. No fundo, era um artista português. Support your local artist, pensei, ou seria dealler?
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A tua mão é que continuava dançando o tango proibido, e no entanto querido. Do tango passou ao foxtrot, e tive que fugir de ti quando o artista de musicall me olhou nos olhos, seria que me via?, e começou a cantar o êxito passado, reconhecido por mim e ignorado totalmente por ti. Todos na sala cantavam o refrão, menos tu e um ou dois envergonhados. Não cantavas porque não sabias. Era a primeira vez que o ouvias e sorrias para mim. Estavas-te nas tintas para o artista de musicall, para a canção do mistergay, e para o Maxime. Senti-me bem especial naquele momento.
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Quando voltámos a casa, enquanto me despia na penumbra, tu remexias febrilmente no armário dos Cds. Emergiste triunfante com um Cd na mão. Quando o puseste a tocar, compreendi de imediato o que me querias dizer.
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Temo-nos a nós no desejo imenso. O resto, o que sobra do nosso olhar sôfrego e terno, não é mais do que, All That Jazz.
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28.3.08

OS TIGRES DE BORGES

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Havia já alguns dias que não se sentia lá muito bem. Vistas bem as coisas, não eram dias, talvez semanas ou meses, ou mesmo anos, não sabia bem. Era uma daquelas coisas que vinha de mansinho, sem aviso nem reparo, e que aos poucos e poucos ia mudando o seu dia à dia, sem que disso se apercebesse. Mas que não se sentia lá muito bem era um facto! O porquê já era outra coisa, pensava, sem saber por onde começar.
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Estaria diferente? Com certeza que estava, mas isso não era motivo para se sentir mal, antes pelo contrário! Sempre se sentira bem com as mudanças, achava que elas traziam sempre uma lufada de ar fresco ao seu quotidiano. Sempre fora assim. Mesmo quando as mudanças eram radicais, ao fim de pouco tempo começava a ler a nova direcção da corrente do rio, deixava-se levar e começava a navegar nas novas águas com entusiasmo redobrado. Estava diferente, mas isso era um facto normal nela, sempre em mudança como as águas dum rio, gostava de pensar. Só que desta vez estava diferente, mas não se sentia lá muito bem. Desta vez o ditado Pós Moderno que gostava de citar assentava-lhe que nem uma luva, Jesus Cristo morreu, Karl Marx morreu, e eu própria não me sinto lá muito bem!
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Começou por fazer uma busca meticulosa por todos os aspectos da sua vida, numa tentativa de perceber o que é que estava a provocar aquele mal-estar generalizado. Tremeu um pouco ao pensar que estava a agir como se fosse um daqueles gurus new age que desprezava, a aplicar um chavão, um lugar comum, para resolver a náusea em que estava o seu caminhar desperto. Pensou também que não tinha alternativa, se não eram os gurus new age, eram os gurus old age, andavam todos aos papéis, a limpar a sala e a despejar os cinzeiros. Ás vezes acertavam, outras vezes não, e o mexilhão que se lixasse, relembrou no velho ditado que dizia, Quando a água bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão!
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Decidiu meter ombros à tarefa e descobrir o que a fazia sentir-se não lá muito bem no seu dia a dia, no seu semana a semana, ou até quem sabe, no seu ano a ano. Decidida estava, e decidida começou a vasculhar a espiral de acontecimentos que a envolvia numa teia quase infinita de causa acção efeito causa. Como seria óbvio, recusou qualquer abordagem esotérica, tipo karma, o príncipe da causa efeito. Se fosse por aí, tudo poderia fazer sentido, era só uma questão de querer para que sim! Qualquer argumento de filme faz sentido, basta nós o querermos, pensava. Por aí não iria, definitivamente. Alem disso, tinha vários amigos que tinham enlouquecido ao irem por aí. E ela não queria que lhe acontecesse o mesmo.
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Tu és a actriz principal do filme que é a tua vida, veio-lhe à memória. Mais um chavão era do aquário, mas que lhe fazia algum sentido. Pois é, der por onde der sou sempre eu a boa ou a má da fita, Tudo gira à minha volta porque a minha atenção está cá dentro. Eu sou? Bom, se penso que sou, serei qualquer coisa, pelo menos sou eu, embora me continue a não sentir lá muito bem. E os tigres do Borges? Onde é que eles entram na minha história? Apareceram porquê? Eu não os chamei, pensou. Se calhar é melhor perguntar ao Cesariny esta cena dos tigres, ele é capaz de saber. O único problema é que eu não conheço o Cesariny, quanto mais fazer-lhe uma pergunta sobre os tigres do Borges. Isto complica-se e desvia-se do objectivo principal, que é descobrir a causa do efeito da acção que leva a que não me sinta lá muito bem, pensou no suspiro longo.
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Afastou o Borges e o Cesariny, personagens contraditórios entre si, e centrou a sua atenção no autor mais importante naquela altura, ela própria. Onde é que não me sinto lá muito bem? Quando é que não me sinto lá muito bem? Perguntas incómodas e cuja resposta ela já sabia, Em qualquer lugar, sempre. Reflectiu na conclusão e chegou a outra, conclusão. Se estou mal em qualquer lugar, sempre! Então é porque me falta algo para me sentir bem, sempre. Porra, já sabia que não resolvia isto à primeira, pensou para consigo. Agora falta-me qualquer coisa para aturar todo este circo que me rodeia. Estão todos passados da cabeça e eu é que me sinto mal. Se calhar é mesmo uma boa ideia falar ao Cesariny, pensou. Começo por lhe falar dos tigres do Borges e depois quando ele não estiver à espera, faço a pergunta chave. Ainda não sei qual é, mas logo se verá.
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O Cesariny quando a ouviu falar dos tigres do Borges, elevou um pouco a voz e respondeu, Já dei para esse peditório! E desligou. Pareceu-lhe ainda ouvir atrás do click um murmúrio a dizer, Que falta de pachorra. Ficou com o telefone na mão tempos sem fim antes de desligar. Tinha-se apercebido naquele momento da solução para o seu problema, da solução para o facto de não se sentir lá muito bem. Sabia que tinha perdido qualquer coisa. Tinha perdido alguma coisa que a fazia normalmente sentir bem. Soube naquele instante o que era. Soube naquele instante que tinha perdido a paciência.
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21.3.08

