6.2.08

A OUTRA

. . . . . .
The face in the mirror won’t stop, the girl in the window won’t drop. A feast of friends alive she cried, waiting for me outside. Before I sink into the big sleep I want to hear, I want to hear the scream of the butterfly. .
(Jim Morrison in “When The Music’s Over”)

.

.

A face que me olha do outro lado do espelho, não a reconheço. Pensando bem, nunca a reconheci, apenas habituei-me com o passar do tempo a identificá-la como sendo eu. Por vezes esqueço-me dela no acordar ensonado e fico parada em frente ao espelho à espera que o mundo, neste caso o meu mundo se componha, como um puzzle cujas peças são bocados de realidades distintas e nem sempre vividas.
.
Sempre me habituei a conviver com a outra, a partilhar o mesmo espaço e o mesmo sono. O sonho nunca foi partilhado, era vivido separadamente, mas o mais curioso era que cada uma sonhava a outra. Alternadamente, até ao dia em que a outra, a da face que me olha do outro lado do espelho, não acordou do sonho em que me sonhava.
.
Foi o dia em que deixei de ter sonhos, em que deixei de a sonhar. Devia ter deixado de existir, a outra, mas não, sei que está por aí. Além de a ver do outro lado do espelho, pressinto-a na sombra do meio-dia, ou no vulto silencioso que me fecha os olhos de sono à noite.
.
Às vezes gostava que ela, a outra, acordasse do sonho de sonhar-me, e vivesse por uns tempos o meu sonho a sonhá-la. Sonhar que era a outra, a que me olha do outro lado do espelho. Será que me reconheceria então, a ver-me do lado de lá?, ou também acharia estranha a minha própria face. Provavelmente assim seria. Ao ser a outra, a sonhar ser a outra, tornar-me-ia a outra de mim mesmo e não me reconheceria também.
.
Às vezes procuro-a nos silêncios, procuro ouvi-la a respirar e quase que consigo. Ou então tocar-lhe no escuro, roçar ao de leve o seu corpo e ficar arrepiada com o quase contacto. Sei que um dia a vou encontrar, frente a frente. Se não enlouquecer, será o dia em que escutarei pela primeira e última vez, o grito da borboleta.
.
.

23 comentários:

The F Word disse...

E a outra no espelho, será sempre a mesma?
Acho que não. Julgo que deve haver várias maneiras de montar o puzzle...
Tem dias então que as peças estão (des)organizadas de forma absolutamente irreconhecível... :0)

Viajante pelos Sentidos disse...

O grito da borboleta... também gostava de viver para ouvi-lo. Nesse dia talvez também eu saísse do outro lado do espelho. Mas eu não sou a mesma que vejo ao espelho? Tem dias... às vezes quem vejo ao espelho é mais parecida comigo do que aquilo que desejava...

Mas isto já sou eu a divagar... Um beijo viajante!

PS - Vê o mini conto de carnaval que escrevi, acho que vais gostar...

mfc disse...

É importante conhecermos bem o outro que connosco coexiste!

MalucaResponsavel disse...

gostei bastante deste teu txt... desta "outra" q nos deste a cnhcer... bj

luafeiticeira disse...

Ai os puzzles... fazem-me lembrar o meu primeiro post.
Beijos e olha a saga Dalton terminou

arte de ama disse...

axo que todas nos temos a nossa "outra" e bom é que ela saia de dentro de nos sempre que queira-mos!Nao a prendam!

Meu corpo junto ao seu te aquece
Braços te envolvem com firmeza
Mãos percorrem sua pele macia
Línguas provam nossos sabores
Seu corpo se entrega ao prazer
Bem suave te penetro lentamente
Deslizando avanço toco seu íntimo
Um calafrio de tesão te percorre e
Você geme com uma volúpia intensa
Derramo meu leite num gozo pleno
Um instante a saborear o momento
Seu rosto iluminado com um sorriso
Vejo o desejo de quem quer mais
Então prometo ser sua para sempre

Beijo com arte de amar

VdeB disse...

Hmmm... talvez seja a tal da maturidade, só que é uma maturidade ainda imberbe, muito imatura na realidade, já que, a maturidade madura, a primeira coisa que nos ensina é exactamente a despertar a tal imagem do seu sonho de nos sonhar. E depois podemos até aprender a gostar de e a cultivar criancices.

