2.3.08

CONVITE PARA JANTAR

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Saiu do banho, ainda a escorrer água e sabonete, e correu nua para a janela do quarto de vestir. Afastou levemente as cortinas, no preciso momento em que o descapotável saía da garagem fronteira. Ele olhou para cima, por detrás dos óculos escuros, e a cortina fechou-se rapidamente, meio envergonhada. Só meio envergonhada, a outra metade estava dominada pela excitação que a invadia sempre que pensava nele, o vizinho misterioso e lindo de morrer, como gostava de o adjectivar. Tá bem, É piroso, Eu sei, mas gosto de o dizer. E depois? O arroz doce com desenhos de canela, também é piroso, e no entanto o D. Carlos adorava. Não há dúvida que vocês pertencem mesmo à piolheira, desabafava com um ligeiro abanar de cabeça, e mudava de tema. Não obstante a sua atenção interior, continuar focalizada no vizinho misterioso e lindo de morrer.
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Um dia, enquanto conferia o correio, verificou com surpresa que uma das cartas estava ali por engano. Ao ler a morada e o nome, sentiu as pernas a tremer. Era uma carta endereçada ao vizinho. Leu devagar, a saborear a descoberta, Professor Alberto Ganit. A carta vinha endereçada do Massachusetts Institute of Technology , mais precisamente do Departamento de Matemática. Olhou triunfante para o subscrito e tentou vê-lo à transparência, como se tentasse ver o vizinho lá dentro. Sorriu maliciosamente, agora tinha uma desculpa para conhecer o senhor professor de matemática, menos misterioso mas cada vez mais lindo de morrer.
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Nesse dia à noite, assim que o ouviu chegar, ajeitou o vestido escolhido para a ocasião, elegante e casual como convinha, compôs o penteado e decidida, atravessou a rua e tocou à campainha. A porta abriu-se, e ela imaginou-o a percorrer os passos necessários até ao portão em que se encontrava, numa lentidão própria dos filmes românticos americanos, com o cabelo a ondular na brisa e um sorriso pepsodente, ao qual só faltava a estrelinha a brilhar ao canto dos lábios. Quando o encantamento passou, como que acordou do torpor em que se encontrava, insultando-se mentalmente no microssegundo antes de lhe estender a carta, muda e esquecida de tudo o que tinha ensaiado durante a tarde. Ele, pegou no envelope com ar curioso e depois de ler o remetente, disse-lhe numa voz igualmente linda de morrer, É da minha Universidade, Ainda bem que a encontrou, Já estava a ficar preocupado! Ela sorriu, e já normal explicou-lhe que sim, do engano costumeiro do carteiro, que podia confiar nela para este tipo de coisas e que tinha gostado muito de o conhecer. Ele agradeceu, sorriu e beijou-lhe a mão na distinção elegante. Ela corou.
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No dia seguinte, já tinha saído do banho, quando ouviu o ralenti do carro dele prestes a sair da garagem. Espreitou pela cortina da janela, como de costume, e para espanto dela, viu-o a introduzir qualquer coisa na sua caixa de correio. Voltou para o carro e saiu para a rua, olhando como de costume para cima, para a sua janela. Desta vez ela não fechou envergonhada a cortina, e deixou ver por breves momentos a sua nudez na transparência do vidro. Vestiu-se a correr, desceu as escadas a dois e três, e abriu a caixa do correio no gesto sôfrego. Tinha um cartão timbrado do MIT, com umas linhas escritas à mão, diziam apenas, Convido-a para jantar, ligue-me para TT 015131.
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A cafeteira do café deu sinal de si por um bom meio minuto. Por fim, ela saiu do torpor em que se encontrava e apagou o lume do fogão. Enquanto se servia generosamente de café, bem precisava, continuou nas cogitações à volta do convite enigmático que recebera. Estava claro que era uma charada tipo Código da Vinci ou Código da Vintes mas a sério. Não imaginava o senhor professor de matemática, ainda por cima do émaiti, a alinhar em tretas dessas. Por isso só podia ser uma charada científica. Mas porquê? Pensou. Porque é que não lhe tinha dado simplesmente o número de telefone? Seria para a pôr à prova? Com certeza que sim, queria sair com ela, mas tinha colocado uma fasquia. Por isso não devia ser muito difícil, concluiu.