ONDAS DE PROBABILIDADE

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Custou-me a abrir os olhos e sair do sono profundo em que me encontrava. Como sempre, acordei sem saber quem era ou onde me encontrava. A minha consciência ainda dormia e o meu corpo amarrotado arrastava-se para o duche redentor. Abri a porta do roupeiro e embrenhei-me nos vestidos pendurados. Não era aquela porta, logo só podia ser a outra, a que estava na parede oposta. Não achei estranha a troca. Aliás, naquela altura bem me podia aparecer o Humpty Dumpty, que eu não estranharia.
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Estranhei foi a banheira de grés cinzento-escuro. Não me lembrava da banheira ser daquela cor. Banheira era branca, ponto final. Mas lá que aquela era cinzento-escuro, não o podia negar. E os azulejos também me fizeram franzir a testa. Azulejos de vidro vermelho? Decidi acordar no duche a tender para o frio. Não me serviu de muito. Bastou chegar ao quarto para ficar a pensar onde é que estaria? Aquele não era de certeza o meu quarto. Ou seria o meu quarto, e eu é que seria outra? Confesso que estremeci com o pensamento. Até porque não me apetecia ser outra.
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Não me apetecia, mas tive que ser, à força. A roupa que tinha no roupeiro, era composta por vestidos e tailleurs de marca, daqueles que nunca tive a coragem de comprar. No entanto, vesti um conjunto de saia casaco preto e blusa magenta, com uma naturalidade que me surpreendeu. Não há dúvida que nos habituamos logo ao que é bom, pensei cá para comigo. Mas o desconforto continuava, assim como não saber onde me encontrava. E o desconforto aumentou, quando desci as escadas e entrei na sala vazia. Olhei em pormenor, procurando algo revelador, uma pista, qualquer coisa. E numa das prateleiras da estante de livros, brilhava uma moldura. Quase a medo peguei nela e para meu espanto, lá estava eu, sorridente e abraçada a alguém não totalmente desconhecido. A dedicatória dizia apenas, Para o meu amor, e assinava Jaime. Jaime? Quem era o raio do Jaime, pensei cada vez mais baralhada. Tinha conhecido um Jaime quando andara nas Bela Artes em Pintura, mas ele tinha seguido para Arquitectura e nunca mais o vira. Olhei melhor para a foto, e não achei graça nenhuma ao pensamento de que aquele tipo até podia ser ele. E a estranheza total continuou, até conseguir sair de casa com o pequeno-almoço tomado.
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Na mesinha ao pé da porta, estava a minha mala e as chaves do carro. Escusado será dizer que não era a minha mala e não eram as chaves do meu carro. Mas naquela altura, já dava como dado adquirido que, de facto, aquela era a minha mala, e aquelas eram as minhas chaves do carro. E fiquei paralisada junto à porta. Para aonde é que eu ia? E onde estava o meu carro? Seria que o local onde trabalhava ainda estava lá? Na dúvida, passou-me uma ideia pela cabeça, e procurei febrilmente o telemóvel na mala. De certeza que tinha um telemóvel. E lá estava ele. Um Nokia vermelho e cinzento, como a casa de banho. Era uma mulher muito moderna sem dúvida. Liguei o telemóvel e procurei o nome de Jaime. Lá estava, mais o número e e-mail. Fiz a ligação e foi com o máximo das naturalidades que respondi ao, Olá meu Amor, estou à tua espera para a reunião de coordenação, com um, Desculpa lá, mas o meu carro não arranca. Não me podes vir buscar?
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Abriu-me a porta do carro com um sorriso e um beijo apaixonado. Estás com um olhar diferente, comentou enquanto arrancava. Eu bem te disse ontem que aquela erva era bem potente. Parece que ainda estás pedrada. Não respondi e encolhi-me no assento como se fosse um passarinho sem ninho. O beijo soube-me bem, mas não era o beijo que conhecia. Fiquei curiosa e perguntei-lhe, Lembras-te há quanto tempo é que estamos juntos? Olhou para mim surpreso e respondeu um pouco atabalhoadamente, Que raio de pergunta, lá estás tu com a mania das datas. Que eu me lembre, desde que acabámos o curso de Arquitectura. A ideia de formar o atelier foi tua. Portanto deve ser à volta duns dez ou onze anos. Acertei? perguntou no sorriso a pedir confirmação. Fiquei para morrer, mas lá consegui fazer um sorriso de aprovação para o sossegar. Dez anos? O que me estava a acontecer? Tinha um estúdio de pintura, onde dava aulas particulares, e um emprego numa agência de publicidade, como ilustradora. Vivia com um dos fotógrafos da agência há alguns anos e tinha uma filha dele. Mas onde estava tudo isso? Apetecia-me chorar.
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O resto da manhã no atelier, foi do mais surreal que poderia ter imaginado. Participei em três reuniões sobre obras em curso, onde me pediam opiniões sobre materiais a substituir, cores a alterar e soluções para erros na construção. Para meu espanto, como que entrei em piloto automático e solucionei tudo com uma certeza que não deixava dúvidas. O Jaime olhava para mim com um misto de espanto e aprovação, do tipo, vai-te a eles com força. Quando as reuniões acabaram e ficámos sós, abraçou-me com força, e sussurrou-me ao ouvido, Dá-me tesão quando os desancas assim, sem piedade. Senti-o a caminhar para o ponto sem retorno e deixei-me conduzir no prazer exausto. E uma ideia surgiu no limbo das emoções líquidas.
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Quando esperava pelo início da primeira reunião, tinha visto no jornal o anúncio de uma conferência do Professor Michio Kaku, sobre Mundos Paralelos, Mecânica Quântica e Teoria M. Na altura tinha feito apenas uma leitura bem superficial, mas o bastante para me ficar na memória. Se alguma coisa estranha se passava comigo, e eu maluca não estava, ele seria a pessoa indicada para me dar um palpite. A conferência, dizia o jornal, era da parte da tarde. Saí a correr, com uma desculpa esfarrapada ao Jaime, e apanhei um táxi para a Faculdade de Ciências. A cidade, tal como eu a conhecia, estava na mesma. Parecia que só eu é que estava diferente. Onde é que eu já tinha ouvido isto?
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No rescaldo da conferência, estávamos todos, e digo todos, num estado quase Zen de ausência de pensamento. As ideias expostas desafiavam de tal maneira o senso comum, que ficava uma espécie de êxtase, onde se compreendia tudo, mas depois não se conseguia explicar nada por palavras. Mesmo assim consegui chegar à fala com o Professor, e na breve troca de impressões, ficou-me na memória o postulado de Bohr e Heisenberg, que diz que “Para resolver a discrepância entre Ondas de Probabilidade e a nossa noção do senso comum de existência, depois de ser feita uma medição por um observador exterior, a função de onda “colapsa” magicamente e o electrão cai num estado definido.” Por outras palavras, explicou-me gentilmente o professor, Antes de se fazer uma observação, um objecto existe simultaneamente em todos os estados possíveis. Para determinar em que estado está o objecto, temos que fazer uma observação, o que faz “colapsar” a função de onda e o objecto transita para um estado definido. O acto de observação destrói a função de onda e o objecto assume agora uma realidade definida. Escusado será dizer que me sentia como se fosse o electrão a surfar nas ondas de probabilidade. Algo tinha acontecido, e eu existia num estado indefinido e precisava de alguém para me fixar num estado definido e estável. Saí dali e entrei no café em frente para beber um chá e pensar calmamente como iria pôr a minha ideia, a minha teoria, em prática.
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Enquanto o chá não vinha, procurei no telemóvel o nome do meu companheiro de sempre, como eu o lembrava. Não se chamava Jaime, mas sim Júlio. Não era arquitecto, mas sim fotógrafo. Como já esperava, não constava nenhum Júlio. Pedi a lista Telefónica e fiz uma busca pelas agências de publicidade e pelos estúdios de moda. Como sempre acontece, no último telefonema que fiz, pareceu-me reconhecer a voz dele, um pouco rouca e com uma ligeira gaguez lá atrás. Disse que era uma ilustradora que precisava de umas fotos de nus para servir de base para umas ilustrações, e gostava de marcar uma sessão. Como já calculava, disse que sim. Não conheço nenhum fotógrafo que diga que não a uma sessão de nu. Perguntou-me quando poderia ser. Respondi que tinha pressa, e se ainda podia ser naquela tarde. Quase que rezei para que ele dissesse que sim. A perspectiva de voltar para a casa desconhecida punha-me bastante angustiada. Ok, disse por fim, Apareça daqui por uma hora. Apontei a morada e chamei um táxi. Reparei na saída que o chá continuava por beber. Pensei, Este chá não pertence à minha realidade, e entrei para o táxi.
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Cheguei ao estúdio antes da hora marcada, e resolvi entrar no prédio e esperar no átrio de entrada. O estúdio era numa das lojas do rés-do-chão, e a entrada era pelo átrio. Um sofá vermelho, bem coçado, estava ao lado da porta. Reconheci o “nosso” sofá velhinho. Tantas vezes que o quis deitar fora, mas ele não deixou. Dizia que dava charme e estilo. Como é que teria ido ali parar? Sentei-me e esperei.
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Quando já começava a ler páginas de um livro imaginário, a porta abriu-se. Primeiro saíram duas raparigas magríssimas, modelos sem dúvida. Depois um caixote com rodas, cheio de roupa pendurada, empurrado pelo produtor. Olhei na direcção da porta e vi a tua cabeça assomar em câmara lenta. Olhaste para mim, piscaste os olhos, uma ou duas vezes como se quisesses certificar-te que eu estava mesmo ali, sorriste e disseste-me, O que é que estás ai a fazer? Vi-me aflito com a produção da colecção da Ana Abrunhosa. Bem me podias ter dado uma ajuda! Agora vais pagá-las, e com juros!
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Quando me beijaste, e senti o teu calor, a lembrança da outra realidade diluiu-se no espraiar da onda de probabilidade. Voltava a ser a tua mulher.
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-fotomontagem sobre desenho de Ana Abrunhosa

13.3.08

VAZIO

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Sempre fora diferente dos colegas da faculdade. Enquanto eles se preocupavam com a forma e estilo dos edifícios a criar, ela preocupava-se em criar o vazio interior. Enquanto eles esboçavam o espaço construído, ela esboçava o vazio confinado pelos inúmeros planos que visualizava a pairar no espaço imaginado. Era uma abordagem espacial vista de dentro, orgânica, criando o espaço visível a partir do vazio inicial.
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Os professores olhavam-na como se fosse uma excentricidade do processo de criação artística aceite e venerado. Ela pouco se importava, e foi com um assistente curioso que teve o seu primeiro orgasmo pleno, daqueles que costumam dizer que tem fogo de artifício e multidões a agitar bandeirinhas às cores. No entanto ela não sentiu nada disso. Sentiu-se maravilhosamente suspensa num vazio intemporal, quase sem tempo.
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Acabado o curso, viajou na procura da transcendência escondida no vazio dos templos e acabou por ficar uns anos no Nepal. Tinha ficado muito pequenina no centro da cúpula do templo de Boudhanath Stupa, e resolveu ficar para perceber as linhas escondidas por detrás daquelas pedras aparentemente inertes. Acabou por praticar Yoga e embrenhar-se na meditação profunda e na prática de Pranayama. Aprendeu a ficar vazia de tudo, para que a criação acontecesse. Aprendeu a confiar na visualização da ideia criativa. Os seus cinco segundos de criatividade, como lhe costumava chamar, na brincadeira séria.
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Voltou com uma força quase destrutiva e acabou por chocar os colegas de profissão com as suas propostas. Enquanto eles alardeavam que estavam cheios de ideias para projectar, ela tinha que se sentir vazia de qualquer ideia perante o desafio do projecto. Sentia-se como se fosse a antimatéria. Não desistiu, mas cansou-se de lutar contra o starsystem. E na busca da tranquilidade e do vazio, mudou-se para Évora. Pelo menos lá o horizonte estava bem longe, limpo e vazio de casas. E tinha o Aeródromo, com os paraquedistas do Hangar número um.
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Naquele dia, tudo estava perfeito para o que queria. O tecto de nuvens estava relativamente baixo, aí pelos dez mil pés. A hora já tardia ajudava. O sol estava a caminhar para o ocaso e começava a projectar a luz poente polarizada. A grande sala vazia que era a zona de saltos, a drop zone como lhe chamava carinhosamente, estava iluminada para ela. Era o seu último salto do dia, o mais esperado. Apertou o arnês quase até doer, pediu a verificação do pára-quedas de reserva ao professor e amigo Amaral, e subiu para o Cessna que esperava por ela já com os motores a trabalhar.
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Quando chegou aos dez mil pés, mesmo a tocar o tecto de nuvens, abriu a porta do avião deixando entrar a turbulência e ruído do motor, e espreitou para baixo na vertical. O hangar era um rectângulo pequeno e longínquo, ligeiramente à sua esquerda. Fez sinal com o polegar ao piloto para corrigir a rota e ficou na borda a observar a sua posição em relação ao hangar. Quando achou que o desconto do vento estava bem, gritou um, Corta, para o piloto e saiu para a asa. Olhou-o na certeza, e assim que sentiu o leve pairar do avião saltou para o vazio.
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A sensação era quase a mesma que tivera no seu primeiro orgasmo pleno. Apenas o vento na cara a fazia estar desperta. Viu uma pequena nuvem mais baixa e mudou a posição do corpo de maneira a passar bem no meio. A mancha branca que era o hangar ia ficando ligeiramente maior, o único sinal que estava a cair e a aproximar-se dele. E foi nesse instante que algo lhe chamou a atenção no limiar da visão do lado direito.
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Percebeu o que parecia ser um disco branco a pairar um pouco mais abaixo. Esticou um pouco as pernas e rodou ligeiramente o tronco. O seu corpo acelerou na rotação e aproximou-se com velocidade da mancha branca. Não a evitou. E desapareceu num estalido de alguns milhões de electrões volt. No hangar ninguém ouviu nada. No rádio ouviram-se umas interferências. No campo, um cão ladrou. E o silêncio quase que voltou, não fosse o som do Cessna a aterrar na pista asfaltada.
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Procuraram-na a noite toda, com lanternas de mão, Jeeps com os faróis acesos nos máximos a percorrerem os terrenos envolventes ao hangar. Ao fim de uma semana desistiram. Tinham batido o terreno até Montemor e não encontraram nada. Ficou o carro, estacionado frente ao bar. Ainda lá está, à espera, e vazio.
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8.3.08

BOLINA

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O roupão branco tapa timidamente o meu corpo nu e morno. O portátil ilumina tenuemente o meu peito. Os mamilos erectos espreitam as palavras que se vão juntando na busca do texto coerente. Frases vão-se construindo nas linhas deixadas pelas ondas que rebentam na praia. As ondas são de pensamento. A praia, a folha de papel feita ecrã plano. A apetência da escrita é o desejo do meu sexo húmido no pensamento de ti. Resisto à carícia desejada e sinto a excitação alaranjada a aquecer-me as costas. Mil imagens atravessam o meu sonho lúcido do aqui e agora. Yo-Yo Ma toca a Suite número 1 para violoncelo de Bach e as borboletas adormecidas no meu ventre, acordam e espraiam-se pelo meu peito até saírem pelos mamilos curiosos. Parecem faróis a iluminar o mar com os seus fachos de luz branca intermitente. Os olhos do corpo escrito sonham-te a navegar na minha direcção. Caças as velas na bolina cerrada da Nortada que te separa de mim. Quase que sinto o teu frio. Imagino o Moitessier no calor da Longue Route e aqueço-te na lembrança da nossa paixão. Sabes que te espero, na baía abrigada do meu corpo morno.

