17.4.08

CAMINHOS CAMINHADOS

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Tinha o hábito de passear por ali. Começou por um acaso e por qualquer razão desconhecida passava sempre por ali. Começava longe, sem rumo definido e sem pensar. Ia vagueando por caminhos e veredas, por estradas e atalhos, e sem se aperceber, acabava sempre a passar por ali.
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As estações mudavam, a palete de cores da paisagem mudava, a temperatura mudava e com ela as vestes que levava para os passeios. Lembrava-se daquela vez que apanhara uma chuvada imensa, daquelas que já não nos importamos que esteja a chover ou a fazer frio, daquelas em que nos deixamos de sentir. Lembrava-se, porque tinha começado a chover quando ali chegara. Porque é que aquele lugar era tão especial? Seria do mar? Ao longo dos passeios passava por sítios que eram muito mais potentes e cativantes. O resto do percurso teria alguma coisa de especial? Até era um pouco desinteressante, banal e saloio. Por aí também não ia lá, pensou. Chegou a fazer pesquisa na Net e em alguns livros sobre aquele sítio. Aparte uma ou outra curiosidade histórica, uma ou outra adega famosa em tempos de vinhos que já se beberam, não havia mais nada de interessante. No entanto continuava incessantemente a ser atraído para ali. Desistiu de lutar e abandonou-se ao sei lá.
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Uma manhã, daquelas de partir pedras com o frio que fazia, saiu como de costume bem cedo e decidiu ir na direcção oposta ao percurso usual. Sentiu uma espécie de libertação e começou a ficar ligeiramente eufórico. Subiu a serra e enveredou por caminhos nunca antes trilhados. Entrou no nevoeiro e perdeu-se, saboreando aquele limbo silencioso e húmido. Vagueou em silêncio, perscrutando sons e sombras do inconsciente sonhador. Pelo carreiro a ficar cada vez mais pedregoso, percebeu que se estava a aproximar dum local habitado. O carreiro fez-se rua, a rua levou-o à estrada e a estrada desembocou no atalho. Reconheceu a casa, olhou bem para se certificar que não era engano, causado pela pouca visibilidade, e chegou à conclusão, um pouco incrédula, que estava de novo ali.
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Foi então que a viu sair de casa, difusa e etérea como um anjo. Flutuava na névoa que tudo envolvia e brilhava como uma gota de orvalho. Percebeu o que o atraía àquele lugar, o que o levara vezes sem conta até ali. O seu olhar cruzou-se fugazmente com o dela e sentiu uma queimadura na parte de trás do crânio. Não teve tempo para fazer mais nada, só o instante para se desviar do carro, que saiu apressado pelo portão da casa em direcção à estrada. Ainda sentiu, ou pensou sentir, um leve perfume a esbater-se no ar enevoado. E ficou ali, parado no tempo e no espaço, ali onde sempre quisera estar.
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Continuou a dar os seus passeios e continuou a passar sempre por ali. A diferença residia no facto de agora deixar sempre na caixa do correio da casa uma flor, ou um pequeno ramo de flores que apanhava no caminho. Nunca mais a tinha visto mas deixava sempre uma flor. Por vezes imaginava que era surpreendido a colocar a flor ou o ramo de flores na caixa do correio e corava. Se tal acontecesse, não saberia como reagir.
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Um dia, um amigo que por vezes passeava com ele, perguntou-lhe porque é que punha sempre uma flor ou um ramo de flores naquela caixa do correio, e ele respondeu-lhe simplesmente, É porque sim! O amigo nunca mais lhe perguntou sobre aquilo. Sempre que passavam por ali, e era quase sempre, o amigo já nem olhava. Era como se fosse um ritual.
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Até que um dia, passados alguns anos, passeavam como sempre pela serra e não passaram por ali. Continuaram no trilho sem desvios e com passo decidido, e ele não se desviou do caminho nem cumpriu o ritual do costume, pôr uma flor na caixa do correio. Seguiu decidido a caminho do cabo sem olhar uma única vez para trás. O amigo começou a ficar intrigado, olhava para ele a tentar descortinar o que se passava, mas ele não dava hipóteses, seguia em frente com passo decidido e vigoroso. O amigo não aguentou mais, agarrou-lhe o braço para o forçar a encará-lo de frente, e perguntou, Porque é que não passas mais ali, nem pões a flor ou o ramo de flores que costumas pôr na caixa do correio? Ele olhou para o amigo, depois olhou longe em direcção ao cabo e respondeu, É porque sim!
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26 comentários:

luafeiticeira disse...

Tu não escreves, tu pincelas as palavras.
O melhor texto de sexo que já escrevi já está postado.
beijos que te aguardam

CC disse...

