21.3.08

ONDAS DE PROBABILIDADE

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Custou-me a abrir os olhos e sair do sono profundo em que me encontrava. Como sempre, acordei sem saber quem era ou onde me encontrava. A minha consciência ainda dormia e o meu corpo amarrotado arrastava-se para o duche redentor. Abri a porta do roupeiro e embrenhei-me nos vestidos pendurados. Não era aquela porta, logo só podia ser a outra, a que estava na parede oposta. Não achei estranha a troca. Aliás, naquela altura bem me podia aparecer o Humpty Dumpty, que eu não estranharia.
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Estranhei foi a banheira de grés cinzento-escuro. Não me lembrava da banheira ser daquela cor. Banheira era branca, ponto final. Mas lá que aquela era cinzento-escuro, não o podia negar. E os azulejos também me fizeram franzir a testa. Azulejos de vidro vermelho? Decidi acordar no duche a tender para o frio. Não me serviu de muito. Bastou chegar ao quarto para ficar a pensar onde é que estaria? Aquele não era de certeza o meu quarto. Ou seria o meu quarto, e eu é que seria outra? Confesso que estremeci com o pensamento. Até porque não me apetecia ser outra.
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Não me apetecia, mas tive que ser, à força. A roupa que tinha no roupeiro, era composta por vestidos e tailleurs de marca, daqueles que nunca tive a coragem de comprar. No entanto, vesti um conjunto de saia casaco preto e blusa magenta, com uma naturalidade que me surpreendeu. Não há dúvida que nos habituamos logo ao que é bom, pensei cá para comigo. Mas o desconforto continuava, assim como não saber onde me encontrava. E o desconforto aumentou, quando desci as escadas e entrei na sala vazia. Olhei em pormenor, procurando algo revelador, uma pista, qualquer coisa. E numa das prateleiras da estante de livros, brilhava uma moldura. Quase a medo peguei nela e para meu espanto, lá estava eu, sorridente e abraçada a alguém não totalmente desconhecido. A dedicatória dizia apenas, Para o meu amor, e assinava Jaime. Jaime? Quem era o raio do Jaime, pensei cada vez mais baralhada. Tinha conhecido um Jaime quando andara nas Bela Artes em Pintura, mas ele tinha seguido para Arquitectura e nunca mais o vira. Olhei melhor para a foto, e não achei graça nenhuma ao pensamento de que aquele tipo até podia ser ele. E a estranheza total continuou, até conseguir sair de casa com o pequeno-almoço tomado.
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Na mesinha ao pé da porta, estava a minha mala e as chaves do carro. Escusado será dizer que não era a minha mala e não eram as chaves do meu carro. Mas naquela altura, já dava como dado adquirido que, de facto, aquela era a minha mala, e aquelas eram as minhas chaves do carro. E fiquei paralisada junto à porta. Para aonde é que eu ia? E onde estava o meu carro? Seria que o local onde trabalhava ainda estava lá? Na dúvida, passou-me uma ideia pela cabeça, e procurei febrilmente o telemóvel na mala. De certeza que tinha um telemóvel. E lá estava ele. Um Nokia vermelho e cinzento, como a casa de banho. Era uma mulher muito moderna sem dúvida. Liguei o telemóvel e procurei o nome de Jaime. Lá estava, mais o número e e-mail. Fiz a ligação e foi com o máximo das naturalidades que respondi ao, Olá meu Amor, estou à tua espera para a reunião de coordenação, com um, Desculpa lá, mas o meu carro não arranca. Não me podes vir buscar?
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Abriu-me a porta do carro com um sorriso e um beijo apaixonado. Estás com um olhar diferente, comentou enquanto arrancava. Eu bem te disse ontem que aquela erva era bem potente. Parece que ainda estás pedrada. Não respondi e encolhi-me no assento como se fosse um passarinho sem ninho. O beijo soube-me bem, mas não era o beijo que conhecia. Fiquei curiosa e perguntei-lhe, Lembras-te há quanto tempo é que estamos juntos? Olhou para mim surpreso e respondeu um pouco atabalhoadamente, Que raio de pergunta, lá estás tu com a mania das datas. Que eu me lembre, desde que acabámos o curso de Arquitectura. A ideia de formar o atelier foi tua. Portanto deve ser à volta duns dez ou onze anos. Acertei? perguntou no sorriso a pedir confirmação. Fiquei para morrer, mas lá consegui fazer um sorriso de aprovação para o sossegar. Dez anos? O que me estava a acontecer? Tinha um estúdio de pintura, onde dava aulas particulares, e um emprego numa agência de publicidade, como ilustradora. Vivia com um dos fotógrafos da agência há alguns anos e tinha uma filha dele. Mas onde estava tudo isso? Apetecia-me chorar.
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O resto da manhã no atelier, foi do mais surreal que poderia ter imaginado. Participei em três reuniões sobre obras em curso, onde me pediam opiniões sobre materiais a substituir, cores a alterar e soluções para erros na construção. Para meu espanto, como que entrei em piloto automático e solucionei tudo com uma certeza que não deixava dúvidas. O Jaime olhava para mim com um misto de espanto e aprovação, do tipo, vai-te a eles com força. Quando as reuniões acabaram e ficámos sós, abraçou-me com força, e sussurrou-me ao ouvido, Dá-me tesão quando os desancas assim, sem piedade. Senti-o a caminhar para o ponto sem retorno e deixei-me conduzir no prazer exausto. E uma ideia surgiu no limbo das emoções líquidas.