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Começou por escrever o valor de Pi, três vírgula catorze, e juntou-lhe o resto dos números. Obteve um número com nove algarismos, 314015131. Os números de telefone tinham nove números, mas a começar por 31 duvidava que existisse algum. Pegou no telemóvel e ligou o número, para de seguida ouvir a voz mecânica, no timbre conhecido, a dizer-lhe que o número marcado não estava atribuído. Olhou de novo para o convite e suspirou desanimada. Considerou a hipótese de mandar às urtigas o convite, mas o desafio era aliciante, já para não falar do seu amor-próprio a querer sair triunfante.
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Tentou lembrar-se de alguém conhecido que estivesse ligado às matemáticas, mas não vislumbrou ninguém. Nesse preciso momento veio-lhe à ideia o termo Quadratura do Círculo e por associação de ideias lembrou-se da sua amiga arquitecta. Lembrava-se que a amiga fizera em tempos uma casa para um cientista ligado à física das partículas. Tinha sido um projecto algo suigeneris, desenhado à mão e não em computador. Ficou suspensa na palavra computador e deu uma palmada na testa, uma daquelas palmadas que querem dizer o mesmo do que, porque é que não me lembrei disto mais cedo. E foi buscar o portátil.
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Introduziu no motor de busca o número 015131 e ficou a saber o código do papel de parede Marguaritaville. Não custa nada tentar, pensou com um sorriso, e continuou a introduzir outros factores de busca, sem sucesso algum. Já com a cabeça em água e o portátil a precisar de recarga, decidiu ir almoçar. Precisava de sair de casa, arejar a cabeça e desligar daquela paranóia dos números. Que se lixe o jantar, que se lixe o professor, por acaso lindo de morrer, pensou ainda com um sorriso assim assim.
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Quando voltava para casa, comprou um gelado de coco e natas, e como era seu hábito foi saboreá-lo, enquanto via os livros em segunda mão nas bancadas do lado de fora da livraria. Já estava a mordiscar o cone de bolacha húmida, quando o olhar foi atraído para uma capa preta. Era o romance de Carl Sagan, Contacto. Enquanto acabava o gelado e lambia os dedos pegajosos, tentou lembrar-se de uma coisa importante que tinha lido naquele mesmo livro. Era uma daquelas lembranças prestes a emergir, sentia-a a querer sair do esquecimento. Voltou atrás e foi comprar outro gelado, desta vez laranja com limão. Quando, com prazer, lambeu a bola de gelado alaranjada, lembrou-se.
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Lembrou-se da passagem em que um cientista fizera correr um programa para verificar se na sequência infinita de dígitos do número Pi, surgia algum padrão numérico repetitivo, ou alguma sequência de números primos, que pudesse ser enviada ou recebida, como uma mensagem de uma civilização extraterrestre. Soube naquele instante que a resolução estava no próprio número, algures lá dentro. Lembrou-se dos puzzles tipo Sopa de Letras que fazia em pequena. Nunca um gelado de laranja e limão lhe soube tão bem como aquele. Quando o terminou, correu para casa, abriu de novo o portátil e introduziu apenas duas letras, P e I.
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Sabia agora que o número 015131 era apenas um referencial, o local onde estava escondido o número que queria. Procurou as sequências e descobriu a Série de Beckman, com cem mil dígitos para lá da virgula. Levou o cursor até à linha dos dígitos 015101 a 015200 e foi contando os números até chegar aos 015130. A seguir lá estava o número que queria, 967504....
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Triunfante, pegou no telemóvel e ligou o número na expectativa. Uma voz linda de morrer, respondeu-lhe.
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27 comentários:

PDuarte disse...

Este texto � muito ao estilo do JRS, o do TJ.
Mesmo assim acho que escreves melhor que ele.
Tamb�m gosto do corpo da modelo das tuas fotografias.
Um beijo.

Jaime disse...

A matemática é linda de morrer, e não é nada pirosa. Nem tu. Mas não percebi o que queria dizer o TT. "Totus tuo" seria a minha hipótese de partida. Beijinhos.

laura disse...

e depois?...

Hira disse...

Um desafio à mistura acaba por dar o seu gostinho especial... :)

bjs

Cantinho dos devaneios disse...

967504844... só não vou já ligar para este número, porque em matéria de vozes lindas de morrer prefiro as femininas...

Mas cuidado, a partir de agora, outras vozes femininas ficam a saber que naquele número poderão encontrar uma voz linda de morrer, pertencente a um professor lindo de morrer... Será que ele ainda anda à procura de companhia para jantar?...

Adorei!! Simplesmente fabuloso!!

Anonimo do Algarve disse...

Gostei muito do texto, quase ao estilo do Dan Brown, nada vem sem o seu esforço, espero k a recompença tenha sido boa.
C uma modelo como essa, até eu começava a gostar de matematica, só p fazer contas à vida.

Bjs

jason disse...

hey, here is the site i was talking about where i made the extra cash, I was making about $900 extra a month...
check it out ..

Von disse...

É bastante raro comentar um blog. Ainda mais raro, percorrer blogs novos na intenção de encontrar algo que mereça a pena parar e saborear... como um gelado... como um Bounty que temos no congelador à uma semana, para o momento exacto.
Aparentemente neste caso, foi este blog que me encontrou. E mesmo se continuar a ser raro comentar blogs, aqui existe algo que merece muito ser saboreado.

Von

ps: posso sugerir uma banda sonora para este convite para jantar? The Cooltrane Quartet - Should I Stay or Should I Go http://www.amazon.com/The-Cooltrane-Quartet/dp/B000RGARGY

Jaime disse...

Agredeço-te o esclarecimento, TT como Pi faz imenso sentido como aproximação gráfica, e dá toda a coerência lógica ao teu texto. stupid me . :-)

Cantinho dos devaneios disse...

Não resisti: Feynman point...

Beijinho (sempre válido ;-))

Abssinto disse...

Originalidade:) Espero que o jantar tenha valido a pena, que ele tivesse mais a dizer do que números e fórmulas matemáticas.

bj

Adore disse...

Excelente texto...um dia quando tiver um dilema matemático já sei a quem recorrer lol

beijinho

danizitah7 disse...

gostei ^^
olha passa no meu blog, nomeei-te para o blog do dia
beijinho

VdeB disse...

Cara Maria Mercedes, estou indeciso sobre que vinho merecias hoje por este empolgante conto, as hipóteses seriam entre um Batuta e um Quinta do Vale Meão...

muito querida disse...

mto bom este texto...:)
misterioso..
bjs

mariazinha disse...

adorei a história! porque é que os meus vizinhos não são assim interessantes, hum? é uma injustiça...
(risos)

beijo*

un dress disse...

glamour-suspense...

and now? :)

VdeB disse...

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watching Maria Mercedes

" JOTA ENE ® " disse...

Adorei a musica, como os textos

Beijinho

Marrie disse...

Olá......... desculpe a ausência mas fiquei dois meses fora e com a volta ainda não consegui colocar todas as tarefas em dia. Gostei da reformulada. Não sei se entendi mal mas parece-me q agora andas a aventurar-se pelos contos?! Ou seriam mesmo histórias reais? Bom, se não quiser não precisa responder. Retornarei mais vezes e quem sabe descubra sozinha! rs
bjs e obrigada pela visitinha

Shelyak disse...

Vais-me desculpar mas, desta vez, fiquei colado à foto... ainda tentei ler o texto mas não deu... não estava com cabeça...faço-o depois...
ai ai ai

mfc disse...

Sempre desconcertante!

RC disse...

Rouca? ;)

Viajante pelos Sentidos disse...

Adorei!!!

[A] disse...

:) eu be que ficava sem jantar e pior ainda, sem homem lindo!!!

sonjita disse...

Eh ´pá... fantástico.. adorei o conto e a inclusão da matemática, dos enigmas que são sempre excitante... vejo que o teu espaço é para se gastar aqui algum tempo porque vale a pena... hoje que estou com a cabeça cheia de coisas para fazer e que ando a mil à hora nem imaginas como me soube bem mergulhar aqui por uns minutos enquanto comia a minha maça.
Gostei...
BJoka

sub_MARKADA disse...

deliciaaaaa

 
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