Mas Maria Mercedes, como é óbvio, não sei se este meu comentário te dirá alguma coisa embora reflicta o que tirei deste teu conto. Por isso mesmo acho que o meu comentário é, no mínimo, perfeitamente irrelevante.

Só que, vá-se lá saber porquê, sinto uma enorme necessidade de te dizer que o que aqui nos deixas semanalmente é muito bom, ou pelo menos eu gosto imenso e já não dispenso. Afinal quem sou eu para avaliar?

Talvez seja para te estimular a continuares, para que não fujas já, para que continues a embrulhar esse teu imaginário em contos cada vez mais ricos, enfim, para que o sonho não deixe de ser sonhado e para nosso gáudio.

Na realidade não é fácil comentar um blogue como o teu em que não promoves o diálogo aqui na caixa de comentários, acredita que é muito mais fácil apenas usufruir na sombra. Também não gosto de vir para aqui com lamechices e tal e coisa, mas então, e quando gostamos muito e muitas vezes, o que dizer?

Talvez que, já estou ansiosamente à espera do conto da semana que vem, hehehe.

PDuarte disse...

Lindissima a forma como desdobras o teu corpo em silhueta e a tua alma no reflexo que dela a luz faz.
Tu és divinal e o teu espelho mais não é que a verdade em vidro.
Beijo de um fã.

Alguém Comum disse...

A outras nunca será igual a ti, aos teus olhos...
Um reflexo nunca é igual aos olhos de quem o vê...

Helena disse...

AINDA EXISTE O "TABU" E A DIFICULDADE EM ENCONTRAR UM GABINETE DE ESTÉTICA PARA DEPILAÇÃO ÍNTIMA MASCULINA EM LISBOA .

Me pergunto:

PORQUE UMA ESTETICISTA PROFISSIONAL NÃO FAZ ESTE TIPO DE DEPILAÇÃO NOS HOMENS?
PUDOR?, MEDO?, INSEGURANÇA?


VISITE MEU BLOG E FIQUE POR DENTRO DE UM TRABALHO PROFISSIONAL E CONFIÁVEL.

www.depilacaomasculina.blogspot.com

Um abraço, Helena.

" JOTA ENE ® " disse...

... não enloqueces com toda a certeza, :-) pq sabes o que queres.

Bjos e bom f-d-s

PS - Abraços ao homem da NIKON, lol

Jaime disse...

Fantástico texto, Mercedes. Ou então, fantástico texto, outra Mercedes. Essa do "dia em que deixei de ter sonhos" é que me parece uma contradição, porque é, seguramente, apenas um sonho mau...
beijinhos.

Shelyak disse...

Reflexos da complexidade da condição humana...o querer e o não querer, sempre em confronto...
Belíssimo texto, como habitualmente.
Beijinho e Abraço.

un dress disse...

A OUTRA

a mais nunca

a

mais sempre

que

me foge

e

desconheço

a outra

a

tão

pre(s)sente






.beijO

Anonimo do Algarve disse...

Nao coisa mais bela k o reflexo de uma mulher a fazer amor

bjs

Peach disse...

ah mas ela está sempre lá... é o teu outro lado, a tua outra face...

linda foto da outra refletida no espelho

beijos

muito querida disse...

gostei, do blog e da banda sonora
:)

beijos quentes

RedLightSpecial disse...

Reflexos.. que nunca são iguais, que irradiam de nós para nós mesmos, sem espelhos... só com a consciência que não somos unos.
Eu pelo menos sinto assim: todos os dias acordo com uma outra na frente, que não foi a de ontem, nem será a de amanhã.
Se isso é enlouquecer.. então para lá caminho também.
Tem uma excelente semana Mercedes! bjinhos!!!

O Profeta disse...

A tua intelectualidade de pensamento é espantosa...


Doce beijo

Abssinto disse...

Sempre de excepção, os teus textos, M.

bj

carpe vitam! disse...

"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro. "

Mário de Sá Carneiro, O Outro

laura disse...

mais um local estimulante, musical, cheio de imagens e música onde voltarei decerto... obrigada pelas tuas palavras.

Anónimo disse...

bom comeco

 
Site Meter