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Quando esperava pelo início da primeira reunião, tinha visto no jornal o anúncio de uma conferência do Professor Michio Kaku, sobre Mundos Paralelos, Mecânica Quântica e Teoria M. Na altura tinha feito apenas uma leitura bem superficial, mas o bastante para me ficar na memória. Se alguma coisa estranha se passava comigo, e eu maluca não estava, ele seria a pessoa indicada para me dar um palpite. A conferência, dizia o jornal, era da parte da tarde. Saí a correr, com uma desculpa esfarrapada ao Jaime, e apanhei um táxi para a Faculdade de Ciências. A cidade, tal como eu a conhecia, estava na mesma. Parecia que só eu é que estava diferente. Onde é que eu já tinha ouvido isto?
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No rescaldo da conferência, estávamos todos, e digo todos, num estado quase Zen de ausência de pensamento. As ideias expostas desafiavam de tal maneira o senso comum, que ficava uma espécie de êxtase, onde se compreendia tudo, mas depois não se conseguia explicar nada por palavras. Mesmo assim consegui chegar à fala com o Professor, e na breve troca de impressões, ficou-me na memória o postulado de Bohr e Heisenberg, que diz que “Para resolver a discrepância entre Ondas de Probabilidade e a nossa noção do senso comum de existência, depois de ser feita uma medição por um observador exterior, a função de onda “colapsa” magicamente e o electrão cai num estado definido.” Por outras palavras, explicou-me gentilmente o professor, Antes de se fazer uma observação, um objecto existe simultaneamente em todos os estados possíveis. Para determinar em que estado está o objecto, temos que fazer uma observação, o que faz “colapsar” a função de onda e o objecto transita para um estado definido. O acto de observação destrói a função de onda e o objecto assume agora uma realidade definida. Escusado será dizer que me sentia como se fosse o electrão a surfar nas ondas de probabilidade. Algo tinha acontecido, e eu existia num estado indefinido e precisava de alguém para me fixar num estado definido e estável. Saí dali e entrei no café em frente para beber um chá e pensar calmamente como iria pôr a minha ideia, a minha teoria, em prática.
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Enquanto o chá não vinha, procurei no telemóvel o nome do meu companheiro de sempre, como eu o lembrava. Não se chamava Jaime, mas sim Júlio. Não era arquitecto, mas sim fotógrafo. Como já esperava, não constava nenhum Júlio. Pedi a lista Telefónica e fiz uma busca pelas agências de publicidade e pelos estúdios de moda. Como sempre acontece, no último telefonema que fiz, pareceu-me reconhecer a voz dele, um pouco rouca e com uma ligeira gaguez lá atrás. Disse que era uma ilustradora que precisava de umas fotos de nus para servir de base para umas ilustrações, e gostava de marcar uma sessão. Como já calculava, disse que sim. Não conheço nenhum fotógrafo que diga que não a uma sessão de nu. Perguntou-me quando poderia ser. Respondi que tinha pressa, e se ainda podia ser naquela tarde. Quase que rezei para que ele dissesse que sim. A perspectiva de voltar para a casa desconhecida punha-me bastante angustiada. Ok, disse por fim, Apareça daqui por uma hora. Apontei a morada e chamei um táxi. Reparei na saída que o chá continuava por beber. Pensei, Este chá não pertence à minha realidade, e entrei para o táxi.
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Cheguei ao estúdio antes da hora marcada, e resolvi entrar no prédio e esperar no átrio de entrada. O estúdio era numa das lojas do rés-do-chão, e a entrada era pelo átrio. Um sofá vermelho, bem coçado, estava ao lado da porta. Reconheci o “nosso” sofá velhinho. Tantas vezes que o quis deitar fora, mas ele não deixou. Dizia que dava charme e estilo. Como é que teria ido ali parar? Sentei-me e esperei.
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Quando já começava a ler páginas de um livro imaginário, a porta abriu-se. Primeiro saíram duas raparigas magríssimas, modelos sem dúvida. Depois um caixote com rodas, cheio de roupa pendurada, empurrado pelo produtor. Olhei na direcção da porta e vi a tua cabeça assomar em câmara lenta. Olhaste para mim, piscaste os olhos, uma ou duas vezes como se quisesses certificar-te que eu estava mesmo ali, sorriste e disseste-me, O que é que estás ai a fazer? Vi-me aflito com a produção da colecção da Ana Abrunhosa. Bem me podias ter dado uma ajuda! Agora vais pagá-las, e com juros!
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Quando me beijaste, e senti o teu calor, a lembrança da outra realidade diluiu-se no espraiar da onda de probabilidade. Voltava a ser a tua mulher.
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-fotomontagem sobre desenho de Ana Abrunhosa