2.3.08

CONVITE PARA JANTAR

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Saiu do banho, ainda a escorrer água e sabonete, e correu nua para a janela do quarto de vestir. Afastou levemente as cortinas, no preciso momento em que o descapotável saía da garagem fronteira. Ele olhou para cima, por detrás dos óculos escuros, e a cortina fechou-se rapidamente, meio envergonhada. Só meio envergonhada, a outra metade estava dominada pela excitação que a invadia sempre que pensava nele, o vizinho misterioso e lindo de morrer, como gostava de o adjectivar. Tá bem, É piroso, Eu sei, mas gosto de o dizer. E depois? O arroz doce com desenhos de canela, também é piroso, e no entanto o D. Carlos adorava. Não há dúvida que vocês pertencem mesmo à piolheira, desabafava com um ligeiro abanar de cabeça, e mudava de tema. Não obstante a sua atenção interior, continuar focalizada no vizinho misterioso e lindo de morrer.
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Um dia, enquanto conferia o correio, verificou com surpresa que uma das cartas estava ali por engano. Ao ler a morada e o nome, sentiu as pernas a tremer. Era uma carta endereçada ao vizinho. Leu devagar, a saborear a descoberta, Professor Alberto Ganit. A carta vinha endereçada do Massachusetts Institute of Technology , mais precisamente do Departamento de Matemática. Olhou triunfante para o subscrito e tentou vê-lo à transparência, como se tentasse ver o vizinho lá dentro. Sorriu maliciosamente, agora tinha uma desculpa para conhecer o senhor professor de matemática, menos misterioso mas cada vez mais lindo de morrer.
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Nesse dia à noite, assim que o ouviu chegar, ajeitou o vestido escolhido para a ocasião, elegante e casual como convinha, compôs o penteado e decidida, atravessou a rua e tocou à campainha. A porta abriu-se, e ela imaginou-o a percorrer os passos necessários até ao portão em que se encontrava, numa lentidão própria dos filmes românticos americanos, com o cabelo a ondular na brisa e um sorriso pepsodente, ao qual só faltava a estrelinha a brilhar ao canto dos lábios. Quando o encantamento passou, como que acordou do torpor em que se encontrava, insultando-se mentalmente no microssegundo antes de lhe estender a carta, muda e esquecida de tudo o que tinha ensaiado durante a tarde. Ele, pegou no envelope com ar curioso e depois de ler o remetente, disse-lhe numa voz igualmente linda de morrer, É da minha Universidade, Ainda bem que a encontrou, Já estava a ficar preocupado! Ela sorriu, e já normal explicou-lhe que sim, do engano costumeiro do carteiro, que podia confiar nela para este tipo de coisas e que tinha gostado muito de o conhecer. Ele agradeceu, sorriu e beijou-lhe a mão na distinção elegante. Ela corou.
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No dia seguinte, já tinha saído do banho, quando ouviu o ralenti do carro dele prestes a sair da garagem. Espreitou pela cortina da janela, como de costume, e para espanto dela, viu-o a introduzir qualquer coisa na sua caixa de correio. Voltou para o carro e saiu para a rua, olhando como de costume para cima, para a sua janela. Desta vez ela não fechou envergonhada a cortina, e deixou ver por breves momentos a sua nudez na transparência do vidro. Vestiu-se a correr, desceu as escadas a dois e três, e abriu a caixa do correio no gesto sôfrego. Tinha um cartão timbrado do MIT, com umas linhas escritas à mão, diziam apenas, Convido-a para jantar, ligue-me para TT 015131.
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A cafeteira do café deu sinal de si por um bom meio minuto. Por fim, ela saiu do torpor em que se encontrava e apagou o lume do fogão. Enquanto se servia generosamente de café, bem precisava, continuou nas cogitações à volta do convite enigmático que recebera. Estava claro que era uma charada tipo Código da Vinci ou Código da Vintes mas a sério. Não imaginava o senhor professor de matemática, ainda por cima do émaiti, a alinhar em tretas dessas. Por isso só podia ser uma charada científica. Mas porquê? Pensou. Porque é que não lhe tinha dado simplesmente o número de telefone? Seria para a pôr à prova? Com certeza que sim, queria sair com ela, mas tinha colocado uma fasquia. Por isso não devia ser muito difícil, concluiu.
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Começou por escrever o valor de Pi, três vírgula catorze, e juntou-lhe o resto dos números. Obteve um número com nove algarismos, 314015131. Os números de telefone tinham nove números, mas a começar por 31 duvidava que existisse algum. Pegou no telemóvel e ligou o número, para de seguida ouvir a voz mecânica, no timbre conhecido, a dizer-lhe que o número marcado não estava atribuído. Olhou de novo para o convite e suspirou desanimada. Considerou a hipótese de mandar às urtigas o convite, mas o desafio era aliciante, já para não falar do seu amor-próprio a querer sair triunfante.
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Tentou lembrar-se de alguém conhecido que estivesse ligado às matemáticas, mas não vislumbrou ninguém. Nesse preciso momento veio-lhe à ideia o termo Quadratura do Círculo e por associação de ideias lembrou-se da sua amiga arquitecta. Lembrava-se que a amiga fizera em tempos uma casa para um cientista ligado à física das partículas. Tinha sido um projecto algo suigeneris, desenhado à mão e não em computador. Ficou suspensa na palavra computador e deu uma palmada na testa, uma daquelas palmadas que querem dizer o mesmo do que, porque é que não me lembrei disto mais cedo. E foi buscar o portátil.
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Introduziu no motor de busca o número 015131 e ficou a saber o código do papel de parede Marguaritaville. Não custa nada tentar, pensou com um sorriso, e continuou a introduzir outros factores de busca, sem sucesso algum. Já com a cabeça em água e o portátil a precisar de recarga, decidiu ir almoçar. Precisava de sair de casa, arejar a cabeça e desligar daquela paranóia dos números. Que se lixe o jantar, que se lixe o professor, por acaso lindo de morrer, pensou ainda com um sorriso assim assim.
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Quando voltava para casa, comprou um gelado de coco e natas, e como era seu hábito foi saboreá-lo, enquanto via os livros em segunda mão nas bancadas do lado de fora da livraria. Já estava a mordiscar o cone de bolacha húmida, quando o olhar foi atraído para uma capa preta. Era o romance de Carl Sagan, Contacto. Enquanto acabava o gelado e lambia os dedos pegajosos, tentou lembrar-se de uma coisa importante que tinha lido naquele mesmo livro. Era uma daquelas lembranças prestes a emergir, sentia-a a querer sair do esquecimento. Voltou atrás e foi comprar outro gelado, desta vez laranja com limão. Quando, com prazer, lambeu a bola de gelado alaranjada, lembrou-se.
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Lembrou-se da passagem em que um cientista fizera correr um programa para verificar se na sequência infinita de dígitos do número Pi, surgia algum padrão numérico repetitivo, ou alguma sequência de números primos, que pudesse ser enviada ou recebida, como uma mensagem de uma civilização extraterrestre. Soube naquele instante que a resolução estava no próprio número, algures lá dentro. Lembrou-se dos puzzles tipo Sopa de Letras que fazia em pequena. Nunca um gelado de laranja e limão lhe soube tão bem como aquele. Quando o terminou, correu para casa, abriu de novo o portátil e introduziu apenas duas letras, P e I.
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Sabia agora que o número 015131 era apenas um referencial, o local onde estava escondido o número que queria. Procurou as sequências e descobriu a Série de Beckman, com cem mil dígitos para lá da virgula. Levou o cursor até à linha dos dígitos 015101 a 015200 e foi contando os números até chegar aos 015130. A seguir lá estava o número que queria, 967504....
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Triunfante, pegou no telemóvel e ligou o número na expectativa. Uma voz linda de morrer, respondeu-lhe.
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24.2.08

CONVERSA NO CHIADO

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O poste de iluminação pública acentuava a solidão na esquina da noite. Na rua deserta e escura, o poste de iluminação pública fazia lembrar um louva-a-deus em êxtase, emanando uma auréola de luz difusa que iluminava meio passeio e meia rua. Um som de piano rastejava pelo passeio húmido e embateu docemente no poste de iluminação pública. Este vibrou com os acordes que lhe subiam pelos tubos e começou a sonhar no preciso momento em que a lâmpada de vapor de mercúrio tremeluziu com um pequeno relâmpago púrpura.
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No sonho que será intuído por todos os postes de iluminação pública, Beethoven aflora as teclas em Fur Elise, de seguida Debussy apresenta La Mer e os oboés dançam com os violinos por entre a espuma das ondas do mar, até que por fim, Keith Jarrett em sapatos de ténis e toalha ao pescoço se esquece de si próprio, e toca em improviso total nos temas de Radiance.
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O poste de iluminação pública sonha que quer escrever um texto sobre postes de iluminação pública e está num daqueles dias de escrita não. Ao som do piano que ainda vibra em si, decide abrir uma garrafa de tinto. Também tenho direito, pensa com alguma mágoa, Cada vez há menos pessoas a falar comigo, a contarem-me as desgraças e os amores perdidos nas ruelas bairristas. Suspira um, Modernices, e serve-se generosamente.
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O cálice de tinto perfuma e entontece o ar em redor das ideias frescas de modo a serem presas fáceis da escrita. Como os peixes apanhados no anzol, as ideias também se debatem e são difíceis de agarrar, mas com jeito, o corpo de sonho do poste de iluminação pública apanha uma, e num gesto largo e preciso lança-a para a realidade virtual e a ideia materializa-se em palavras no ecrã do portátil.
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Diz que o piano do Tom Waitts esteve a beber enquanto o seu laço ao pescoço adormeceu. A carpete da sala precisa de ir ao barbeiro e o telefone resmunga por se lhe terem acabado os cigarros. Enquanto isto se passa, o piano continua a beber vinho tinto do Douro e os pratos de comida estão a tremer de frio enquanto esperam para se aquecerem no micro ondas.
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O dono da casa que é chefe de um partido político, tem a inteligência de um poste de telefone e não repara que o piano continua a beber da garrafa de Valado Tinto Reserva, já meia cheia, ou meia vazia (dependendo do observador). A criada não se encontra nem com um detector de metais e como ela odeia quem a contrata, ninguém é servido e os pratos de comida aproveitam para fugir. A torradeira parece um lutador de Sumo a atirar as torradas pelo ar, e os morangos na taça lançam divertidos bolas de chantilly uns aos outros.
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Alguém ousa dizer que a culpa disto tudo é do piano que continua a beber, enquanto o cinzeiro foge da sala com um ataque de nervos à vista do primeiro cigarro que o poste de iluminação pública acende. Os jornais começam a cortejar as revistas de fim-de-semana com editoriais sobre a crise e o rádio desliga a televisão com um grito de raiva.
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Tudo isto por causa do piano ter estado a beber, e do poste de iluminação pública estar a sonhar. A tradição já não é o que era! Os pianos e os postes de iluminação pública também não!
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17.2.08