E o porque sim, no fundo, tudo explica. Porque, isso mesmo, é (as)sim.

Grande abraço.

Jaime disse...

Tem uma componente onírica e enevoada que me fez lembrar alguns contos chineses, ou uma curta do Kurosawa. Ainda acabas guionista no Império do Sol Nascente. :-)

Trolha disse...

Gostei do texto. Porquê? Porque sim.

Um abraço

Zona Foto disse...

Além de belas palavras sempre acompanhada de belas fotos. :)

legivel disse...

... o amigo percebeu então que não havia lugar a mais perguntas. Porque foi buscar ao sótão da memória, os tempos em que também fizera continuadas peregrinações a um lugar onde se encontrava (imaginava ele) a mulher da sua vida. E que igualmente deixara de visitar. Porquê? Porque não?!

The F Word disse...

Há lugares que muito dificilmente deixamos de revisitar. É preciso um "porque sim" muito obstinado.

Beijinho.

Cantinho dos devaneios disse...

De cada vez que saio do meu cantinho e me ponho a vaguear, este é um dos sítios por onde não quero deixar de passar... porquê?... Porque sim!

Viajante pelos Sentidos disse...

Que maravilha... este texto com esta música... é mágico. Porque é que uma história de desencontro pode ser bela? Porque sim... porque nem sempre o final é feliz... ou porque não?

Estou a divagar... desculpa.
Adorei. Tinha saudades disto.

Beijo viajante...

RC disse...

Porque sim é sim.

Xi.

Vertigo disse...

Comandar a vida!

Um beijo

O Profeta disse...

Maravilhoso o teu texto...enebriante...


Total é a loucura do querer
Breve é chama da doce paixão
Total e insubmissa é a verdade
Que emana do teu terno coração

Sigo os passos da tua procura
Queda-se teu corpo nu em melodia incompleta
És instante da bondade dos Deuses
O canto de uma ribeira que o sol desperta


Uma mágica semana


Doce beijo

laura disse...

porque sim, gosto muito do que escreves...

Shelyak disse...

Meus queridos amigos...
Saudades que vos deixo...

un dress disse...

porque há um tempo

pra tudo

e este

passar esta caixa esta

flor

passou! apenas...

desimaginou!



beijO :)

A.ses.i.oM disse...

Sim!...
Ou Não?...
Sim!...
Porque há coisas que acontecem e não se explicam... Não tem explicação...
É porque acontecem!...
Colocar uma flor lá na caixinha e não saber se sentem o perfume... É como enviar uma carta sem saber se a leram... Mas fica sempre a esperança que leram e gostaram...
... Depois a ausência de respostas começa a deixar um vazio e a parecer que falamos para um muro...
"Uma flor pode ser bela e perfumada, adoramos a beleza e o perfume... Mas para continuar a emanar todo o encanto temos de tratar dela e pelo menos ir regando de vez em quando...."

Porque sim!...
Um Belo Texto!....

Um Beijo... :)

(agora vou ir, já estava aqui a divagar....)

Marrie disse...

Tua mente tem caminhos tão desconhecidos qto as motivações do deixar ou não a flor na caixinha de correio! rs
bjs

Anónimo disse...

É o destino ou é o quê?...

bj

Anónimo disse...

(abssinto)

Patricia Gold disse...

Hola María Mercedes....
a pesar que debo leerte despacio....entiendo tus textos...
un final triste pero hermoso a la vez...

No se..espero haberlo entendido bien..es mágico...tu música hace que lo vea así....

bellas palabras amiga...
Beijos para voçe...

Patry

Lyra disse...

Gostei, porque acho que, de facto há coisas, sentimentos, sensações, na vida que não são passíveis de se explicarem..., simplesmente acontecem-nos.
Tal como me aconteceu surpreenderes-me e gostar de te ler!

Beijinhos e até breve.

;O)

P.S.-

PDuarte disse...

"Porque sim", o último dos "porque nãos" que inverte completamente o sentido da coisa.
Lindissimo.

Elogio disse...

Olá, eu sou o lado bom.

Critica disse...

Olá, eu sou o lado mau.

VdeB disse...

muito mais do que porque não
apenas porque sim

[A] disse...

Maria Mercedes, um fait-divers???
Eu entre os famosos???


Estou a brincar. Mais do que uma ironia, aquilo era mesmo um sarcasmo-como sabes,neste país se não fizeres parte da galeria dos famosos e fíguras públicas dificilmente verás o teu trabalho valorizado por muito bom que ele seja. Mas na realidade o que interessa é ter bons amigos que nos piores momentos nos animam a continuar.

Ah...e quem me dera ter metade do teu talento para a escrita!

Beijos.

 
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