32 comentários:

Von disse...

Oh mulher, que raio pões tu nas palavras, que me deixas sempre com esta pedrada... de inveja, talvez...

Von

Anónimo disse...

to be or not to be or to be twice






e a fotomontagem
sugestiva,obviamente, mas também inspiradora

obrigada
beijo
anaab

Anónimo disse...

Só posso dizer:"obrigado meu amor por fazeres parte de mim!"

Zona Foto disse...

Outro texto com umas palavras excelentes. Já não é de ficar admirado mas sim esperar por mais.

MalucaResponsavel disse...

bem... estava mm embrenhada na leitura... bj e Boa Páscoa

Bichinho disse...

BEIJO FANTASMA...

luafeiticeira disse...

Arquitecta ou escritora?
Páscoa feliz e um beijo da Alice no país das Pascoavilhas.

O Profeta disse...

Mulher da ilha é solidão
É espera do vapor da madrugada
É aroma de milho em mesa de pão
É pio de milhafre, alma assombrada

Mãe em ninho feito de frias pedras
Por duras mãos cheias de jeito
Não sei se de ti brota um morno leite
Ou escorre rubra lava do teu peito


Uma Santa Páscoa


Terno beijo

ElPoeta disse...

Minha querida amiga Maria Mercedes, sempre cheia de excitação e sentimento, obrigado pelo prazer de ler os teus textos cheios de paixão. Beijos, querida,
V.

Viajante pelos Sentidos disse...

Maravilhoso! Acho que de todos os que já li, este foi o que mais gostei. Parabéns! Gostava de saber escrever assim... vou continuar a afincar-me!

Um beijo viajante!

Bombocaa disse...

Gosto de te ler. Vou linkar-te...espero que não te importes

Kissinho

Jaime disse...