O PROJECTO

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Sentia-me como se fosse a personagem dum conto fantástico, daquelas que figuram nas antologias dos livros de paperback. Era bom de mais para ser verdade, mas a realidade superava a fantasia imaginada ou escrita. O sentimento de estranheza inicial, há muito que se desvanecera, e agora era o tempo da normalidade extraordinária. Foi sem esforço, que me lembrei do momento em que a minha vida, começou a trilhar esta linha de tempo tão diferente.
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Olá, chamo-me Carlos Mandelbrot, sou professor de Física Teórica em Nova Iorque e gostava de construir no Algarve uma casa desenhada por si. Tinha sido assim, sem mais nem menos. Ainda perguntei se era da família, respondeu-me que, Não, o nome é uma homenagem do meu pai. Alem disso, dedico-me à Física de Partículas e não aos fractais, embora tudo esteja ligado. E como é que chegou até mim, perguntei curiosa, intuindo na altura qual ia ser a resposta. Puro acaso, fui à lista amarela, escolhi um nome ao acaso e voilá! Aceita ou não? Abandonei-me no Caos e respondi que sim.
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Começámos por jantar todas as semanas. Os primeiros foram muito formais, comigo sempre a tirar notas e a fazer perguntas. Um físico teórico, de partículas, quase sempre a falar de cordas e super cordas, buracos de verme e energia de Planck, não é propriamente a pessoa ideal para se falar de salas com lareiras, escadas e casas de banho com retretes e duches. Até me sentia bastante pequena, quase diria uma partícula, ao perguntar-lhe sobre essas coisas tão mundanamente pueris e banais.
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Continuámos com os jantares semanais, cada vez mais íntimos, até que os transferimos para o meu atelier. Tinha reservado uma pequena sala só para este projecto. Era uma sala onde cabia apenas um estirador clássico, daqueles em madeira, da defunta Olaio, mais o clássico banco alto. Tinha desenterrado a minha velha máquina de desenhar, os esquadros e escantilhões de curvas, os compassos e um conjunto seco e empedernido de canetas Rotring. Essas e as borrachas, tive que as comprar de novo assim como um rolo de película de desenho. Não foi tarefa fácil encontrá-las nestes tempos de desenho feito em computador. Mas eu queria assim. Aquele projecto precisava do meu toque, orgânico e pessoal, a evoluir dia a dia como se de um fractal se tratasse.
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A ideia surgiu-me enquanto deambulava à noite no passeio marítimo, e olhava para o céu estrelado. Imaginei cada estrela como se fosse uma partícula gerada por uma colisão, e imaginei as linhas formadas a partir dessa colisão. Era uma imagem dejávu, e fui a correr para casa e não descansei enquanto não encontrei uma fotografia feita no CERN. Era uma foto de um bóson de Higgs, criado a partir de colisões de protões. E decidi projectar a casa a partir do desenho base da trajectória das partículas resultantes da colisão. Quando transmiti ao Carlos a ideia, abrimos umas garrafas para comemorar. Acordei no dia seguinte, com uma dor de cabeça do tamanho de um acelerador de partículas.
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Na primeira visita à obra, detectei a olho nu uma série de erros na localização dos pilares estruturais. Pedi ao topógrafo para me fazer um levantamento dos mesmos enquanto tinha uma discussão quase que inglória com o empreiteiro, o Sr. Ramos. Quase a chorar, expliquei-lhe que se a casa começava assim, ia ficar tudo torto e mal feito, porque os círculos das paredes tinham os seus centros deduzidos a partir dos pilares iniciais, e se estes estavam desalinhados nada encaixava depois. Olhou para mim com olhos de não sei do que está a falar minha senhora. Voltei para Lisboa com o levantamento dos pilares. Só me vinha à cabeça a cena do filme The Fountainhead, com o Gary Cooper a explodir o arranha-céus que estava a ser mal construído.
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Nessa noite, levei o Carlos até à salinha privada onde guardava os desenhos da casa, e expliquei-lhe com a emoção ao rubro o que se estava a passar. Foi a noite em que me secou as lágrimas de raiva com beijos ternos e lânguidos. Foi a noite em que me fez sentir rainha, apesar da minha nudez. Foi a noite em que nos amámos pela primeira vez. A nossa cama foi o estirador, os nossos lençóis, as folhas com os desenhos do projecto.
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No dia seguinte, como de costume, antes de começar o dia no atelier, dedicaria uma hora ao projecto do Carlos. Entrei na salinha privada com os desenhos espalhados pelo chão, com excepção do esquisso original com a planta da casa. Ainda continuava preso ao estirador. Encontrei a folha final e coloquei-a por cima para desenhar as alterações e ver o que podia fazer. Para meu espanto, a folha estava diferente na zona que já estava em construção. Comparei com o levantamento e era igual. Fiquei perplexa, e só então notei que por cima da zona alterada do desenho, uma mancha de esperma brilhava. Como a folha era de película de poliéster, fui buscar algodão e cotonetes e limpei tudo. Ao limpar a folha do esperma, acabei por limpar os traços do desenho. Olhei de novo para a planta e decidi passar por cima o bocado do desenho original que tinha apagado. Tinha que voltar à obra e obrigar o Sr. Ramos a partir o que tinha feito mal e fazê-lo de novo, bem. Para não perder tempo, telefonei-lhe e cheguei à obra ao fim da manhã.
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Sr. Ramos, desculpe lá, mas vai ter que partir aqueles pilares e fazer de novo, ia dizendo enquanto nos dirigíamos para o local. Mas Senhora Arquitecta, os pilares estão implantados como estão no projecto, a Senhora ainda ontem me elogiou pelo facto. Olhei feita sei lá o quê para ele, pareceu-me na altura diferente, e balbuciei, Elogiei? Chegámos ao local e os pilares estavam implantados na perfeição. Tirei medidas nos eixos, triangulações e alinhamentos, e tudo estava milimétricamente exacto. Demasiado exacto, pensei na altura. Despediu-se de mim com um caloroso aperto de mão, e um Bom dia para si cara Arquitecta. Fiquei sem saber o que dizer no sorriso flácido.
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Duas semanas depois, na véspera de nova visita à obra, fui relembrar os alinhamentos e qual não foi o meu espanto ao verificar que novos pilares estavam fora do sítio. Dois estavam ligeiramente e outros dois estavam bastante. Como podia ser, na planta que tinha visto há duas semanas estava tudo certo com o esquisso original. Seria que na obra tinham executado mal, e isso por qualquer razão, tinha-se reflectido na planta final. Recusei-me a aceitar essa hipótese. Passei o dia todo a pensar no sucedido. Carlos telefonou-me a antecipar o jantar para essa noite. Tinha que estar em Nova Iorque no dia seguinte, para proferir uma conferência sobre a simultaneidade quântica de certas interacções a nível subatómico. E uma ideia bastante irracional nasceu na minha baralhada consciência.
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Jantámos no atelier, como sempre. Desta vez, presenteou-me com uma lagosta já preparada, acompanhada com Rice and Beans à moda do Belize. Para beber, insisti no politicamente incorrecto tinto Cryseia de 2003. Tinha uma caixa no atelier, oferta dum cliente, e já só restavam duas. Nessa noite acabou-se a minha reserva, e concretizei a minha ideia. Depois de fazermos amor, não me lavei, e quando cheguei a casa, recolhi todo o esperma que tinha dentro de mim e guardei-o num frasco hermético. Digamos que, para uma céptica empedernida como eu, não estava nada mal este ataque de irracionalidade.
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No dia seguinte, repeti o procedimento da última vez. Apaguei do desenho os pilares mal posicionados, com o algodão e as cotonetes embebidas de esperma, e desenhei-os de novo na posição correcta. De seguida dirigi-me à obra. O Sr. Ramos recebeu-me triunfal no seu fato azul-escuro, estilo desportivo. Bem vida, minha cara. A obra está a desenvolver-se a um ritmo bastante bom e até já arrancámos com as alvenarias. Está a dar-me muito gozo ir descobrindo o seu projecto à medida que construímos. Até parece que estou a revelar uma fotografia a três dimensões. Desculpe, como disse? Articulei com esforço. Aquele não era de certeza o Sr. Ramos do início da obra, pensei. O que eu quero dizer, é que vamos construindo naturalmente, como se a obra fosse um organismo vivo a crescer, quase que diria um...Fractal, quase que gritei no meu espanto. Isso, um fractal, completou num sorriso luminoso. Fiquei para morrer.
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Na última visita que fiz à obra, dias antes da festa da inauguração, o Engenheiro Ramos, recebeu-me com um só beijo na face, radiante no seu fato Hugo Boss cinza claro e camisa frisada rosa velho. Então, minha querida? Contente com a nossa obra? Satisfeitíssima, respondi, e não estava a ser meramente simpática. Efectivamente, nunca uma obra minha, tinha sido construída tão fielmente ao projecto como aquela. Acho que nos entendemos bastante bem, continuou. Até que podíamos fazer uma sociedade, que achas? Embora achasse o que achas, um pouco deslocado no discurso, pensei cá para comigo, Porque não?
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Deixei de aceitar encomendas de projectos, e passei, passámos, a construir os nossos projectos. Sempre muito bem construídos, e sempre com muito amor nos desenhos!
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12.2.08

O CANTO DAS GAIVOTAS

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Sempre que queria estar verdadeiramente sozinho para se perder na imensidão de si, ou então quando se sentia tão só e tudo deixava de fazer sentido, ia para a praia deserta olhar o mar a fundir-se na linha inalcançável do horizonte.
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Gostava de sentir o frio húmido a entranhar-se no corpo e a fazê-lo tremer, confundindo a dor que o inundava de mansinho, como se fosse a maré a subir na enchente.
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Gostava do silêncio que antecipava o rebentar das ondas na areia. Era um silêncio a prazo, para ser vivido intensamente, tal como a vida.
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Gostava também do barulho atordoador que fazia a onda rainha de cada set, a espraiar-se até à muralha que separava a praia do passeio marítimo.
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Depois, e só depois, conseguia ouvir o canto das gaivotas. Não os gritos lancinantes que costumamos ouvir, mas o som encantatório das sereias a chamar os amantes perdidos.
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E por momentos fundia-se naquele som a tentar vislumbrar a sereia que o chamava de tão longe. Quase que a conseguia ver. Quase que a conseguia sentir.
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E ficava à espera de nova onda rainha, confundindo-se com a dor silenciosa que o envolvia. Ficava à espera de poder ouvir de novo o canto das gaivotas e ser transportado para aquele nevoeiro de sons que o chamavam.
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Os anos passaram e deixou de ir para a praia deserta olhar o mar a fundir-se na linha inalcançável do horizonte. Não queria ouvir de novo o Canto das Gaivotas. Não queria sentir de novo a dor que o inundava de mansinho, como se fosse a maré na enchente. A última vez que o viram, velejava com todo o pano içado, rasgando as ondas na direcção da mancha escura que tornava indistinta a linha que separa o mar do céu.
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6.2.08

