14.12.10

BIRD LIVES

A agulha elíptica Shure, penetrou nos sulcos algo poeirentos do disco de vinyl, e de imediato, o som do saxalto comprimiu o espaço da sala de estar e espraiou-se como uma onda até nos envolver por completo. Fechei os olhos, e fui de imediato transportada, para aquela noite quente por terras de Andaluzia.

Olhei em volta, e os edifícios em tijolo à vista que confinam a praça parecem guardiões milenários que nos protegem de um qualquer perigo não presente. Acendes uma cigarrilha e lanças-me aquele olhar, enquanto te afundas no cadeirão de verga.

Na periferia da Praça, as árvores fazem sobressair o coreto metálico, iluminado apenas pela luz da lua cheia. As sombras são de um negro puro, enquanto as luzes são de um branco prata, quase ofuscante. Pareceu-me ver uma sombra mais ténue no centro do coreto e faço-te sinal para me seguires. Levantaste agilmente com um sorriso maroto nos lábios, pensando no que eu não penso neste instante, e dás-me a mão distraidamente.

O círculo de luz prateada que envolve o coreto, rivaliza agora com o clarão amarelado que mantém as esplanadas no seu lugar. Ouvia-se um bruá de fundo algo longínquo e sinto as tuas mãos deslizarem pelos meus seios e os teus lábios de fogo no pescoço, naquele sítio que tu tão bem conheces. Fecho os olhos no instante em que começo a ouvir o som serpenteante do sax a emergir bem do centro do coreto. Começou de mansinho, mas aos poucos vai subindo de intensidade e a cadência dos acordes também sobe de ritmo. Sinto a tua respiração ofegante na nuca, o teu corpo quente a querer fundir-se no meu. Não abro os olhos quando me voltas para ti e me beijas. O sax solava agora numa profusão de substituições dementes. Ouço vozes a aconchegarem-me a ti e percebo que já não estamos sozinhos.

Sempre de olhos fechados, colo-me a ti no abraço e sinto o teu sexo sempre duro no desejo de mim. A música daquele instrumento envolve agora tudo e todos na periferia do coreto. Por incrível que pareça, fora do perímetro em que nos encontramos, como se de um círculo mágico se tratasse, ninguém ouve nada. As esplanadas continuam tão surdas como antes, no seu bruá monótono. À nossa volta, as pessoas que nos rodeiam começam a dançar espontaneamente num ritmo alucinante. Sinto a tua mão tocar-me a nudez interior e desejo que também toques o teu solo. À nossa volta sinto o rodopio frenético dos corpos que dançam quase em transe, tal como os teus dedos. O tremor e o calor que me envolve prenunciam um fim, e de facto tudo pára. A música e as pessoas que rodeiam o coreto, agora silencioso. Abro os olhos no espanto dos olhares circundantes. As pessoas entreolham-se como que saídas de um encantamento. Tudo está como antes, só nós, que ouvimos aquela música, é que estamos diferentes, juntos e unidos na comunhão de algo que se começa a esquecer rapidamente, como o acordar dum sonho. O teu olhar brilha na cumplicidade de nós. As pessoas começam a dirigir-se em direcção ás esplanadas de luz amarelada, quando são despertadas do torpor pela menina de cor que olha para o centro do coreto e grita um, Look, Look! Voltamo-nos a tempo de ver um grande pássaro branco a levantar voo e desaparecer na fronteira da luz prateada com o negro da noite.

Ao dirigirmo-nos para a luz amarelada da praça passamos pela menina de cor e reparo que um velho negro se apoia levemente no seu ombro. Vejo o velho saxofone oxidado no chão, ao lado da caixa de lata com alguns euros. Olho para aquela cara enrugada e percebo a cegueira nos olhos brancos que tudo querem ver. Chora silenciosamente. Lembro-me de em menina, na minha ingenuidade, pensar que os cegos não choravam. Sinto-me envergonhada nas lágrimas que começam a encher os meus olhos e agarro-me a ti. Levas-me dali, mas não resisto e olho mais uma vez para trás, para o velho músico negro.

O velho músico olha agora na direcção do coreto, faz um gesto vago e balbucia na voz rouca de noites passadas um, It´s you, Bird motherfucker!

(publicado no 1º Excitações)

5 comentários:

Rei Lagarto III disse...

Que saudades das agulhas "Shure" (tive um micro também).

Este texto é tão bom que comento, mesmo tendo sido escrito na 2ª pessoa e eu não gostar de comentar intimidades...

Beijo grande

Pekenina disse...

Tenho que voltar para reler melhor... Merece!

Fica para já um beijo (este em violino) e a certeza de um regresso.

Pekenina

Malena disse...

Mi querida María Mercedes: Te deseo una Feliz Navidad y un 2011 lleno de salud y alegrías.

Mil beijos e mil rosas.

▒▓█► JOTA ENE disse...

ººº
Gostei amiga ...

... E PORQUE O NATAL ESTÁ PRÓXIMO ...

Hoje passei aqui p'ra te desejar um Bom Natal com tudo de bom...

PAZ, AMOR, SAÚDE e dinheiro p'ra gastos ...

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Bjooooooo do Jota

PS - Um outro sítio do Jota p'ra visitares:
http://hard-jota.blogspot.com/

Lobo disse...

Um texto envolvente e sentido!...
Sente-se!...

Adorei ler-te!...

Quero agradecer a Tua visita ao meu 'cantinho'...

Irei voltar...

Beijos doces...
lobo

 
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