Muito bem, um belo desvio, um belo desvario! Já agora, da próxima vez que o Prof. Michio Kaku der uma conferência, avisa-me, que eu também quero ir...
Beijinhos probabilísticos.

Nikita disse...

Sem dúvida o meu post preferido até agora, daqueles que já li!


Beijo grande

Paradoxo disse...

As tuas palavras são de satisfação aos meus olhos!

Cantinho dos devaneios disse...

Fantástico, como sempre!

PS1: Quanto ao acaso dos textos cruzados, terá sido acaso?... e o que será o acaso?...

PS2: Deixo-te o desafio: o meu último texto (parte III dos caprichos do acaso) termina com uma pergunta, queres tentar responder?... ;-)

O Sussurrar do Corpo disse...

Gosto deste cantinho. Parabens!
Beijo

Abssinto disse...

Essa imaginação ao rubro! Sempre ansioso por mais textos teus, me despeço com

beijos

danizitah7 disse...

mias um texto lindo...olha acabei de entrar e reparei que tens uma musica cigana que eu não tinha, e essa voz parecia da Ofelia mas já vi que não, não sei se terás essa música, pois eu gostava de a ter
sou de origem cigana, meu avô paterno era filho de casamento misto! Se tiveres avisa-me assim dou-te meu mail e envias-me :p
já agora tens mais um miminho no meu prado

arte de amar disse...

Tens um dom nas palavras.
Fico colada á tua escrita.

Beijo
Arte

Milupa disse...

-para ficar a maravilha completa devia de ser uma conferencia do Professor Michio Kaku com o Professor Stephen Hawking. =) Mais uma vez consegues me deixar avançar para além tu real, entrar na fantasia, sinto-me a visualizar toda a cena! És fantástica...


Beijos sentidos

RedLightSpecial disse...

Fiquei arrepiada, colada às tuas palavras, uma vez mais num espelho de sensações similares, em vivências diferentes, bem diferentes.
Costumo dizer que vivo várias vidas, todas ao mesmo tempo, paralelas por vezes, sobrepostas noutras.
Revi-me aqui... revivi-me talvez.
Não tenho tido tempo de passear pela blogosfera e ler os blogs que gosto, é quase um crime não vir aqui com mais frequência. Voltarei sempre que possível.
Beijo grande para ti, tinha saudades de te ler.

Adore disse...

Beijo ;)

A.ses.i.oM disse...

Entrei nesta 'ONDA'... Li... Li... Li-te... E só no final voltei a ser Eu!...

Um Abraço!... :)

Zona Foto disse...

É bom saber que se é lembrado mesmo quando não se conheçe a outra face.
D80?! Significa que vamos ter mais fotos para podermos admirar. E uma galeria de fotos? :)

Anonimo do Algarve disse...

Realmente um excelente post, a tua escrita é muito cuidada e a foto tambem é bem escolhida. Até arrepia o cabelo.

Bjs;)

Marrie disse...

Depois de lê mais este texto teu, encontro a resposta p/aquela sensação de aproximação a qual comentastes lá nos meus "segredos"..... somos muito parecidas mesmo. Loucas, livres em pensamento.... somos duas metades em partes oposta do Atlântico! rsrs
Que achas?
bjs

danizitah7 disse...

tens mais dois prémios e um questionário em meu blog ;)
eu já não tenho o emule pq o meu foi bloqueado então apaguei-o mas deixo aqui o meu e-mail muninah_dani7@hotmail.com

muitos beijinhos

PDuarte disse...

Maravilhoso.
O não "eu" que por vezes nos invade, aqui narrado de forma sublime.

un dress disse...

... reconhecer e

reconhecer-se...

all over






beijO

un dress disse...

belo desenho...:)

mariazinha disse...

tu és fantástica, pá.

cinco estrelas. devias era publicar, que isto é material de primeira. a sério.

beijos**

vertigo disse...

Fabuloso!!!!!

(parabéns pela imaginação.pelo estilo.pelo charme envolvente)

beijo

 
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