A OUTRA

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The face in the mirror won’t stop, the girl in the window won’t drop. A feast of friends alive she cried, waiting for me outside. Before I sink into the big sleep I want to hear, I want to hear the scream of the butterfly. .
(Jim Morrison in “When The Music’s Over”)

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A face que me olha do outro lado do espelho, não a reconheço. Pensando bem, nunca a reconheci, apenas habituei-me com o passar do tempo a identificá-la como sendo eu. Por vezes esqueço-me dela no acordar ensonado e fico parada em frente ao espelho à espera que o mundo, neste caso o meu mundo se componha, como um puzzle cujas peças são bocados de realidades distintas e nem sempre vividas.
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Sempre me habituei a conviver com a outra, a partilhar o mesmo espaço e o mesmo sono. O sonho nunca foi partilhado, era vivido separadamente, mas o mais curioso era que cada uma sonhava a outra. Alternadamente, até ao dia em que a outra, a da face que me olha do outro lado do espelho, não acordou do sonho em que me sonhava.
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Foi o dia em que deixei de ter sonhos, em que deixei de a sonhar. Devia ter deixado de existir, a outra, mas não, sei que está por aí. Além de a ver do outro lado do espelho, pressinto-a na sombra do meio-dia, ou no vulto silencioso que me fecha os olhos de sono à noite.
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Às vezes gostava que ela, a outra, acordasse do sonho de sonhar-me, e vivesse por uns tempos o meu sonho a sonhá-la. Sonhar que era a outra, a que me olha do outro lado do espelho. Será que me reconheceria então, a ver-me do lado de lá?, ou também acharia estranha a minha própria face. Provavelmente assim seria. Ao ser a outra, a sonhar ser a outra, tornar-me-ia a outra de mim mesmo e não me reconheceria também.
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Às vezes procuro-a nos silêncios, procuro ouvi-la a respirar e quase que consigo. Ou então tocar-lhe no escuro, roçar ao de leve o seu corpo e ficar arrepiada com o quase contacto. Sei que um dia a vou encontrar, frente a frente. Se não enlouquecer, será o dia em que escutarei pela primeira e última vez, o grito da borboleta.
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29.1.08

A PORTA

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Normalmente não sonhava, embora soubesse que todas as pessoas sonhavam, e por acréscimo, ela também. No entanto, era como se não sonhasse nunca ou quase nunca. Adormecia e era como se desligasse o interruptor da luz. Acordava no momento suspenso no instante de acordar.
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O sonho não fazia parte do seu universo consciente. O que existia nesse mundo fascinante era algo que raramente experimentava, e quando tal acontecia, quer fosse um bom sonho ou um mau sonho, ficava extasiada com a vivência naquele mundo e lembrar-se-ia para sempre do sonho que tivera.
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Ouvia fascinada as histórias das amigas, contando os sonhos diários que tinham, as experiências loucas e sem sentido que experimentavam, os medos e os êxtases que sentiam, os pesadelos que viviam durante a noite. Quem me dera ter um pesadelo, e lembrar-me dele. Quem me dera ter um sonho e ter consciência de estar a sonhar, costumava pensar.
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Começou por tentar estar consciente o mais possível antes de adormecer, a retardar ao máximo o momento de passagem para a outra realidade ou consciência. Invariavelmente perdia-se no vazio, agarrada a um qualquer pensamento que se repetia sem parar, até que deixava de ter consciência do mesmo no preciso momento em que adormecia profundamente.
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Uma noite, enquanto tentava estar alerta para o momento da passagem impossível, viu-o, ou melhor, teve a percepção que alguma coisa ou alguém estava a tomar forma no vácuo que ocupava toda a consciência que ainda tinha de si. Teve a percepção no instante antes de adormecer, e foi de tal maneira forte que no outro dia, ao acordar abruptamente do sono pesado que normalmente tinha, ainda se lembrava que alguma coisa se tinha passado no momento de adormecer. Passou o dia todo obcecada com tal facto e não fosse o trabalho que tinha para fazer, teria tentado adormecer antes da hora normal e rotineira.
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Nesse dia foi para a cama mais cedo e repetiu o procedimento da noite anterior. No preciso momento em que ia adormecer, ainda teve tempo para numa fracção de segundo vislumbrar duas portas suspensas no vazio.
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O dia seguinte, as semanas e os meses que se lhes seguiram, foram iguais ao que sempre tinha experimentado. Nada de sonhos, nada. Tinha a recordação das duas portas, e essa recordação pertencia-lhe, não tinha contado a ninguém a visão das duas portas a flutuar no vazio da existência, da sua existência.
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E como sempre acontece, quando já tinha desistido de ter qualquer percepção, por ínfima que fosse, do mundo dos sonhos, aconteceu. Viu as duas portas, e viu uma luz dourada na fresta da ombreira da porta do lado esquerdo. Pensou que isso queria dizer algo, poderia ser um sinal, e resolveu entrar. Estendeu o braço em direcção à porta e viu a sua mão agarrar e rodar o puxador. A minha mão, pensou maravilhada, consigo ver a mão do meu corpo no sonho. Decidida, empurrou a porta e ficou momentaneamente cega com a luz dourada e quente que a envolveu.
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Estava tão maravilhada com a torrente de luz que a envolvia e aquecia que nem reparou na voz por trás dos vultos difusos que a rodeavam. A voz, numa vibração grave e de cor laranja dizia, Finalmente meu amor, finalmente!
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Sentiu uma pressão no abdómen, mas não entendeu o que era. Olhou com mais atenção para os vultos difusos e pareceram-lhe familiares. Eram impressões vagas de pessoas que conhecia. Uma ideia tomou forma no seu lado direito e começou a aquecer-lhe o braço. Quando focou a atenção naquela massa viscosa e quente, percebeu que os vultos eram as recordações das pessoas que tinha encontrado ao longo do dia. De todas? Interrogou-se, enquanto olhava mais atentamente para aquelas formas indistintas e leitosas. Na primeira fila julgou perceber caras conhecidas, na segunda ainda achou mais algumas, mas à medida que alongava o olhar a estranheza era total.
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Percebeu finalmente um brilho alaranjado ao longe e tentou decifrar a vibração que emanava dele, mas o sussurro cada vez mais forte de todos aqueles vultos não a deixava ouvir. Sentiu um arrepio a percorrer-lhe o corpo e começou a dirigir-se para a vibração laranja que pulsava cada vez com mais intensidade. À medida que se deslocava, os vultos afastavam-se como peixes num cardume. A sua atenção estava focada na vibração laranja, sabia que ali estava algo de importante, e uma ideia começou a formar-se junto ao seu lado direito e envolveu-lhe o braço numa luz esverdeada e sensual que lhe dizia, Finalmente meu amor, finalmente.
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Quando integrou a luz, todo o seu ser estremeceu de prazer e numa fracção de tempo, os vultos das recordações do dia desapareceram e viu-se frente a frente com a vibração laranja que pulsava cada vez mais depressa. O pulsar rapidamente transformou-se num vórtice e julgou vislumbrar uma forma no seu interior, como se fosse uma crisálida.
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O vórtice parou por fim e revelou um corpo nu enrolado sobre si próprio numa posição fetal. Estendeu o braço para tocar aquele corpo e no mesmo instante sentiu-se envolvida por um abraço forte e macio ao mesmo tempo. O seu corpo vibrou de novo com um espasmo de prazer e o seu peito brilhou em uníssono numa luz verde levemente esbranquiçada. Sentiu um afago nos cabelos e retribuiu o gesto deixando a mão deslizar até ao pescoço. Sentiu a respiração quente azulada no seu pescoço e uma voz rouca que lhe sussurrava ao ouvido, Finalmente meu amor, finalmente conseguiste chegar até mim.
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Os joelhos tremeram-lhe, um arrepio subiu até aos ombros e diluiu-se na luz azulada que emanava dum ponto no centro da sua garganta. Sentiu o calor do corpo nu que a abraçava, sentiu o calor do seu próprio corpo, também nu, constatou com surpresa. Procurou instintivamente o beijo e sentiu os lábios a queimar na paixão desconhecida e no entanto já desesperadamente querida. O beijo entrou bem no centro das costas, perto das omoplatas, e subiu até explodir entre os olhos numa torrente de luz púrpura que a envolveu e elevou no espaço virtual que ainda percepcionava.
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Vem, sente-me e ama-me, Quis dizer no momento em que todo o seu ser começou a vibrar em uníssono, no momento em que soube que o tempo se anulava e o amor primeiro cumpria a promessa de ser. Ainda visualizou as vozes, Meu amor, a mesclarem-se juntamente com as partículas que se uniam e entrelaçavam até formarem um novo ser, uno e indivisível, finalmente.
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Um novo ser de luz que ficou a pairar no vazio infinito que se estendia em todas as direcções. Além dele apenas existia uma porta. A outra tinha deixado de existir no preciso momento em que se unira com a promessa do amor primeiro. A porta que ainda existia tinha uma particularidade, não tinha puxador, só podia ser aberta do lado de fora.
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Muitos anos passaram até ao dia em que, o marido e os filhos, deram ordem para desligarem a máquina que a mantinha em animação suspensa, prolongando-lhe o coma em que se encontrava, desde aquele dia em que adormecera bem cedo e não voltara a acordar.
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Tinham-na mantido assim, na esperança de virem a descobrir a razão do sorriso, que mantinha desde esse dia. Quando se cansaram, desligaram a máquina. Finalmente.
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24.1.08

HOT

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É o Restaurante mais antigo de Lisboa, podem crer, continuava o Louis Le Clézio na sua busca interminável, pela lista infindável, de restaurantes que possuía no telemóvel. Tá bem, vê lá se ainda não está cheio, acrescentei. Tínhamos acabado de entrar na autoestrada quando ele confirmou mesa para três. Lembrei-me na altura de ligar ao Rafa. Talvez ele e a Luciana se pudessem juntar a nós.
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Liga outra vez para A Taverna e marca para cinco, pelo sim pelo não. Já de seguida madame, ouvi o Louis Le Clézio na resposta afirmativa ao meu pedido. Era Sábado, e íamos os três para a noite de Lisboa. Ainda ousaste dizer, O que é que se come por lá, mas na altura ninguém te ligou nenhuma. A conversa já andava no, onde ir depois do jantar.
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O Restaurante é mesmo por debaixo dum dos pilares do Aqueduto das Águas Livres, na Rua das Amoreiras, à esquerda de quem sobe. Como sempre acontece, demos duas voltas ao quarteirão para arranjar um local para estacionar. Arranjámos um mesmo em frente ao Jardim das Amoreiras.
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A Taverna é um local bem simpático e acolhedor. Tão acolhedor que devorámos duas entradas seguidas enquanto esperávamos pelos nossos amigos. O salpicão tinha acabado de fazer a sua despedida, quando o Rafa chegou sozinho. Apresentações feitas, o vinho que evaporava da garrafa sugeriu, implorou nas palavras sempre eloquentes do Louis Le Clézio, a encomenda rápida dos pratos. Um pato escondido no arroz, para namorar com os teus choquinhos à algarvia, fazia frente às fevras à sertã. O Quinta de Cabriz era um compromisso para o princípio de noite em tempos de crise. Mesmo assim, ficámos na dúvida e pedimos segunda garrafa. Só para ter a certeza.
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E ali estava eu, radiante no meu conjunto de fazenda e camisa branca, aparentando um ar completamente colegial, não fossem as meias pretas Admas a repor o equilíbrio. Até ousei terminar a refeição com um doce de Sericá à moda do século XVI. Os cafés foram pedidos na sempre confusão dos estilos, um cheio, um normal, um café sem ser cheio... Alguém, na piada de ocasião, sugeriu um café numa chávena vazia. E para espanto de todos, quando os cafés foram servidos, lá apareceu a chávena vazia. Servir café é coisa séria, pois então!
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Já na rua, a antiga Fábrica de Seda, transvertida de Museu de Pintura, lançava agora fios labirínticos, nos traços de Vieira da Silva, que nos puxavam para lugares sempre presentes nas nossas memórias, mas em tempos diferentes. Estávamos dentro de um quadro dela e decidimos mergulhar na tela colorida. Subimos os degraus de pedra que levavam ao jardim e dirigimo-nos ao Procópio das tuas recordações. Louis Le Clésio garantia que tinha agora o melhor Alexander’s, desde a defunta Casa do Largo. Para mim era novidade, os teus tempos de recordação vestiam-me de bibe e soquetes.
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O labirinto chamava-nos para mais uma volta concêntrica e saímos em direcção ao Hot Club. O Rafa apanhou um desvio e sumiu-se, talvez envergonhado por ter confundido o mês da minha data de aniversário. O Louis nada envergonhado, presenteou-me com uma pérola de retórica Alexandr’ina, Eu sei que todos os anos fazes anos, só não me lembro é da data...
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Optámos por descer a Rua do Salitre e parar o carro no Parque Mayer. Subimos a rua em direcção à Praça da Alegria, passando pelo cada vez mais respeitável Maxime’s e entrámos na cave mais apertada de Lisboa. O Villas Boas com o corpanzil que tinha, bem podia ter arranjado uma cave um pouco maior. Mas assim é que é Hot.
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O quinteto de Pedro Moreira estava no segundo set quando entrámos. O som do sax enchia a sala por completo e senti-te a ficar mais próximo de mim. Nas paredes sobressaíam os posters dos primeiros festivais de Jazz de Cascais. Um Miles olhava fixamente para um Sam Rivers de chapéu enfiado na cabeça. Ali mais à frente um Dexter Gordon fumando o cigarro proibido, e depois todos os outros que me tinhas ensinado a gostar. Por ali passeavam também as sombras passadas do começo dos Sassettis e Barrettos, de Marias Vianas, de Marias Maxs, de Marias Joãos e Mários Laginhas, entre tantos outros. Ainda te ouvi dizer, Olha aquela ali, é a do Zé Eduardo, o que começou com a escola.
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Na penumbra fronteira ao bar, abraçaste-me por trás e senti o teu contentamento por me teres ali, no teu espaço, no teu som, no teu mundo tão natural e por vezes tão estranho para mim. E contigo viajei no solo do contrabaixo do Nelson Cascais. Riste-te, como sempre te ris, quando te disse que me fazia lembrar os Aristogatos da minha infância. Os teus olhos brilhavam com imagens passadas, do Carlos Paredes improvisando na guitarra portuguesa o tema Song for Che, acompanhado pelo Charlie Haden no contrabaixo.
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No intervalo fomos até pátio exterior e depois ao saguão tipo filme do Tim Burton, com a sua buganvília amputada na fúria camarária. Bebendo tranquilamente uma cocacola, o incontornável Rui Neves contava histórias dos tempos que merecem histórias. Por ali passeavam ainda os primeiros passos da aprendizagem do Pedrito de Portugal, garantia ele no sorriso de olhos quase fechados. É que estão a ver, a cave do Hot era a meias com uma tertúlia tauromáquica. O que acontece é que o pessoal da tertúlia foi envelhecendo, e já morreram quase todos. Mas aqui treinavam com aqueles carrinhos com cornos.
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O último set entrou na minha cabeça com uma sonoridade que nunca tinha ouvido. A tua presença colada a mim, a identificação contigo e com o que me rodeava, dava-me volta à cabeça. O trompete do João Moreira serpenteava com o sax no improviso final e fazia-me vibrar na antecipação de estar sozinha contigo. A colegial sentia-se doutorada.
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Foi com tristeza e alegria que descemos a rua em direcção ao carro, deixando o Louis Le Clézio no Maxime’s, quiçá para verificar se o Alexander’s dali era melhor do que o do Procópio. Tristeza por ter acabado o concerto, e alegria por te ter finalmente só para mim. É que naquela altura já estava bastante Hot.
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18.1.08

O SENHOR ANÓNIMUS SÁIDE

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René Magritte - O Espelho
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Levantou-se da cadeira e foi com um certo ar de enfado que abriu a porta ao rapaz da Pizza Na Hora. Nem o sorriso meio comercial com que foi presenteado enquanto recebia a enorme caixa tamanho XL o afectou. E foi com agrado que fechou a porta e se dirigiu para o escritório, bastante desarrumado até para o seu gosto. Nos últimos tempos já não saía muito de casa e o escritório era o local onde passava a maior parte do tempo.
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Partiu a Pizza em fatias estreitas e pequenas, empilhou-as numa travessa e dirigiu-se para a mesa do computador. Era uma mesa espartana que contrastava com o resto do espaço. No centro, apenas pontuava um computador portátil e respectivo rato. Na ponta, um candeeiro de halogéneo iluminava o resto da mesa com uma luz branca que se misturava com a luz ténue do ecrã aceso.
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Matraqueou o teclado na certeza de um qualquer endereço electrónico e recostou-se saboreando uma fatia de pizza enquanto a página se resolvia na janela do portátil. Era um blog que não conhecia, virgem de si e dos seus comentários. Sorriu na antecipação do prazer e comeu outra fatia, retardando o momento sempre fascinante em que começava a percorrer os postes até encontrar um que lhe merecesse um comentário. Quando isso aconteceu, fechou os olhos como que a permitir que a inspiração o iluminasse e de seguida começou a escrever febrilmente.
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Quando carregou na tecla Enter foi o momento para comer mais uma fatia e observar o texto que tinha escrito. Começava sempre por, Anónimus Sáide, e depois vinha a prosa, venenosa e irritante, como era a sua imagem de marca. Não havia contemplações nem palavras gentis. Desde que tinha descoberto o anonimato, a sua verdadeira pessoa, o seu interior sempre amordaçado, tinha finalmente começado a falar sem ter que dar a cara ou enfrentar opiniões contrárias às suas. Era uma espécie de voyeurismo activo que lhe dava imenso prazer.
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Na travessa, jazia uma fatia fria e descolorida, quando fechou a tampa do portátil e se espreguiçou. O sol teimava em entrar por uma fresta da janela quase fechada. Já é manhã, pensou, Estou capaz de ir tomar um bom pequeno-almoço. A noite tinha sido gloriosa em comentários e tinha a certeza que o veneno que deixara iria fazer estragos.
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Estranhou quando entrou no café e as pessoas se afastaram à sua passagem, enquanto se dirigia para o balcão. Sente-se bem?, perguntou-lhe o empregado, afastando-se dele com um certo ar de repulsa. Quis esboçar um sorriso amigável e não conseguiu. A face não reagiu. Ouviu o empregado dizer-lhe ainda que, O melhor é sair para não assustar as pessoas. Quis dizer qualquer coisa, mas a voz não lhe saiu. Confuso, dirigiu-se para a saída através do corredor aberto pelas pessoas que se afastavam à sua passagem.
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Na rua, quando o polícia o interpelou, ainda teve o discernimento de tirar o bilhete de identidade da carteira para mostrar quem era. Com efeito, já não se lembrava quem era ou como se chamava, e não foi com espanto que leu no bilhete de identidade o nome de Sr. Anónimus Sáide. Espanto teve, quando voltou o bilhete de identidade para ver a fotografia da sua face, como era na realidade, e viu que já não tinha face. Tinha-a perdido na febre do comentário anónimo.
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11.1.08

ERNESTO CIENFUEGOS

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A aproximação ao Aeroporto Internacional José Martí fez-se pelo lado do mar, baixando sobre o Malecón e a zona velha de Havana. Dava para distinguir a Avenida Marginal e o começo do casario em direcção ao bairro El Vedado. Via-se perfeitamente do ar a Calle 23, “La Rampa”, como era conhecida devido à sua inclinação, desde o Hotel Nacional até ao planalto onde se encontrava o Hotel Habana Libre, o meu destino.
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Tinha passado um ano, desde que o Galuber Rocha me fizera o convite para participar no filme que estava a realizar. Na altura só me ocorrera perguntar-lhe, Porquê? Respondeu-me que o seu amigo John Cale lhe tinha falado duma radiante morena que tinha passado pela Factory, vestindo um vestido encarnado às bolinhas, muito sevilhano por sinal. Passou a noite a falar nessa mulher. Até ensaiou uns acordes para uma canção sobre ela. Chamar-se-ia Femme Fatale e seria interpretada pela Nico e pelos Velvet. É claro que fiquei muito curioso, e comecei a fazer a minha pesquisa. Inevitavelmente tive que aturar o Andy e as suas superstars, mas lá me deram o contacto do Luciano. Depois foi fácil chegar até ti!
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Confesso que na hora o meu ego cresceu desmesuradamente e a minha auto estima brilhou como se fosse uma supernova. Ia desfalecendo quando me disse com quem ia contracenar. O Jardel Filho, A Glauce Rocha, O Paulo Gracindo, O Paulo Autran e tantos outros que admirava na altura. Era difícil de acreditar, e ainda por cima nem conhecia o John Cale.
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Depois do Festival de Cannes e de Locarno, onde o Terra em Transe foi muito bem recebido e obteve muitos prémios, era agora a vez do Festival de Habana. O convite tinha sido feito pelo Governo Revolucionário, não só pelo facto de ser um filme de um dos mais controversos realizadores brasileiros, mas também pelo filme ser uma crítica velada à Ditadura Militar do Brasil. Quase que me pendurei no Glauber para vir a Cuba, desejosa de conhecer a revolução e também ter a oportunidade de rever a minha amiga Clarisse Lay. Tinha voltado a Cuba para trabalhar no Novo Teatro, e segundo sabia, contracenava com Hilda Oates na Peça Maria Antónia, estreada por Roberto Blanco, com música do fabuloso Leo Brouwer. Não cabia em mim de expectativa e contentamento.
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O autocarro militar que nos foi buscar ao aeroporto, subiu a rampa circular do hotel e parou debaixo da pala junto à entrada. Foi mesmo a tempo de evitar a chuvada torrencial que começou a cair. Estávamos no começo de Outubro, o calor era muito, a humidade ainda mais e a chuva andava à solta nestes tempos de revolução. Com a roupa colada ao corpo suado, ia morrendo de frio ao entrar no lobby gelado do Habana Libre. Vestia na altura um conjunto bastante leve, próprio para o clima de Havana, mas nada indicado para os ares condicionados dos hotéis.
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À nossa espera estava uma pequena comissão de boas vindas, rodeando uma das imensas colunas do átrio. Nos homens, os uniformes abundavam, nas poucas mulheres, duas ou três segundo me lembro, os vestidos compridos e plissados davam a tónica. A revolução ainda não tinha chegado às roupas. Foi-nos dito que como convidados, ficaríamos nos poucos quartos disponíveis do Hotel, já que a quase totalidade ainda estava afecta ao Governo Revolucionário. Seríamos acompanhados por uma guia e um funcionário, e podíamos visitar o que quiséssemos nos tempos livres, que diga-se de passagem não eram muitos. Os seminários sobre o Novo Cinema, as visitas à Universidade e às diversas casas de cultura, a juntar às representações oficiais, ocupavam os dias que íamos ficar em Havana.
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O duche já corria, o meu sorriso de finalmente ir tomar um banho, ficou suspenso no toque ritmado de alguém junto à porta do quarto. Fechei a contragosto a água já tépida e abri a porta. O meu sorriso voltou a florir no abraço de Clarisse. Até ensaiei uma lágrima ao canto do olho. Consegui reprimi-la a tempo de manter o rímel no lugar. E Clarisse sorria um sorriso bem cubano, no seu conjunto discreto de algodão. O tempo das toilletes sofisticadas já tinha passado, e agora só as provava nos adereços do teatro. Na vida real era a Clarisse Lay, trabalhadora do teatro, como era costume dizer na altura.
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Convidei-a para entrar, e entraram os dois para meu espanto. Ele, embora fosse alto e bem musculado, tinha-se mantido camuflado na sombra dela. Devia ser um guerrilheiro, pensei para comigo, arqueando os olhos na pergunta silenciosa que dirigi a Clarisse. Respondeu-me que ela ia ser a minha guia, piscando-me o olho como que a dizer que já não era a primeira vez, e ele era o membro do Governo para nos acompanhar. O funcionário, perguntei. Não, funcionário, não! Eu fiz questão que te acompanhasse um guerrilheiro a sério. Arqueei desta vez as sobrancelhas em sinal de, eu já sabia. E como se chama?, perguntei curiosa.
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Ernesto Cienfuegos, respondeu-me num português quase correcto. Combati na Sierra Madre ao lado do Che e do Herói de Yaguajay, os meus Comandantes, disse com orgulho. Depois do triunfo da revolução, quando o Comandante Cienfuegos morreu naquele misterioso acidente de avião, mudei o nome em homenagem a eles. Então conheces o Che?, perguntei com interesse redobrado. Com certeza, todos o conhecem. Mas tira daí a ideia, atalhou a Clarisse, Não se encontra em Cuba. Mas deixa estar, o Ernesto acaba por ser uma mistura dos dois, acredita, eu sei. Nem ousei ensaiar um olhar de desilusão. Eles olhavam divertidos para mim, e eu não sabia o que fazer. Só queria tomar o meu banho, tépido.
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Os dias seguintes foram como eu esperava, cansativos e suados. As batalhas intelectuais entre Glauber Rocha e Gutiérrez Alea sobre a estética do Cinema Novo acabaram por excitar os plenários e tiveram o seu ponto alto na formulação do que viria a ser a “Estética do Sonho”, em que defendia que se devia deixar de lado a violência em favor da defesa da irracionalidade como saída libertária. Essas ideias causavam algum incómodo nos funcionários, mas Glauber tinha Havana a seus pés. Era apaparicado como um intelectual estrangeiro que apoiava o regime, e perdoavam-lhe a ousadia. E eu estava também cada vez mais irracional. O clima, quente e húmido, punha-me num estado de excitação crescente. Os cheiros tropicais davam-me volta à cabeça. O rum, as limas adocicadas e os charutos sempre presentes alimentavam-me as fantasias cada vez mais recorrentes, a que a presença do meu guerrilheiro pessoal não era alheia. O Festival ainda vinha longe e já considerava Havana a minha casa.
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Nesse Domingo, o Ernesto conseguiu arranjar bilhetes e fomos ao Teatro Studio de Havana ver a Clarisse na peça Maria Antonia. Já noite cerrada, fiz questão de cearmos os três no Café «La Columnata Egipciana», o café preferido do Eça de Queirós em Havana e depois passeámos pela Calle San Rafael, deserta àquela hora, em contraste com a azáfama diurna, e dirigimo-nos para oeste, em direcção ao Parque Central. Sentámo-nos num banco de jardim em frente à Fábrica dos Charutos, um edifício bem folclórico, discorrendo sobre o que iríamos fazer no dia seguinte, o nosso dia sem compromissos de qualquer espécie. O Ernesto mora aqui ao pé, sabes? Disse-me a Clarisse num ar falsamente distraído. Olhei para ele num sorriso já familiar e fiquei à espera que dissesse qualquer coisa. Notei que estava um pouco mais calado do que era habitual nele, mas continuei a olhar para aqueles olhos verdes que me faziam sonhar com ondas do mar. Tenho umas garrafas de Caney por abrir e gelo, se quiserem, acabou por dizer. E tens-nos a nós, se quiseres, comentou a Clarisse na gargalhada cúmplice de mim.
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O apartamento situava-se no segundo andar dum edifício antigo a precisar de obras urgentes. No interior, a ampla sala impressionou-me pela altura do tecto, ainda com vestígios das decorações e frescos antigos. O resto, uma cozinha e um quarto igualmente amplo. Para os padrões revolucionários era quase um luxo, assim como o frigorifico a gás. Abri-o e não estranhei o que vi. Garrafas de cocacola e de rum enchiam-no por completo. O congelador cheio de prateleiras de gelo. Se tivesse dúvidas que o meu guerrilheiro vivia sozinho, deixaria de as ter naquele momento. Homens são sempre homens, mesmo os guerrilheiros.
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Então, onde estão as famosas limas? Perguntei no desequilíbrio de segurar três copos cheios de rum e gelo. Brindámos à revolução e continuámos noite fora, a brindar a todos aqueles rostos a preto e branco, que figuravam nas inúmeras fotos emolduradas que decoravam as paredes azul turquesa da sala. O calor e a humidade sempre presente entravam pela janela da varanda semi aberta. Estávamos meio nus, suados e completamente bêbados. Quando já tínhamos brindado a todos os rostos da sala, decidimos passar para os rostos das fotos nas paredes do quarto. Caímos os três pesadamente na imensa cama e não me lembro de ter feito mais algum brinde. Lembro-me vagamente de me ter enroscado junto ao peito dele e lhe ter sussurrado um Ernestito Querido, antes de deslizar para um sonho povoado de selvas e guerrilheiros barbudos fumando charutos enormes.
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De manhã, com o sol a entrar desmesuradamente pela janela, acordei sobressaltada do sonho que estava a viver. Assistia impotente ao espancamento de um homem no que parecia ser uma pequena escola perdida na selva. Não lhe conseguia ver o rosto porque estava de costas com o cabelo comprido a tapar-lhe as faces. As mãos estavam amarradas atrás das costas e um fio de sangue manchava-lhe a camisa suja. Ernesto acordou também, e abraçou-me com força. Correspondi ao abraço desejado e ofereci-me com querer. Quando ele entrou em mim, foi como se toda uma realidade desconhecida passasse a fazer parte integrante de mim. O cheiro húmido e fétido da selva soalheira, inundou-me na cheia das recordações colectivas. Vi-lhe os olhos fechados com força, como se estivesse a reprimir um pensamento desagradável. Puxei-o mais para mim, senti-o ainda mais dentro de mim e abandonei-me numa nuvem de cor verde. No fundo da nuvem, lá longe, uma imagem começou a formar-se. Estava de novo na sala de aula do sonho, e alguém fardado ajudava o homem sentado com as mãos amarradas atrás das costas a levantar-se. O soldado aponta-lhe uma pistola, mas as suas mãos tremem e hesita. O homem grita-lhe, Dispara, cabrón, dispara!
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O grito que ouço é o de Cienfuegos no momento em que ejacula. O grito mistura-se com os sons dos disparos que ecoam na minha cabeça. Alguém acaba de morrer e sinto o meu guerrilheiro a desfalecer na minha tristeza. Olho para o relógio na mesa-de-cabeceira, são 13 horas e 10 minutos do dia 9 de Outubro de Mil Novecentos e Sessenta e Sete. Ernesto Cienfuegos abraça-me com violência e articula no choro silencioso, Mi Comandante está muerto. Mataram el Che.
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. Clarisse Lay continuou e continua em Havana ligada ao Teatro Nuevo.
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Glauber Rocha acabou por ganhar o Prémio de Melhor Filme e da Crítica do Festival de Havana com o filme Terra em Transe, e ficou durante muitos anos ligado ao Cinema Nuevo de Cuba.
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Ernesto Cienfuegos continua fiel aos ideais dos seus Comandantes desaparecidos, levando uma vida simples longe das luzes da ribalta política.
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O Che? Gosto de pensar que continua vivo nos nossos sonhos libertários, ou como postulava a Estética do Sonho, "quando o sonho irrompe na realidade, ele se transforma numa máquina estranha àquela realidade, uma máquina tremendamente libertadora”.
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3.1.08

O SOFÁ VERMELHO

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231 East 47th Street, soletrei num inglês nada americano. O motorista do táxi amarelo com faixa preta de xadrez, também nada americano, respondeu-me com um lacónico, Going to The Factory? Respondi afirmativamente ao turbante que tinha à minha frente, e recostei-me no assento coçado, saboreando a alternância da luz e sombra dos quarteirões da baixa de Manathan ao pôr-do-sol.
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Quando por fim entrámos na Park Avenue, já a noite pintara os passeios largos de sombras alongadas e manchas de luzes coloridas das montras. Ainda era cedo, pensei. Falei novamente para o turbante cor de laranja e perguntei se conhecia o restaurante Serendipity. Respondeu-me que ficava em caminho, por isso podia deixar-me lá de seguida. Quase que nem o ouvi, a minha cabeça já pensava no enorme Frozen Hot Chocolat com que me ia deliciar.
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Deixou-me mesmo em frente ao restaurante, e como era cedo, ainda não estava cheio. Lá consegui arranjar uma mesa e pedi triunfante o dessert tão cobiçado. Olhei à volta, e fiquei bastante surpresa. Ou já estavam todos na sobremesa, ou então tinham pedido o mesmo que eu. Era o começo da lenda, não o sabia ainda, mas tal não evitou um sorriso de cumplicidade, partilhado com o homem da mesa do lado. Já tinha saboreado o seu Frozen e acendia agora um cigarro de mentol. Tinha um ar muito Kool, observei no trocadilho. Ele sorriu-me como se tivesse percebido o meu pensamento, e eu retribuí o sorriso meio envergonhada, sendo salva do embaraço pela empregada que me trazia o fruto proibido.
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Pequei descaradamente, lambuzei-me também, mas evitei qualquer pingo no vestido encarnado às bolinhas, muito sevilhano por sinal. O convite chegara no fim da sessão de fotografias de moda, e para apanhar o avião a tempo, saíra tal como estava. O casacão de pele destoava perfeitamente, mas até me dava um certo ar de chic proto-glam, embora na altura não soubesse o que isso era. Era mais uma sensação, quase que premonição. No fundo sentia-me quase como se fosse uma personagem de um conto.
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Desta vez, olhei descaradamente para o homem Kool, e pedi-lhe um cigarro. Era o ponto de equilíbrio que faltava naquele momento. Sorriu-me mais uma vez, e estendeu-me o maço branco com letras igualmente brancas em fundo verde. Tirei um cigarro e já a chama do isqueiro me convidava a acendê-lo. Thanks, disse no meu sotaque português, acentuando o a. De nada, respondeu-me com um sorriso bem trocista. Abri a boca no espanto. Fechou-ma gentilmente com um beijo na ponta do dedo. Será que sorri? Confesso que já não me lembro.
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Através do fumo branco, vislumbrei um homem muito bonito, o cabelo ruivo penteado para trás, contrastava com o fato cinzento assertoado. A gravata azul escuro com riscas cinzentas, combinava com a faixa azul escuro do chapéu de feltro cinza claro. Tudo muito old fashion, tudo muito MOB. Um ligeiro calafrio subiu alegremente pelo peito até sair pelos mamilos, tornando-os mais visíveis, para deleite do homem cada vez menos Kool.
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Como que adivinhando os meus pensamentos sossegou-me, esclarecendo que ia fazer um pequeno papel num home movie na Factory. Ia fazer o papel dum travesti que casa com uma transsexual. E agora? Dizia-lhe que também tinha sido convidada para figurante do filme? No fundo, não havia nada a esconder, iríamos contracenar na Factory. Sorri e expliquei que também ia para lá, que era modelo e que estava ansiosa por participar nas superstars. Pedi mais um cigarro, afinal estava em casa.
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Embora o Serendipity III estivesse relativamente perto de Central Park e da East 47th, resolvemos apanhar um táxi, que nos deixou em frente à fachada de vidro, entalada entre dois imensos edifícios forrados a pedra. Na porta negra de metal, enquadrada pelo pórtico neoclássico, podia ler-se o pequeno aviso a branco. Dizia simplesmente, Factory 5th floor.
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Entrámos no elevador todo forrado a folha de prata e saímos directamente no Hall envidraçado do quinto piso. À nossa espera estava o já underground famoso Joe Dalessandro, Little Joe para os amigos. Estava acompanhado de uma mulher líndissima. Foi-nos apresentada como Candy Darling, a estrela da noite. O meu companheiro deu-me a mão e conduziu-me para o interior do imenso estúdio. No tecto flutuavam balões prateados que se confundiam com a estrutura metálica também prateada. Tudo estava pintado nesta cor, as paredes e o tecto, até um telefone solitário junto às enormes janelas. Telas amontoadas junto às paredes davam a nota de cor necessária para que tudo aquilo parecesse real. As pessoas, uma multidão à primeira vista, não faziam os grupos do costume e misturavam-se como moléculas de água a ferver.
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Como é que te chamas? Perguntei ao meu companheiro. Como já vinha sendo hábito nele, sorriu-me um Luciano, e acrescentou um, Vamos beber qualquer coisa e conhecer mais qualquer coisa. Levou-me até um Lou Reed, com olheiras bem pretas, às voltas com provas litográficas de bananas amarelas. Beijaram-se, para meu espanto. Beijei-o para espanto meu, e ofereceu-me umas anfetaminas para escolher. Tirei a mais pequenina que lá havia e entrei naquela noite, vendo a minha imagem num dos muitos espelhos fracturados a fundir-se com a imagem de Luciano que me abraçava.
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Vou vestir-me para o filme, susurrou-me ao ouvido, desaparecendo por entre toda aquela gente. Tentei segui-lo, mas a minha atenção, já fragmentada, foi atraída por um Cecil Beaton que fotografava num canto o anfitrião Andy Wharol, de joelhos com um vibrador nas mãos e uma loura seminua por trás agarrando os peitos. Vim a saber depois que era a Brigid Polk, famosa entre outras coisas pelas infames Tit Paintings. Saí do transe quando ele me perguntou se podia fotografar-me. Nua?, perguntei. Como quiser, respondeu. Devia ser o efeito do vestido às bolinhas, muito sevilhano por sinal. Quando centrou as objectivas da sua Rolleiflex para mim, num impulso, levantei parte da saia e mostrei o sexo a ficar cada vez mais com vontade própria. Agradeceu-me com um sorriso e um aceno do seu inseparável chapéu de abas pretas. Um senhor, no meio de já não sabia bem o quê.
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Pareceu-me ver o Fernando Arrabal na conversa com o Truman Capote. Achei curioso o que é que o autor do El Entierro de La Sardiña tinha para falar com o autor de In Cold Blood. O que é que a poesia em movimento, ou o teatro Panique, tinha que ver com o romance de não-ficção. Se calhar tinham em comum as anfetaminas. Aproximei-me deles, mas fui interceptado por uma mulher ruiva que me abraçou e levou pela mão até um canto do estúdio. E vi, no meio dos quadros de silkscreen, o sofá encarnado. Brilhava na luz da minha segunda anfetamina e parecia que emanava nuvens de pontinhos brancos que ficavam a flutuar. Deixámo-nos cair no sofá e nova nuvem de poeira branca a envolver-nos. É cocaína, disse a minha companheira, basta cheirá-la. Olhei sem muita certeza para ela, e vi-o por trás da maquilhagem, era Luciano.
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Num impulso mais que desejado, beijei-o com sofreguidão. Senti-lhe os mamilos erectos no peito suave e gostei. Acariciei-os na luxúria de Lesbos transvertida. Tinha posto um daqueles vestidos de lantejoulas preto brilhante, muito curtos, e umas meias prateadas lindíssimas com uns sapatos de verniz encarnado vivo. No mínimo, bastante pop. Senti a sua mão a subir pelas minhas pernas e abandonei-me às suas carícias. Ninguém reparava em nós, e mesmo que reparassem, na altura estava-me nas tintas de dentro da minha bolha encarnada de desejo. Beijei-o uma vez mais e quase no orgasmo, as minhas mãos deslizaram nas meias brilhantes até chegarem à carne quente e nua das coxas. O prazer que tive foi tanto que tudo se começou a fragmentar, como os espelhos que nos rodeavam. Ainda senti o calor abrasador e húmido do seu sexo, feminino.
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Abri os olhos a custo, com o foco dos projectores mesmo apontados para o sofá vermelho onde nos encontrávamos. O filme do casamento ia ter o sofá por fundo. Luciano ajudou-me a levantar e meio zonza procurei a obscuridade. Quando ele me abraçou sorridente, não o repeli, mas perguntei-lhe, Afinal quem és tu, Luciano? Eu, começou por responder, Sou uma actriz cubana, que por vezes se veste de Luciano, para depois fazer papéis de travesti. Apenas isso. E como te chamas? Não tem importância, mas pode ser Clarisse Lay.
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E Candy Darling fez o seu último filme de casamento entre transsexuais e dragqueens, enquanto Lou Reed conservado em heroína e Speedballs iniciava com os Velvet Underground um passeio pelo lado mais selvagem da vida. Os outros, desde Andy Wharol a Jean Michel Basquiat ficaram pela excessiva nas nossas memórias, mesmo que imaginadas, e revivem sempre que alguém toca o Just Take a Walk on The Wild Side.
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26.12.07

MARIA DAS MIL PALAVRAS

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Porque é que se chamava assim, nem ela própria sabia. Toda a vida, desde que se lembrava, que a chamavam assim. Maria, Maria, ainda percebia, Tenho cara de Maria, costumava pensar, quando se via ao espelho depois do banho matinal. Tenho cara de Maria, mas tenho corpo de outra coisa, cismava enquanto olhava para o reflexo do corpo nu. O pescoço parecia que dava pelo nome de Alzira, nunca tinha gostado muito do pescoço, nem do nome de Alzira. Lembrava-lhe a criada gorda que a tia tinha lá em casa, sempre ofegante e com as bochechas rosadas, mas o mais curioso é que não se lembrava do pescoço da criada, e no entanto o seu pescoço falava Alzira. E nem era rosado, era branco e esguio com uns pontinhos castanhos.
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De seguida o olhar desceu para os seios, pequenos e ainda rijos, E vocês como é que se chamam?, perguntou com ar irónico a tender para o absurdo da situação. Gilbertas, somos as manas Gilbertas, pensou ouvir bem no centro da cabeça. Gilbertas, as mamas dão pelo nome de Gilbertas?, interrogou-se, e de seguida sorriu com o trocadilho, Manas que são mamas, realmente.
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Foi com prazer que afagou a leve curva que lhe moldava a barriga, era pessoa conhecida e desde muito cedo que lhe sabia o nome, Mercedes. Era isso, sempre soubera que tinha barriga de Mercedes, com o umbigo a puxar para o mexicano. Daí o nome, Mercedes. Mais uma vez, enquanto acariciava ao de leve a barriga, não se questionou sobre o que seria um umbigo a tender para o mexicano. Era um dado adquirido e pronto, não se pensava mais nisso. A Mercedes também não se manifestava, logo tudo estava em ordem. Onde as coisas não estavam muito em ordem era mais abaixo. Não precisou de lhe tocar para sentir o fogo a espalhar-se e a subir rapidamente pela coluna acima até se espraiar na libido meio consciente. Bastou dirigir o pensamento, cheio de recordações agradáveis e não muito distantes, para que a onda de fogo despertasse completamente a libido meio adormecida.
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Fechou os olhos e deixou-se invadir pelo torpor prazenteiro, enquanto a mente se enchia de pensamentos diversos, que se atropelavam uns aos outros, até não serem mais do que palavras que flutuavam no vazio da consciência. Mil palavras, que se combinavam e separavam, a um ritmo por vezes lento, por vezes tão rápido que não se percebia o sentido. Mil palavras que se fundiram num ponto de luz, no preciso momento em que Maria das Mil Palavras, atingiu, uma vez mais, o êxtase no orgasmo continuado, até se fundir e misturar com a realidade que a envolvia.
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Alguns, chamam a este estado, Nirvana, e passam a vida inteira a tentar alcançá-lo. Para Maria das Mil Palavras, é a forma mais agradável e natural de começar o dia.
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